VETERANA
Aos 87 anos, primeira campeã da Travessia relembra título de 1957
Pioneira da natação baiana revive trajetória de oito participações na prova mais antiga de águas abertas do mundo

Por Marina Branco

A Travessia Mar Grande-Salvador existe há 70 anos - e há quem lembre de cada parte dessa história porque viveu de perto. Neste sábado, 29, uma das figuras mais emblemáticas da história da prova voltou ao Porto da Barra para relembrar e passar adiante a tradição que sempre carregou.
Marília Barreiros, a primeira mulher a completar a travessia, campeã em 1957, voltou ao cenário onde escreveu seu nome na história da natação baiana e, aos 87 anos, reviveu a jornada que atravessou gerações.
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A baiana tinha apenas 18 anos quando disputou a travessia pela primeira vez, numa época em que a prova ainda era feita com guias de saveiro, sem qualquer tecnologia de navegação ou segurança. E mesmo assim, venceu.
"A prova foi dramática", lembra Marília. "Na hora de virar para o Porto da Barra, meu guia disse que eu não podia virar ainda. Mas no barco estava Liberato de Matos, o primeiro a fazer a travessia. Ele disse: ‘Pode virar’. E a voz mais forte é que fala", conta.
Quando tentou entrar no Porto da Barra, Marília enfrentou um obstáculo inesperado. "Eu dava uma braçada e voltava três metros. Não conseguia entrar. O salveirista disse que eu estava contra a maré e tinha que ir pelo Porto e voltar por cima das pedras. Fiz isso. Ele saltou para me guiar e entrei por cima das pedras", relembra.
Assim, ela fez história, na primeira de muitas provas. Após a conquista de 1957, Marília voltaria à travessia oito vezes, nadando nas edições de 1957, 1958, 1959, 1960, 1970 e 1975.

"Com 14 anos eu já batia recorde baiano. A primeira travessia fiz com 18. Continuei competindo por muitos anos", diz. Aos 87, segue ativa no esporte, e hoje compete em campeonatos nacionais de categoria, onde coleciona medalhas.
"Agora mesmo estive em Fortaleza, em campeonato brasileiro. Trouxe seis medalhas de ouro e cinco de prata", conta. Agora, mira em um feito ainda maior - nadar a travessia aos 80 anos para entrar no Guinness Book.
Marília treinou por meses, seguindo orientação do treinador Rogério Arapiraca, mas uma lesão adiou o sonho. Ela, no entanto, não desistiu, e diz que "quem sabe até os 95" consegue entrar para o livro de recordes mais famoso do mundo.
De Marília a Ana Marcela
Na edição de 70 anos da travessia, Marília protagonizou um dos momentos mais simbólicos do evento, ao entregar o prêmio para Ana Marcela Cunha, campeã olímpica e heptacampeã da prova.
"Eu adoro a Ana Marcela. Já assisti competições internacionais dela. Quando ela saiu da água, quis abraçá-la. Depois entreguei o prêmio. Foi uma beleza", conta.
Da menina de 18 anos que enfrentou correntezas e entrou por cima das pedras para vencer, à atleta octogenária que coleciona medalhas nacionais, Marília segue sendo uma das grandes lendas vivas da natação baiana, e tem na Travessia um dos maiores marcos de sua carreira.

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