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Bahia entra na corrida global das terras raras com projetos e industrialização

Entenda como o estado se tornou peça-chave nas terras raras

Mariana Bamberg
Por Mariana Bamberg
Terras raras são essenciais para fabricar imãs usados em turbinas eólicas
Terras raras são essenciais para fabricar imãs usados em turbinas eólicas - Foto: Ricardo Stuckert | PR

Há quem diga que o mundo enfrenta uma espécie de guerra fria, até pouco tempo atrás silenciosa, na busca por minerais capazes de sustentar carros elétricos, turbinas eólicas, inteligência artificial e sistemas de defesa. O silêncio deixou de existir quando a expressão ‘terras raras’, antes restrita ao setor mineral e aos bastidores da geopolítica, passou a entrar nos debates como peça-chave para a economia do futuro. Nessa corrida cada vez mais barulhenta, a Bahia começou a entrar no radar de uma disputa global dominada hoje pela China. O estado concentra 33% das áreas de pesquisa de terras raras no Brasil e vem atraindo projetos bilionários que podem redesenhar parte da cadeia mineral e industrial baiana nos próximos anos.

O nome engana. Terras raras não são exatamente raras no planeta. Os 17 elementos químicos metálicos que compõem esse grupo são relativamente abundantes na crosta terrestre, embora discretos e quase invisíveis ao imaginário popular. O termo ‘rara’ está muito mais ligado à baixa concentração em que normalmente são encontrados e à complexidade envolvida no processamento desses minerais. É justamente essa dificuldade que faz com que poucos países dominem a extração e, principalmente, o refino em escala comercial. E é aqui que entra a China.

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O país domina a cadeia global de terras raras. Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), os chineses concentram entre 68% e 70% da produção mundial e cerca de 90% da capacidade de refino e processamento desses minerais. Na prática, boa parte da tecnologia usada em carros elétricos, turbinas eólicas, chips e equipamentos eletrônicos ainda necessita diretamente da cadeia industrial chinesa.

Apesar de depender fortemente do exterior para o refino e de ter apenas um empreendimento em funcionamento trabalhando com esses minerais, o Brasil aparece logo atrás da China como o segundo com maiores reservas de terras raras do planeta. De acordo com o Ibram, o país reúne cerca de 21 milhões de toneladas desses elementos, o equivalente a aproximadamente 23,1% das reservas mundiais.

O único empreendimento brasileiro já em funcionamento é o Mineração Serra Verde, em Goiás, voltado à extração de terras raras a partir de argila iônica. Mas a Bahia também passou a ocupar uma posição estratégica nesse mapa. O próprio Ibram aponta o estado como “um centro futuro de diversificação da matriz das terras raras”.

O posto de unidade federativa brasileira com maior número de pesquisas sobre áreas de terras raras é baiano. São 1.167 áreas requeridas para estudos e 1.055 já autorizadas. Isso corresponde a 33% do total de requerimentos no país. Quem detalha esses números é Ana Cristina Magalhães, economista mineral e coordenadora de Fomento à Mineração, Petróleo e Gás na Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia (SDE).

“Mais de 60 áreas no estado têm direito a requerer lavra, ou seja, são relatórios de pesquisa aprovados pela Agência Nacional de Mineração (ANM), o que significa reservas provadas e quantificadas”, complementa.

Um diferencial baiano para esse protagonismo nos estudos de terras raras é o conhecimento geológico. Segundo Ana Cristina, a Bahia é o estado brasileiro mais bem estudado geologicamente, “totalmente mapeado e coberto por levantamentos aerogeofísicos, cujas informações podem ser cruzadas e reprocessadas, permitindo às empresas a identificação de possíveis áreas para pesquisa”.

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Projetos que avançam na Bahia

Esse potencial já começou a sair do campo das projeções geológicas e avançar para projetos bilionários. Um deles está em fase de pesquisa mineral no extremo sul da Bahia, entre Prado e Caravelas. A canadense Energy Fuels Brazil desenvolve na região uma iniciativa voltada à exploração de terras raras e minerais pesados, com investimento estimado em US$ 27,5 milhões (aproximadamente R$ 137,5 milhões). A área reúne ocorrências de minerais como monazita, uma das principais fontes usadas na cadeia global de elementos de terras raras.

Segundo dados apresentados à Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), o projeto possui 17 concessões minerais e mais de 3.300 furos de sondagem realizados, indicando potencial para produção anual de concentrados de areia monazítica e óxidos de terras raras. A mineralização superficial também é vista como uma vantagem operacional por permitir métodos de extração considerados menos complexos.

Mas é no Recôncavo Sul baiano que está a proposta mais avançada – e, talvez, mais ambiciosa – ligada às terras raras no estado. A Brazilian Rare Earths (BRE), por meio da Borborema Recursos Estratégicos, desenvolve o Projeto Monte Alto, entre os municípios de Jiquiriçá e Ubaíra, com planos que vão além da extração mineral. A área fica na província mineral Rocha da Rocha, em uma faixa de aproximadamente 160 km, com mais de 200 mil hectares de direitos minerários para a companhia. Lá, o que chama atenção é o elevado teor de terras raras reportado nos resultados de exploração divulgados até o momento.

Mas o presidente da BRE no Brasil, Renato Gonzaga, explica que a Bahia não foi escolhida apenas pelas questões geológicas, e sim por uma combinação de fatores que incluem também os logísticos e industriais. “O estado oferece infraestrutura industrial já consolidada, especialmente no Polo de Camaçari, que reúne disponibilidade de reagentes, logística, mão de obra qualificada, infraestrutura industrial e proximidade com portos. Outro fator importante é a presença de instituições técnicas e de inovação, como o Senai Cimatec, que podem apoiar testes, capacitação, desenvolvimento tecnológico e futuras etapas de industrialização”, explica.

O Projeto Monte Alto ainda está em fase de pesquisa, testes metalúrgicos e licenciamento ambiental, mas já emprega cerca de 250 pessoas e avançou em etapas consideradas estratégicas pela companhia. Em março deste ano, por exemplo, a BRE recebeu da Agência Nacional de Mineração (ANM) uma Guia de Utilização que autoriza a extração limitada de material para amostras, testes industriais e alimentação da planta-piloto. O próximo marco regulatório já tem relação com a concessão plena de lavra comercial. A previsão é que a licença de operação para a produção de concentrado mineral seja concluída no final de 2029.

Além dessa primeira etapa de extração e produção de concentrado mineral em Jiquiriçá e Ubaíra, o plano da companhia ainda prevê, em um segundo momento, avançar para uma das fases mais estratégicas da cadeia: a separação de óxidos de terras raras em uma planta que deve ser instalada no Polo Industrail de Camaçari – por isso, essa infraestrutura é considerada tão importante para a BRE.

“Nesse contexto, a Bahia pode desempenhar um papel estratégico no futuro da indústria de terras raras no Brasil. O estado combina geologia favorável, infraestrutura industrial, logística, mão de obra, centros técnicos e apoio institucional. Se o projeto avançar conforme planejado, a Bahia poderá se posicionar como um polo brasileiro de minerais críticos e como parte relevante da diversificação global das cadeias de suprimento de terras raras”, pontua Gonzaga.

A previsão em ambas as fases é de geração de 1,5 mil empregos diretos nas fases de construção e 1 mil na operação. Já o investimento estimado da companhia no estado gira em torno R$ 3,6 bilhões – volume, segundo Gonzaga, compatível com projetos que combinam mineração, concentração mineral, beneficiamento e etapas industriais de maior valor agregado. Mas ele ressalta que o montante ainda não representa uma estimativa final de capital aprovado para a implantação. A confirmação virá somente com o estudo preliminar do projeto, previsto para ser divulgado em meados deste ano.

“A estrutura da planta em Camaçari deverá ajudar a confirmar parâmetros técnicos, otimizar processos e apoiar o desenvolvimento de uma futura operação industrial em escala comercial. Esse ponto é estratégico para o Brasil. A ambição da companhia é contribuir para que o país avance além da simples exportação de minério ou concentrado, desenvolvendo capacidade local de processamento e separação de elementos de terras raras, etapa de maior valor agregado e de alta relevância para cadeias globais de minerais críticos”, destaca Gonzaga.

É justamente nesse ponto que se concentram hoje as principais discussões em torno das terras raras, muito além da abertura de minas. O centro da corrida global está nas etapas de processamento, separação e industrialização desses minerais, consideradas as fases mais valiosas da cadeia e ainda amplamente dominadas pela China. Mais do que possuir reservas minerais, o desafio passou a ser transformar esse potencial em capacidade industrial e tecnológica.

Imagem ilustrativa da imagem Bahia entra na corrida global das terras raras com projetos e industrialização
Foto: Editoria de arte A TARDE

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Indústria em pauta mineração

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