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COMBATE À POLUIÇÃO

Um simples gesto na cozinha pode evitar um grande desastre ambiental

No Dia Nacional de Combate à Poluição, campanha alerta para descarte correto do óleo usado

Andrêzza Moura
Por
A baiana de acarajé Marilene faz a coleta seletiva do azeite de dendê há dois anos
A baiana de acarajé Marilene faz a coleta seletiva do azeite de dendê há dois anos - Foto: Arquivo pessoal

“Já tenho uns dois anos. Com a cooperativa eu comecei esse ano, mas assim, eu doava para o professor fazer sabão". O hábito de guardar o azeite de dendê usado acompanha a rotina da baiana de acarajé Marilene dos Santos Oliveira, 58 anos, há cerca de dois anos.

A mudança, segundo ela, veio quando conheceu o trabalho de coleta realizado por uma cooperativa. Hoje, Marilene diz entender que o que antes era descartado de qualquer maneira pode ser separado e destinado à reciclagem, contribuindo para a preservação do meio ambiente.

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A história da baiana, mostra na prática, o propósito da campanha “Cada Gota Conta”, realizada pelo Centro de Arte e Meio Ambiente (CAMA) em parceria com associações e cooperativas de catadores(as) de materiais recicláveis.

O gesto de Marilene ganha ainda mais força nesta sexta-feira, 14, Dia Nacional de Combate à Poluição - data criada para chamar a atenção para os impactos provocados pela poluição e estimular atitudes capazes de reduzir os danos ao meio ambiente.

E, quando o assunto é óleo de cozinha, uma mudança aparentemente pequena pode representar uma grande diferença. Já que muita gente não sabe que um litro de óleo de fritura usado descartado incorretamente pode contaminar até 25 mil litros de água.

De hábito comum a preocupação ambiental

Marilene conta que, antes de conhecer a coleta, armazenava o óleo usado em garrafas e deixava para ser levado junto com o lixo. O contato com a cooperativa mudou sua percepção sobre o destino daquele material.

“Eu guardava em uma garrafa pet e jogava na porta onde o lixo passa, não tinha noção que tinha essa coleta de azeite. Agora, que eu conheço a cooperativa, sei que não é legal jogar fora, que tem pessoas que pegam pra fazer sabão, sabonete, sabão líquido e pra conservar o meio ambiente. Se jogar na caixa de esgoto vai entupir, a chuva vai chegar, a rua vai ficar alagada e não é legal", explica a mulher, que há 19 anos trabalha como baiana de acarajé.

A experiência mostra que a conscientização começa muitas vezes pelo cotidiano. O óleo usado depois da fritura não precisa ser tratado como um resíduo sem utilidade. Quando separado e coletado corretamente, pode voltar para a cadeia produtiva.

A pia também pode ser o começo do problema

A mudança de comportamento não acontece apenas entre quem trabalha diariamente com frituras. Érica Pereira, 35 anos, administradora, também passou por um processo de conscientização depois de perceber o impacto que o descarte do óleo poderia provocar dentro da própria casa.

“Eu sempre fiz o descarte de óleo de cozinha na pia. Isso é péssimo de falar, mas é real. E aí começou com a preocupação da tubulação do prédio. E eu ficando preocupada, nossa, essa gordura fica aqui. Tem horas que a gordura é meio que empedra, fica com a textura mais sólida. E aí aquilo foi me levando para um outro lugar. De que se aquilo era um problema na minha pia, poderia se tornar um problema na minha casa. Imagina um problemão que isso não é para a poluição de forma geral”, contou ela.

Para Érica, a conscientização chegou há seis meses
Para Érica, a conscientização chegou há seis meses - Foto: Arquivo pessoal

A reflexão levou Érica a procurar uma alternativa. Por meio de grupos de WhatsApp, ela encontrou informações sobre um serviço de coleta e, há seis meses vem juntando o óleo em uma garrafa PET.

“Eu consumo pouco óleo de cozinha, nem compro óleo, é mais a produção da própria carne. Às vezes, acaba ficando um pouquinho de resíduo, mas eu ficava preocupada, porque isso levou a um ponto mais externo. Fiquei: ' caramba não estou fazendo a coisa certa", explicou a administradora, ao revelar que acompanha um grupo que faz coleta de óleo.

Mesmo produzindo pouco resíduo, Érica decidiu manter o cuidado. A preocupação, segundo ela, ultrapassa a própria casa e alcança as próximas gerações.

“Eu tenho um filho, um rapazinho de 10 anos, então a gente tem que pensar muito no hoje, mas, também pensar no futuro que a gente quer para as nossas crianças, para o futuro da humanidade em geral”, finaliza.

Um gesto doméstico com impacto coletivo

É justamente essa mudança de comportamento que a campanha “Cada Gota Conta” busca estimular. O óleo despejado na pia pode seguir para a rede de esgoto, contribuir para o entupimento de tubulações e, quando chega ao meio ambiente, provocar impactos sobre a água e o solo.

Para o coordenador executivo do CAMA, Joilson Santana, o Dia Nacional de Combate à Poluição é uma oportunidade para transformar informação em atitude.

“O Dia Nacional de Combate à Poluição, celebrado em 14 de agosto, é uma data importante para refletirmos sobre os impactos da poluição no meio ambiente e na saúde humana. A conscientização sobre as necessidades de práticas sustentáveis é fundamental para a preservação do nosso planeta”, explica Santana.

A proposta da campanha é justamente aproximar a responsabilidade ambiental da rotina de quem produz e utiliza o óleo, envolvendo poder público, sociedade civil, empresas e trabalhadores da reciclagem.

“A combinação de ações do Poder Público junto com suas ações da sociedade civil e a iniciativa privada é importantíssimo para que a gente possa garantir um ambiente sem poluição e entre os exemplos podemos destacar o destino adequado do óleo de fritura usado”, aponta.

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Política Nacional de Resíduos Sólidos

A mobilização também ocorre no ano em que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) completa 16 anos. Instituída pela Lei nº 12.305/2010, a legislação estabeleceu princípios, objetivos e instrumentos para a gestão integrada e o gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos sólidos no Brasil.

Entre os princípios da política estão a prevenção da geração de resíduos, a redução, reutilização, reciclagem e tratamento, além da disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.

Na prática, iniciativas de coleta do óleo usado ajudam a transformar esses princípios em ações do cotidiano. Em vez de ir para o esgoto, o material pode ser separado, recolhido e encaminhado para reaproveitamento.

De resíduo a fonte de renda

O óleo de fritura usado também possui potencial de reaproveitamento. Segundo as informações da campanha, um litro de óleo de fritura usado reciclado pode gerar outro litro de biodiesel.

A coleta ainda movimenta uma cadeia de trabalho formada por catadores e catadoras. Na Bahia, a campanha conta com 15 empreendimentos parceiros, responsáveis pela coleta e pelo encaminhamento do material, contribuindo para a geração de renda e para a inclusão socioeconômica desses trabalhadores.

O desafio, entretanto, continua sendo ampliar a quantidade de óleo que recebe a destinação correta. Segundo estimativa da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), cerca de 5% dos 3 bilhões de litros de óleo de cozinha utilizados anualmente no Brasil são reciclados.

Todos juntos

A campanha “Cada Gota Conta” busca envolver não apenas consumidores, mas também estabelecimentos que utilizam óleo diariamente.

Joilson reforça que a participação dos chamados grandes geradores é fundamental para ampliar o alcance da iniciativa.

“Então, bares, restaurantes, ambulantes, empreendedores, empreendedoras, hotéis dos municípios envolvidos nessa campanha podem e devem contribuir, garantindo que esse material não polua o meio ambiente”, aponta ele.

A campanha realiza a coleta de óleo de fritura usado em condomínios, bares, restaurantes, hotéis, vendedores ambulantes e outros estabelecimentos de Salvador, Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, e Santo Amaro, no recôncavo baiano.

Para participar, o gerador deve armazenar corretamente o óleo depois do uso e agendar a coleta com um dos 15 empreendimentos parceiros.

A orientação é deixar o óleo esfriar e armazená-lo em recipiente adequado, fechado e seguro até o momento da coleta. O produto não deve ser despejado em pias, ralos, vasos sanitários ou diretamente no solo.

Cada gota conta

A história de Marilene mostra que um hábito pode ser transformado. O relato de Érica revela que a mudança também pode começar dentro de casa. E a campanha amplia essa consciência para estabelecimentos, empreendedores e trabalhadores da reciclagem.

No fim, a mensagem é simples: o óleo usado não precisa terminar no esgoto para desaparecer. Ele pode ter um novo destino, gerar renda e deixar de representar um risco ambiental.

Nesta sexta-feira, 14, Dia Nacional de Combate à Poluição, a pergunta fica para quem ainda descarta o óleo na pia: e se aquela garrafa que você joga fora pudesse ajudar a preservar milhares de litros de água?

Para saber mais sobre a campanha e as formas de participação, acompanhe o Instagram @ong.cama.

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Tags

Coleta seletiva meio ambiente reciclagem Salvador

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