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“Precisamos confiar uns nos outros”, diz Rebeca Matta sobre novo álbum
Cantora baiana apresenta trabalho que mistura ritmos africanos e percussão baiana


Rebeca Matta é um dos maiores enigmas da música baiana. Em quase 30 anos de carreira (considerando o início com Tantas Coisas, de 1998), parece só ter lançado álbuns quando tinha algo de fato a dizer.
Contando com o recém-lançado Pélvica, foram apenas cinco – sendo que o último, À Flor da Pele (2013), foi um DVD ao vivo. Agora, 13 depois, volta com o que parece ser seu trabalho mais solar, mais baiano e mais percussivo. Pélvica, lançado pelo selo Alá Comunicação, chegou às plataformas digitais no último dia 30.
Foi produzido à seis mãos: pela própria Rebeca, pelo guitarrista e produtor baiano Enio Nogueira e pelo produtor carioca Guilherme Kastrup, ninguém menos que o responsável pelos dois últimos álbuns de Elza Soares, os aclamados e premiados A Mulher do Fim do Mundo (2015) e Deus é Mulher (2018), entre outros créditos.
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Eterna mutante, Rebeca Matta fez de Pélvica sua entrada na MPB de caráter mais pop e contemporânea, acenando para sons urbanos que, apesar de muito baianos, soam também muito universais hoje em dia – muito graças à explosão da estética sound system via BaianaSystem, uma referência muito presente em Pélvica, desde a primeira faixa.
Ao mesmo tempo, a cantora se mantém muito fiel ao próprio espírito experimentador e desbravador que vem demonstrando desde Tantas Coisas. A seguir, Rebeca fala do álbum, do que vai em sua cabeça e revela datas do show de lançamento, entre outros assuntos.
Confira a entrevista completa
É bastante evidente em Pélvica a influência da estética sound system, além de um investimento claro em sons percussivos de sabor claramente local. É legítimo afirmar que, ao menos na forma, este é seu álbum mais baiano?
A mistura sempre esteve muito presente no meu trabalho. Em Pélvica, os ritmos africanos chegaram com muita força, especialmente a polirritmia, que foi uma das minhas grandes experiências durante a criação do álbum.
A Bahia, com toda a sua riqueza musical, sua relação com o corpo, com a dança, com a percussão, foi chegando cada vez mais intensamente à minha sensibilidade. Rebeca Matta
E a música brasileira também, com toda a sua diversidade. Foi um processo muito ligado aos meus afetos daquele momento, ao desejo de experimentar ritmos, instrumentos, sonoridades e descobrir o que poderia surgir desses encontros.
O álbum foi produzido por você, Ênio Nogueira e Guilherme Kastrup. Como foi esse trabalho a seis mãos? E como ele se refletiu no resultado final?
Começou comigo, num processo de quase dois anos de criação e pré-produção. Fui construindo cada música, experimentando instrumentos, ritmos, melodias, arranjos, dando a cada uma o tempo que ela precisava. Fui me deixando seduzir pelas próprias músicas, pelas descobertas que elas iam me trazendo. Quando pensei em convidar outros produtores, queria pessoas que tivessem uma sintonia com essa pesquisa e que pudessem intensificar o que eu já havia criado.
Admiro muito o trabalho de Guilherme Kastrup, especialmente nos discos A Mulher do Fim do Mundo e Deus É Mulher, de Elza Soares. Aquela força rítmica, a experimentação com o samba e com a música brasileira me tocaram muito. Ênio Nogueira é um artista muito importante na música baiana, um produtor de uma sensibilidade enorme, com quem já trabalho há algum tempo. Temos uma amizade e uma sintonia musical muito fortes. Admiro sua maneira de pensar a música, as guitarras, os sintetizadores e as possibilidades rítmicas desses instrumentos. Sua sensibilidade e sua participação foram fundamentais para intensificar tudo o que estávamos construindo.
Gravamos no estúdio A Lagoa Grande, de Paulinho Rocha, em Salvador, com Kastrup na bateria e percussão, Ênio nas guitarras e sintetizadores e Carla Suzart nos contrabaixos. Carla foi uma escolha muito especial. É uma amiga querida, artista incrível, que mergulha intensamente em tudo o que faz. E me interessava muito também a presença de uma mulher no contrabaixo, um instrumento grave, historicamente muito associado aos homens. A força, a sensibilidade e a maneira como Carla se coloca na música trouxeram uma presença feminina muito importante.
Uma experiência muito viva, de muita liberdade. Tínhamos a estrutura e beats que eu havia produzido, mas continuamos experimentando, descobrindo caminhos, criando possibilidades. Essa troca intensificou muito a música e foi fundamental para o resultado final. Toda a mixagem e masterização de Pélvica foram realizadas por Victor Vaughan, no Estúdio Ori.
Victor é um dos grandes nomes da engenharia de som brasileira, um músico e produtor de enorme sensibilidade, que trouxe, junto com as edições dos produtores, uma contribuição muito especial para a sonoridade do álbum. Sua escuta, sua musicalidade e sua maneira de trabalhar foram fundamentais para intensificar as texturas, os ritmos e toda a riqueza sonora que fomos construindo.
Falando em grandes nomes, o single Olho no Olho traz um ‘dream team’ de convidados. Como foi essa seleção?
Acho que a própria música foi fazendo seu chamado. Cada artista foi pensado com muito carinho, pela admiração que tenho por seu trabalho e pela sensação de que poderia entrar naquele universo e trazer algo muito especial. E foi incrível como cada um chegou e a música foi crescendo.
Robertinho Barreto, do BaianaSystem, foi um dos últimos a gravar. A guitarra baiana que ele trouxe parecia que já estava esperando por aquela música. Mateus Aleluia, com sua voz no final, trouxe uma ancestralidade, uma sensação de mistério, de magia e de encontro que me emociona muito. Fernanda Monteiro deu vida e calor humano ao violoncelo que eu havia criado no arranjo. Larissa Luz trouxe a potência da mulher negra, uma força muito especial naquele momento da canção. Chico César mergulhou na interpretação com uma entrega incrível e sua voz marcante e potente.
E tivemos também Lan Lanh, Carla Suzart e Guilherme Kastrup trazendo suas contribuições tão especiais e únicas. Cada um fez sua gravação e também seu próprio registro em vídeo, em lugares diferentes. Filmei as participações feitas aqui e cada um fez sua própria filmagem das gravações, às vezes em um lugar diferente e depois editei o videoclipe, reunindo todos esses encontros.
Foi uma experiência muito bonita de colaboração, de confiança, de sentir a música se transformando com a presença de cada um. Acho que Olho no Olho acabou vivendo, na sua própria criação, aquilo de que ela fala. Rebeca Matta
Em um tempo em que a maioria dos artistas aposta em EPs e singles soltos, você vem com um álbum que pode-se dizer que é conceitual, para ser ouvido inteiro, do início ao fim. Uma ousadia nos dias de hoje, mas que é perfeitamente coerente com sua persona artística e trajetória. O que Pélvica quer nos dizer em sua totalidade?
Passei treze anos sem lançar um álbum. Tenho quatro discos anteriores, cada um com sua estética, seu momento, seus encontros.
Minha relação com a criação sempre foi movida pelo desejo. Quando alguma coisa me toma, eu mergulho intensamente, como se fosse a coisa mais importante que já fiz na vida. Foi assim com Pélvica. Esse álbum nasceu de uma liberdade e de uma autonomia criativa que foram muito valiosas pra mim. Rebeca Matta
É um trabalho atravessado pelos meus afetos, pelo que estou sentindo da vida, pelas questões políticas e pelo desejo de experimentar outras possibilidades de existência. Pélvica fala muito do movimento, do corpo, da dança como uma forma de sentir e de se relacionar com o mundo. E fala principalmente do encontro, da confiança, da nossa capacidade de estar juntos, de olhar nos olhos, de abraçar, de construir alguma coisa coletivamente.
Vivemos um momento político muito intenso, que nos colocou numa espécie de encruzilhada e também nos fez perceber a potência que temos quando confiamos uns nos outros. Rebeca Matta
Acho que Pélvica traz muito esse sentimento. É um álbum sobre a vida, o amor, a possibilidade de nos transformarmos e de continuarmos acreditando uns nos outros e também de não engolirmos caruru azedo, nunca. De continuarmos realmente vivos.
A parte visual é muito importante no seu trabalho. Como resolver isto neste momento? Haverá edição física (CD, LP) do álbum? Se resolve nos vídeos, nas redes sociais?
Sou artista visual e multimídia, e as imagens estão presentes em todo o meu processo de criação. Enquanto fazia Pélvica, eu via muitas imagens, mas eram principalmente sensações, movimentos, sentimentos que às vezes nem sabemos nomear. As músicas nasceram muito desse lugar.
Há poucos momentos mais narrativos, como em O Som do Silêncio, que traz uma experiência minha caminhando pelo Rio Vermelho, voltando para casa, observando e sentindo o que acontece ao redor. Uma colaboração muito especial nesse processo é com Chico Preta, um artista incrível que criou a marca de Pélvica.
A partir dessa criação, comecei a construir máscaras com fios de cobre, pensando no cobre como condutor de energia, nessa ideia de conexão, de algo que circula entre os corpos. Fui experimentando diferentes máscaras até chegar àquela que aparece na capa do álbum, onde a marca criada por Chico Preta também está estampada na roupa. E essa parceria continua se desdobrando.
Chico Preta vem criando animações da marca, explorando cores, movimentos e diferentes formatos, contribuindo muito para a construção dos vídeos e de todo esse universo visual que estamos desenvolvendo para Pélvica. É uma troca artística muito bonita, em que uma criação vai provocando outras.
Tenho um desejo enorme de lançar Pélvica em vinil, e espero conseguir realizar isso. Enquanto isso, os vídeos, as imagens e as criações audiovisuais vão continuar fazendo parte desse universo. Também estamos desenvolvendo a parte visual do espetáculo, com projeções e cenário, pensando numa experiência sinestésica, em que som, imagem, movimento e corpo se encontrem. Para mim, tudo faz parte de um mesmo mundo, de uma mesma experiência sensível.
Tem previsão para o show de lançamento? Há planos para circular com este disco por outras cidades? E como este álbum vai se traduzir visualmente no palco? Quem está na banda com você?
Estamos preparando o lançamento para os dias 7, 8, 9 e 10 de janeiro de 2027, no Teatro Vila Velha. Tenho uma alegria enorme de poder apresentar Pélvica nesse teatro, que tem uma história tão importante e que passou recentemente por uma grande reforma.
Estamos começando a desenvolver o cenário com Erick Saboia, um artista incrível, pensando nas projeções e em toda essa relação entre música, imagem e corpo. desejo que o show seja uma experiência sensorial, que as pessoas possam viver essa sinestesia que já está presente nas músicas.
A ideia é ter comigo os próprios músicos e produtores do álbum: Ênio Nogueira nas guitarras e sintetizadores, Carla Suzart no contrabaixo e Guilherme Kastrup na bateria, que é uma participação que estamos planejando para essa primeira fase. E temos um desejo muito grande de circular pelo Brasil, e descobrir como essas músicas vão se encontrar com as pessoas em cada lugar.
O microfone é seu.
Pélvica é um trabalho inteiramente autoral, que reúne muitas experiências que vivi nesses anos, na música, nas artes visuais e nas minhas relações com o mundo. Foram quase dois anos de criação muito intensa, descobertas, encontros e muita liberdade. Tenho uma alegria enorme de compartilhar esse álbum agora.
A arte tem essa potência de nos aproximar, ampliar nossa sensibilidade, de nos fazer sentir coisas novas. E Pélvica é muito esse desejo de movimento, de estar vivo, estar perto, de confiar e continuar criando juntos. Rebeca Matta


