ENTREVISTAS
"Nossos corpos cansados são o motor desse mundo", diz Michelle Prazeres
Por que estamos sempre tão cansados? Pesquisadora revela o que está por trás da exaustão


A exaustão deixou de ser apenas uma consequência da rotina e passou a fazer parte de um sistema que exige produtividade e consumo constantes. Para a jornalista, professora e pesquisadora Michelle Prazeres, os “corpos cansados” são fundamentais para manter essa dinâmica, que reduz o tempo disponível para o convívio social e dificulta a participação coletiva.
“O cansaço é uma questão coletiva, e, portanto, a gente não pode pensar em saídas individuais”, diz ela, nesta entrevista ao A TARDE. Autora do livro “Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?”, Michelle analisa como a aceleração do cotidiano afeta as relações humanas, a saúde mental e a capacidade de imaginar outras formas de viver. Ela também critica a ideia de que todo tempo precisa ser produtivo e defende que “tempo livre também é tempo para as pessoas não fazerem nada”.
Na entrevista, a pesquisadora aborda ainda as desigualdades no acesso ao descanso, a responsabilidade das empresas na promoção da saúde dos trabalhadores e os efeitos das plataformas digitais sobre a atenção. Para ela, desacelerar exige mais do que escolhas individuais: depende de mudanças coletivas que garantam o descanso como um direito.
Queria começar a entrevista já falando do seu livro ‘Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?’. Em um mundo em que tudo parece urgente, o que estamos deixando de enxergar quando colocamos a urgência acima das pessoas?
A gente está deixando de enxergar tanta coisa, porque uma das coisas que esse mundo está fazendo é turvando a nossa visão para tudo que é humano. Por isso que o título do livro é um convite para pensar como essa urgência é fabricada. Essa pressa instituída como regra, essa velocidade que se estabelece como violência, como ela tem sido sequestradora da nossa humanidade, da nossa condição de gente. Nesse guarda-chuva, dá para botar um monte de coisa. A gente deixa de ver a importância da festa, da celebração, da vida em comunidade, a importância de escutar o outro, de não fazer nada. A gente começou a chamar o tempo de tempo improdutivo, mas o tempo é o tempo, ele é improdutivo por essência. Com isso, a gente deixa de reparar nas coisas que são realmente importantes.
A pergunta do livro é uma provocação. Primeiro, se tudo é urgente, nada é urgente. Essas urgências que esse mundo fabrica não são urgências genuinamente nossas. Elas são urgências que operam a favor de um modo de vida que não é vida. Ele tira a nossa vivacidade, a nossa beleza, o nosso prazer. Ele sequestra esse prazer das coisas. Vai turvando a nossa visão e vai, inclusive, criando uma falsa ideia do que é futuro, do que é sucesso, do que é ser bem-sucedido, do que é ser gente nesse mundo. Eu costumo dizer que a desaceleração não é ser devagar. É justamente exercitar a nossa humanidade - parar, pensar, sentir e se religar ao que importa. E se perguntar quando essa velocidade faz sentido e quando não faz. Porque quando ela não faz e a gente corre só porque está no automático, entra nesse modo de urgência que turva a nossa visão e sequestra a nossa humanidade.
Você diz que a exaustão é uma das formas de dominação do mundo contemporâneo. Como o cansaço pode deixar de ser apenas uma consequência da rotina e passar a funcionar como parte de um sistema que organiza a vida?
Eu costumo dizer que os nossos corpos cansados não são consequência desse mundo, eles são o motor desse mundo. Para esse mundo funcionar, as pessoas precisam trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, com essa produtividade tóxica. A sociedade do desempenho quer que a gente consuma o tempo inteiro. Consuma inclusive soluções que supostamente são de bem-estar. Consuma uma vida que supostamente é saudável, produtos e serviços que fazem essa roda girar. E ficamos gastando nosso tempo nas redes sociais, nas plataformas digitais para esse mundo continuar se reproduzindo. Esse mundo não tem como consequência um corpo cansado, tem como motor um corpo cansado.
Porque se a gente está cansado, exausto, se a gente trabalha o tempo todo e consome o tempo todo, a gente está suficientemente capturado pela dinâmica que preenche no trabalho, no consumo e no desempenho o tempo todo. Estava agora conversando sobre isso com os meus alunos. Você começa de fato a sentir um tipo de desamparo e de desespero que te deixa apático, que te impede de enxergar possibilidades diferentes de mundo, que te impede de ter esperança e de ter condição física real de se interessar pelo outro e por uma vida mais comunitária. Aí, você começa a viver uma vida mais isolada e individualista, bem mais fragmentada. E você, de fato, acredita que precisa correr atrás do seu. Porque, afinal de contas, a gente é, de alguma forma, colocado nesse modo. Por isso, digo que o cansaço é uma questão coletiva, e que, portanto, a gente não pode pensar em saídas individuais. Se a gente não entender ele como uma questão sistêmica, produto, mas também motor desse mundo, a gente vai prescrever descanso.
Então, vai lá, chega 30 minutos mais cedo e dá um cochilo. Quem é que pode cochilar nesse mundo, pelo amor de Deus? Quando a gente trata o cansaço como questão individual e não sistêmica, tende a pensar em saídas individuais que viram escolhas possíveis para pouquíssimas pessoas numa sociedade desigual como a nossa. Quando eu entendo o descanso como direito e o cansaço como questão coletiva, o que eu estou querendo dizer é que, em vez de prescrever descanso e dizer descansa aí, medita aí, acorda cinco minutos mais cedo e vai a pé, a gente tem é que garantir condições para que todos possam descansar. Senão, a gente está reproduzindo essa desigualdade e não ajudando a revertê-la.
Você escreveu, num artigo recente, que “corpos cansados não fazem política, não se rebelam, não constroem comunidades”. Qual é a relação entre exaustão, capacidade de participação social e vida coletiva?
Eu vinha falando, a partir da perspectiva da minha pesquisa científica. Ela é sobre aceleração social do tempo relacionada à questão da comunicação. Mas não a comunicação em sua funcionalidade, de transmissão de informação. Essa comunicação está mais relacionada à nossa prática de construção de comunidade, comunhão nesse sentido. E aí, a erosão que eu tenho chamado é: com toda essa vida acelerada, dataficada, determinada pelas plataformas digitais, com um consumo muito acelerado de informação, a desinformação, como isso tem levado a essa experiência fragmentada.
Que não é experiência, é uma sequência de vivências. Um monte de coisa que a gente vai fazendo e depois tem a sensação de que não fez nada direito ou não fez nada. Como essa vida termina ordenando também uma percepção da política ou de existência mais coletiva como algo que não desperta interesse, e gera uma certa apatia. Quando a gente está sentindo esse desamparo, essa angústia, e essa fragmentação, e esse isolamento que tudo isso produz, os sentimentos mais comuns de a gente mobilizar são o medo e a apatia. Se eu não parar, não pensar, não sentir, não me juntar com os meus, é muito difícil nutrir alguma esperança. Eu abro o último capítulo do livro, falando sobre espera, esperança e desespero serem a mesma palavra. E como que a gente tem mexido com esses afetos, o medo, a falta de interesse na política, a falta de crença nas instituições, essa ideia de que é tudo igual. A serviço de quem está esse discurso? Porque não é a serviço de uma não política.
Quem ganha no mundo da política com esse discurso são as pessoas que sustentam o seu fazer político no medo, na apatia, na desesperança. Porque não é verdade que esse espaço não vai ser ocupado por ninguém. Esse discurso de que é tudo igual está a serviço de alguns. O termômetro do meu bem viver, eu cito isso no meu artigo, me deixou triste porque é uma realidade muito dura para uma pessoa como eu, que acredita nas relações humanas, nos afetos, acredita no interesse genuíno pela diferença e pelo diálogo, e acredita no diálogo como forma de construção de coisas bonitas.
Acredito na festa, acredito na comunidade, acredito no grupo. É muito triste perceber que esses dados mostram o quanto, especialmente a juventude, está desconectada de uma ideia de esperança, de possibilidade de futuro, de possibilidade de um mundo diferente e da possibilidade de a gente ter agência sobre esse futuro. Porque o que essas pessoas contam é que eu não quero ir lá votar, ou eu não vou votar, porque eu não tenho esperança, porque realmente o mundo acabou. E é importante a gente saber que o mundo está acabando todo dia.
O Ailton Krenak (líder e pensador indígena) fala isso para a gente. Ele diz que o discurso de fim do mundo não pode nos desmobilizar da possibilidade de futuro. Pelo contrário: a gente tem que entender que todo dia o mundo acaba um pouquinho, mas a gente tem agência sobre esse futuro. E o que a gente está fazendo quando a gente diz ‘ah, não quero votar’, ou ‘é tudo igual’, ou ‘não tenho mais esperança’, é se omitir da possibilidade de transformar. Se eu não acreditasse que é possível a gente transformar, não levantava todo dia para fazer o que eu faço.
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Você falou da angústia, da esperança e também da culpa temporal, que é aquela sensação de que deveríamos estar fazendo algo produtivo quando paramos. Como essa culpa foi sendo construída ao longo do tempo e por que ela se tornou tão comum na nossa sociedade?
O Byung-Chul Han, um dos autores que estudo, chamou de “sociedade do cansaço” essa história de que não é só o fato de a gente trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana. É também o fato de que a vida pelas plataformas e pela tecnologia dissolveu um pouco essas bordas entre a vida pessoal e o trabalho. E é também o fato de que mesmo quando a gente não está trabalhando, se é que isso existe, está performando para as plataformas digitais. Essa coisa de só vivi depois que eu postei.
A coisa só existiu porque eu postei, ou eu postei e fico lá checando quantos likes, quantos comentários e tal. Essa captura ininterrupta da nossa atenção pelas plataformas digitais também é uma forma de produção do cansaço. Quando falo dessa culpa, é uma culpa que tem origem, primeiro, na ideia de que preciso estar performando o tempo todo. Mesmo quando não estou trabalhando, estou desempenhando. E aí essa ideia de que tenho que dedicar todo o meu tempo ao que é útil e produtivo. Quando não faço isso, portanto, estou sendo inútil e improdutivo, e isso é ruim. E aí temos essa atribuição de valor ao tempo improdutivo como um tempo inútil e, portanto, ao que eu estou fazendo com esse tempo improdutivo, que pode ser nada. Atribuição de valor negativo a isso é o que faz a gente sentir essa culpa. E sentir até dificuldade de não fazer nada.
E isso tem a ver com esse debate do fim da escala 6x1. A gente está lutando por tempo livre para os trabalhadores e trabalhadoras, e o debate gira em torno do ‘tá, mas o que as pessoas vão fazer nesse dia livre?’ Ora, nada! Tempo livre também é tempo para as pessoas não fazerem nada. Quando a gente tem que batalhar para as pessoas compreenderem a importância de um tempo para não fazer nada, é porque realmente a gente chegou num lugar muito extremo dessa compreensão de que o tempo tem que ser usado, gerido, controlado e direcionado apenas para o que é produtivo. É justamente essa ideia que está fazendo com que a gente não consiga mais, como sociedade, dedicar tempo ao que nos faz gente, que é o descanso, as conversas, a arte, as festas, enfim.
Você afirma que descanso não é recompensa pela produtividade, mas um direito. O que seria, na prática, um descanso profundo, diferente das pequenas pausas que apenas funcionam como “antídotos da exaustão”?
Tem muita literatura hoje sobre os vários tipos de descanso. Que falam, por exemplo, que um corpo condicionado a vida inteira a um determinado jeito de funcionar, não adianta essa pessoa dormir oito horas por dia, porque o descanso se dá numa ordem mental. Então, tem toda uma discussão sobre o trabalho do cuidado e como isso gera uma carga mental, especialmente na vida das mulheres, sobretudo das mulheres negras. Não adianta você ter o descanso físico, porque isso não vai desligar nunca. Esse estado permanente de prontidão e que se aplica, sim, a determinadas pessoas e a talvez outras não, é um estado que demanda tipos de descanso que o descanso físico, o sono, não vai resolver. Quando a gente fala assim, ah, tem que dormir oito horas por dia… Esse tipo de prescrição.
Quando a gente sabe que a realidade da maior parte da população trabalhadora brasileira não é essa. Além de não dormir oito horas, a pessoa cuida de alguém em casa, leva três, quatro horas no transporte público para se deslocar. Então, não é uma questão de escolha e apenas de descanso físico ou fisiológico. Esse descanso profundo, na minha modesta opinião baseada na minha pesquisa de tantos anos, só vai acontecer quando a gente entender que o descanso é um direito. E para que ele seja exercido e reivindicado como direito, precisa estar conectado a outros direitos. Não dá para falar de descanso profundo se essa pessoa não tem um lugar onde morar. Não dá para falar de descanso profundo se ela não tem o que comer. Não dá para falar de descanso profundo se ela trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana cuidando de alguém e esse trabalho de cuidado não é reconhecido, remunerado e é invisível. Não dá para falar de descanso se não tenho acesso à saúde ou à educação de qualidade. Não dá para falar do direito ao descanso se não vou comer.
Essa ideia de que a saúde mental, o bem-estar e o cuidado são questões individuais, tem levado a gente até a uma consequência extrema disso que (a psicóloga) Flávia Albuquerque tem chamado de “patologização” da vida. A gente tem patologizado e medicalizado e chamado de transtorno muitos sintomas que são questões sociais. Não adianta dizer para uma pessoa descansar se ela não tem onde morar, o que comer e como cuidar da saúde. Esse descanso profundo, para mim, tem a ver com a justiça temporal, reconhecimento do tempo como uma questão de justiça social e o reconhecimento de que esse descanso profundo só vai acontecer se essa pessoa tiver dignidade. E para ter dignidade ela tem que ter acesso a outros direitos.
Aprofundando essa questão, de que maneira classe social, gênero, raça, idade e maternidade determinam experiências diferentes do tempo, do cansaço e do direito ao descanso?
No livro eu falo da pobreza temporal e de como a pobreza temporal tem raça, gênero. E com isso, quero dizer que a gente precisa pensar na “cronomeritocracia”, que é o nome que dei a aplicação de uma ideia meritocrática ao tempo. Ah, todos temos as mesmas 24 horas e basta você querer e se organizar que vai dar conta de tudo que precisa. E a gente sabe que isso não é verdade. Então, até na coluna dessa semana eu conversei com o (Rodrigo) Iacovini, que é diretor do Instituto Pólis. Eles fizeram um estudo que mostra que, aqui em São Paulo, uma pessoa que mora na periferia economizaria três anos de vida em deslocamento, se morasse num bairro central. Esse dado pra mim é quase um desenho da ideia de “cronomeritocracia”.
Quando a gente começa a cruzar ele com aspectos de gênero, de classe, de raça, a gente vai vendo que ele pode piorar muito mais esse dado. Quando a gente pega, especialmente numa realidade urbana e confronta a experiência temporal das mulheres negras e que cuidam de pessoas, com um homem branco que mora no centro e não cuida de ninguém, ou até tem essas pessoas em casa mas uma mulher faz esse trabalho para ele, a gente vê que essas experiências são muito diferentes. Mas quando a gente leva isso para o coletivo, percebe que toda questão da mobilidade urbana, do direito ao transporte, toca essa questão.
E aí, quando eu digo dessa existência ser atravessada por marcadores sociais de desigualdade, é disso que estou querendo falar. Se a gente acha que o tempo das pessoas é o mesmo e que basta a pessoa querer para ela conseguir, por exemplo, chegar pontualmente, não se atrasar, está ajudando a reproduzir algumas desigualdades. Não é verdade que todo mundo tem as mesmas 24 horas e que basta se organizar. Essa pessoa que leva três horas por dia no transporte coletivo não tem a mesma condição de chegar às 9 horas do que a pessoa que está lá fazendo a sua ginástica e vai a pé para o trabalho depois. A gente está falando de realidades bem distintas. Portanto, não é uma questão de escolha de tempo. É uma questão de justiça temporal.
No ambiente de trabalho, você identifica empresas que praticam o chamado “wellness washing”, com ações pontuais de bem-estar, enquanto outras tentam construir culturas regenerativas. Como distinguir uma mudança estrutural de uma iniciativa apenas superficial?
Eu acredito muito que as empresas e as organizações, enfim, as entidades que empregam pessoas, têm um papel fundamental na transformação dessa realidade. E aí o que eu chamo de “wellness washing” tem a ver com uma compreensão que chamo de performance do cuidado. Em vez das empresas entenderem a importância de cuidar das pessoas, e agora temos a NR1 que regulamenta isso, a corresponsabilidade. Diferente do que muitos discursos de ameaça estão falando por aí, a NR1 diz assim: é uma co-responsabilidade da empresa e das pessoas o trabalho de cuidado. E corresponsabilidade é todo mundo cuidando do que acontece dentro do mundo do trabalho. As empresas têm esse lugar fundamental na promoção de um ambiente não tóxico de trabalho. Eu não estou dizendo que é obrigação da empresa fazer com que as pessoas sejam amigas no trabalho, ou pagar terapia para os seus colaboradores, não é exatamente isso.
O que estou dizendo é: cuidar dessas pessoas é uma corresponsabilidade de todos nós. A empresa faz, no Setembro Amarelo, uma campanha linda de conscientização, mas isso não faz com que ela olhe para as suas metas, para os seus modos de trabalhar, para o assédio moral e sexual que está acontecendo lá dentro, para a sobrecarga dos seus trabalhadores. Para o que está acontecendo com aquele trabalhador, com aquela trabalhadora, se ele precisa cuidar de alguém em casa. Eu faço um Setembro Amarelo lindo, boto lá meu selo de lugar bonito para trabalhar e depois disso, quero que todo mundo continue entregando com os prazos inexequíveis, com a sobrecarga, com o adoecimento.
E não converso sobre isso no meu cotidiano. Quando eu digo da importância das empresas e do mundo do trabalho na construção do bem-estar, do cuidado e da saúde mental, o que eu estou querendo dizer: é, sim, obrigação das empresas não ser um lugar de adoecimento. E para não ser um lugar de adoecimento, a gente tem que começar a falar sobre isso e mapear o que é a responsabilidade de cada um. O que está no âmbito das relações de trabalho e o que é, sim, obrigação de uma empresa e de uma organização que emprega pessoas, garantir como direito para que essas pessoas possam acessar o descanso.
Como você já disse, a nova realidade das redes sociais amplia a pressão pela exposição e pela performance. O que está por trás dessa necessidade de mostrar constantemente que estamos vivendo, trabalhando e produzindo?
Eu acho até que a gente já avançou bastante na compreensão de como as redes sociais não são só um lugar onde a gente acessa conteúdo. Acho que hoje a gente já tem uma percepção um pouco mais avançada de que esses são mecanismos de trocas comportamentais. Eu digo que as plataformas sociais parecem dispositivos tecnológicos, mas elas contrabandeiam valores. Entre eles, a velocidade. Por que a gente acha que é desejável ser rápido? Em alguma medida, isso tem a ver com valores que esses dispositivos tecnológicos fazem circular. E aí, também é desejável ser amigo de todo mundo, também é desejável ter um monte de seguidor, também é desejável ser bonito a partir de uma ideia de estética, que também é um padrão.
Também é desejável viajar e sair postando fotos da viagem. A construção que a gente acredita ser uma boa vida ou bem viver, passa muito pelo que circula nas redes sociais hoje. E a gente sabe que esses conteúdos passam por um tipo de mediação que a gente não tem controle nenhum. A gente começa a ter algum ensaio de regulação quando diz o que pode, o que não pode, o que pode para criança. O ECA Digital vem um pouco nesse sentido, porque a gente começa a entender que, para além de conteúdos, o que essas plataformas fazem, é o que o pessoal do Minuto de Sua Atenção define como “extrativismo da atenção”. Para além de nos transmitir informação, o que essas redes estão fazendo com a gente, é ganhar muito dinheiro vendendo a nossa atenção como mercadoria. E aí, onde a gente coloca a nossa atenção, é que é o grande barato para essas empresas.
E quando a gente fala que as redes sociais contribuem com essa concepção de cansaço, olha que paradoxo: elas contribuem com isso porque elas nos exaurem e fazem a gente acreditar que a gente tem que ser produtivo o tempo todo, desempenhando o tempo todo, bem o tempo todo. Feliz o tempo todo, viajando o tempo todo, que o outro tá sempre podendo um pouco mais que eu. É tóxico também nesse sentido. Ninguém fala de suas mazelas na rede social. Ninguém tem uma vida ruim na rede social. E, ao mesmo tempo, elas vendem soluções fáceis para isso. Então, se você acordar numa insônia de madrugada, provavelmente vai ter uma promoção com um grande cupom vendendo a solução maravilhosa para alguma coisa que, ao longo do dia, enfrentou como um problema porque ela consegue mapear a partir do seu comportamento o tipo de problema que você está atravessando. Ela sequestra esse desejo porque transforma os nossos corpos em corpos muito apáticos.
Se você perguntar pras pessoas na rua, qual é o seu sonho hoje? O que você gostaria de fazer amanhã? O que você deseja hoje? Muitas pessoas vão ficar perdidas com essa pergunta e, ao mesmo tempo, o que você quer? Elas vão dizer ah, eu queria comprar tal coisa. Porque elas sequestram também a nossa capacidade de desejar e entregar para gente na forma de mercadoria uma solução fácil pra esse suposto desejo. É uma loucura porque é complexo, é muito ambivalente e atua num âmbito tão sensível que as pessoas ficam sem capacidade de dizer isso que eu planto como sementinha que é o “não, espera. O que será que está acontecendo aqui? O que será que estou querendo mesmo? O que será que eu preciso mesmo? Isso daqui tá a serviço de quê?” Se a gente plantar essas perguntinhas no nosso cotidiano, vai cair em bem menos armadilhas.
Quais mudanças coletivas seriam necessárias para que desacelerar deixasse de ser um privilégio de quem pode escolher como administrar o próprio tempo?
Se a gente entende que a aceleração e o cansaço são questões coletivas, a gente precisa de saídas também coletivas. Ao mesmo tempo, é muito duro anunciar essa realidade e dizer que as pessoas não podem se mover individualmente. É evidente que é possível você fazer boas escolhas. Então, se pergunte: o que é possível para mim escolher agora? É não ficar tanto tempo rolando as telas nas redes sociais, é tirar as notificações do meu celular, é abrir mais espaço na agenda para ficar com as pessoas que eu amo, é tirar o celular da mesa na hora das refeições. Essas coisas miudinhas que fazem a gente se reconectar com a ideia de que a gente é qente e que tem outras pessoas para chamar de nossas, e que está grupo, em coletivo. Isso já é um pouco o antídoto para isso tudo. No âmbito das relações, do que é possível, cuida de sua plantinha, fica mais tempo na natureza.
Mas quando a gente diz isso para alguém que está vivendo absolutamente no modo de sobrevivência, impossibilitado de fazer essas escolhas, isso pode soar muito violento. Para essas pessoas, digo: algumas impossibilidades de escolha a gente precisa abraçar, viver com elas por algum tempo, entender que a mudança desse cenário só virá se de fato uma transformação muito grande ocorrer. Hoje para um trabalhador absolutamente sequestrado pela sobrevivência, tendo que trabalhar durante sete dias por semana, quando a gente fala, descanse, fique mais tempo com sua família, ele vai dizer: veste meu sapato e venha pagar meu boleto. Mas se a gente viver uma transformação relacionada à regulação das plataformas digitais, à regulação do trabalho em plataformas, ao reconhecimento do dia do descanso como um direito do trabalhador.
Se a gente viver essas macros transformações talvez isso reverbere como possibilidade de escolha para essas pessoas que estão tão aprisionadas nessa lógica hoje. Essas coisas caminham de forma paralelas. Por isso que, no Instituto Desacelera, a gente trabalha promovendo essas ações para que as pessoas possam acessar o descanso. Bolsa Descanso para que as pessoas possam abandonar atividades de trabalho e descansar. E, ao mesmo tempo, a gente produz conhecimento para incidir em políticas que possam transformar a realidade de um jeito mais macro para que todo mundo tenha a possibilidade de escolher. Eu não acho que está perto da gente conquistar isso, mas está mais perto do que já esteve.
Raio-X
Michelle Prazeres é jornalista, professora e pesquisadora. Autora do livro “Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?”, é fundadora do Instituto Desacelera e colunista do UOL Viva Bem. Leciona no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unip (SP) e no curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. É mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, doutora em Educação pela USP e realizou pós-doutorado em Comunicação e Semiótica na PUC-SP, com pesquisa sobre as relações entre comunicação, tecnologias e aceleração social do tempo.


