ESPECIAL INDÚSTRIA
Bahia entra na corrida global das terras raras com projetos e industrialização
Entenda como o estado se tornou peça-chave nas terras raras


Há quem diga que o mundo enfrenta uma espécie de guerra fria, até pouco tempo atrás silenciosa, na busca por minerais capazes de sustentar carros elétricos, turbinas eólicas, inteligência artificial e sistemas de defesa. O silêncio deixou de existir quando a expressão ‘terras raras’, antes restrita ao setor mineral e aos bastidores da geopolítica, passou a entrar nos debates como peça-chave para a economia do futuro. Nessa corrida cada vez mais barulhenta, a Bahia começou a entrar no radar de uma disputa global dominada hoje pela China. O estado concentra 33% das áreas de pesquisa de terras raras no Brasil e vem atraindo projetos bilionários que podem redesenhar parte da cadeia mineral e industrial baiana nos próximos anos.
O nome engana. Terras raras não são exatamente raras no planeta. Os 17 elementos químicos metálicos que compõem esse grupo são relativamente abundantes na crosta terrestre, embora discretos e quase invisíveis ao imaginário popular. O termo ‘rara’ está muito mais ligado à baixa concentração em que normalmente são encontrados e à complexidade envolvida no processamento desses minerais. É justamente essa dificuldade que faz com que poucos países dominem a extração e, principalmente, o refino em escala comercial. E é aqui que entra a China.
O país domina a cadeia global de terras raras. Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), os chineses concentram entre 68% e 70% da produção mundial e cerca de 90% da capacidade de refino e processamento desses minerais. Na prática, boa parte da tecnologia usada em carros elétricos, turbinas eólicas, chips e equipamentos eletrônicos ainda necessita diretamente da cadeia industrial chinesa.
Apesar de depender fortemente do exterior para o refino e de ter apenas um empreendimento em funcionamento trabalhando com esses minerais, o Brasil aparece logo atrás da China como o segundo com maiores reservas de terras raras do planeta. De acordo com o Ibram, o país reúne cerca de 21 milhões de toneladas desses elementos, o equivalente a aproximadamente 23,1% das reservas mundiais.
O único empreendimento brasileiro já em funcionamento é o Mineração Serra Verde, em Goiás, voltado à extração de terras raras a partir de argila iônica. Mas a Bahia também passou a ocupar uma posição estratégica nesse mapa. O próprio Ibram aponta o estado como “um centro futuro de diversificação da matriz das terras raras”.
O posto de unidade federativa brasileira com maior número de pesquisas sobre áreas de terras raras é baiano. São 1.167 áreas requeridas para estudos e 1.055 já autorizadas. Isso corresponde a 33% do total de requerimentos no país. Quem detalha esses números é Ana Cristina Magalhães, economista mineral e coordenadora de Fomento à Mineração, Petróleo e Gás na Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia (SDE).
“Mais de 60 áreas no estado têm direito a requerer lavra, ou seja, são relatórios de pesquisa aprovados pela Agência Nacional de Mineração (ANM), o que significa reservas provadas e quantificadas”, complementa.
Um diferencial baiano para esse protagonismo nos estudos de terras raras é o conhecimento geológico. Segundo Ana Cristina, a Bahia é o estado brasileiro mais bem estudado geologicamente, “totalmente mapeado e coberto por levantamentos aerogeofísicos, cujas informações podem ser cruzadas e reprocessadas, permitindo às empresas a identificação de possíveis áreas para pesquisa”.
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Projetos que avançam na Bahia
Esse potencial já começou a sair do campo das projeções geológicas e avançar para projetos bilionários. Um deles está em fase de pesquisa mineral no extremo sul da Bahia, entre Prado e Caravelas. A canadense Energy Fuels Brazil desenvolve na região uma iniciativa voltada à exploração de terras raras e minerais pesados, com investimento estimado em US$ 27,5 milhões (aproximadamente R$ 137,5 milhões). A área reúne ocorrências de minerais como monazita, uma das principais fontes usadas na cadeia global de elementos de terras raras.
Segundo dados apresentados à Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), o projeto possui 17 concessões minerais e mais de 3.300 furos de sondagem realizados, indicando potencial para produção anual de concentrados de areia monazítica e óxidos de terras raras. A mineralização superficial também é vista como uma vantagem operacional por permitir métodos de extração considerados menos complexos.
Mas é no Recôncavo Sul baiano que está a proposta mais avançada – e, talvez, mais ambiciosa – ligada às terras raras no estado. A Brazilian Rare Earths (BRE), por meio da Borborema Recursos Estratégicos, desenvolve o Projeto Monte Alto, entre os municípios de Jiquiriçá e Ubaíra, com planos que vão além da extração mineral. A área fica na província mineral Rocha da Rocha, em uma faixa de aproximadamente 160 km, com mais de 200 mil hectares de direitos minerários para a companhia. Lá, o que chama atenção é o elevado teor de terras raras reportado nos resultados de exploração divulgados até o momento.
Mas o presidente da BRE no Brasil, Renato Gonzaga, explica que a Bahia não foi escolhida apenas pelas questões geológicas, e sim por uma combinação de fatores que incluem também os logísticos e industriais. “O estado oferece infraestrutura industrial já consolidada, especialmente no Polo de Camaçari, que reúne disponibilidade de reagentes, logística, mão de obra qualificada, infraestrutura industrial e proximidade com portos. Outro fator importante é a presença de instituições técnicas e de inovação, como o Senai Cimatec, que podem apoiar testes, capacitação, desenvolvimento tecnológico e futuras etapas de industrialização”, explica.
O Projeto Monte Alto ainda está em fase de pesquisa, testes metalúrgicos e licenciamento ambiental, mas já emprega cerca de 250 pessoas e avançou em etapas consideradas estratégicas pela companhia. Em março deste ano, por exemplo, a BRE recebeu da Agência Nacional de Mineração (ANM) uma Guia de Utilização que autoriza a extração limitada de material para amostras, testes industriais e alimentação da planta-piloto. O próximo marco regulatório já tem relação com a concessão plena de lavra comercial. A previsão é que a licença de operação para a produção de concentrado mineral seja concluída no final de 2029.
Além dessa primeira etapa de extração e produção de concentrado mineral em Jiquiriçá e Ubaíra, o plano da companhia ainda prevê, em um segundo momento, avançar para uma das fases mais estratégicas da cadeia: a separação de óxidos de terras raras em uma planta que deve ser instalada no Polo Industrail de Camaçari – por isso, essa infraestrutura é considerada tão importante para a BRE.
“Nesse contexto, a Bahia pode desempenhar um papel estratégico no futuro da indústria de terras raras no Brasil. O estado combina geologia favorável, infraestrutura industrial, logística, mão de obra, centros técnicos e apoio institucional. Se o projeto avançar conforme planejado, a Bahia poderá se posicionar como um polo brasileiro de minerais críticos e como parte relevante da diversificação global das cadeias de suprimento de terras raras”, pontua Gonzaga.
A previsão em ambas as fases é de geração de 1,5 mil empregos diretos nas fases de construção e 1 mil na operação. Já o investimento estimado da companhia no estado gira em torno R$ 3,6 bilhões – volume, segundo Gonzaga, compatível com projetos que combinam mineração, concentração mineral, beneficiamento e etapas industriais de maior valor agregado. Mas ele ressalta que o montante ainda não representa uma estimativa final de capital aprovado para a implantação. A confirmação virá somente com o estudo preliminar do projeto, previsto para ser divulgado em meados deste ano.
“A estrutura da planta em Camaçari deverá ajudar a confirmar parâmetros técnicos, otimizar processos e apoiar o desenvolvimento de uma futura operação industrial em escala comercial. Esse ponto é estratégico para o Brasil. A ambição da companhia é contribuir para que o país avance além da simples exportação de minério ou concentrado, desenvolvendo capacidade local de processamento e separação de elementos de terras raras, etapa de maior valor agregado e de alta relevância para cadeias globais de minerais críticos”, destaca Gonzaga.
É justamente nesse ponto que se concentram hoje as principais discussões em torno das terras raras, muito além da abertura de minas. O centro da corrida global está nas etapas de processamento, separação e industrialização desses minerais, consideradas as fases mais valiosas da cadeia e ainda amplamente dominadas pela China. Mais do que possuir reservas minerais, o desafio passou a ser transformar esse potencial em capacidade industrial e tecnológica.





