MMA
Baiano muda de categoria e busca primeira vitória no UFC neste sábado
Felipe "Negão" Franco enfrenta o invicto Levi Rodrigues Jr. quatro meses depois de estrear


Felipe Franco, o "Negão", tinha apenas 10 anos quando começou a praticar judô em Salvador, incentivado pelo pai. Quinze anos depois, o baiano se prepara para disputar sua segunda luta no UFC e buscar a primeira vitória na maior organização de MMA do mundo.
O novo desafio será contra o também brasileiro Levi Rodrigues Jr., neste sábado, 18, no Paycom Center, em Oklahoma City, nos Estados Unidos, às 19h, pelo horário de Brasília, marcando uma nova etapa na carreira do atleta do Galpão da Luta.
Em sua estreia no UFC, realizada no dia 21 de março, em Londres, Felipe aceitou enfrentar com pouca antecedência o português Mario Pinto, um peso-pesado invicto que chegou ao combate com mais de dez quilos de vantagem.

O baiano conseguiu equilibrar a luta, apresentou uma defesa de quedas eficiente e resistiu até o fim, mas foi derrotado por decisão unânime dos jurados depois de três rounds.
Agora, além de ter realizado um camp completo, Felipe retorna à categoria que considera mais adequada às suas características. O lutador de 25 anos desceu para os meio-pesados, divisão com limite de 93 kg, e enfrentará um adversário igualmente interessado em conquistar espaço na organização.
Do outro lado, aparece Levi, que aos 29 anos possui cinco vitórias em cinco lutas profissionais e também procura seu primeiro triunfo no UFC. Felipe, por sua vez, chega ao combate com um cartel de dez vitórias e duas derrotas.
Todos os seus triunfos aconteceram ainda no primeiro round, sendo seis por nocaute e quatro por finalização, carregando a capacidade de encerrar lutas rapidamente desde o início no MMA - mas sua trajetória nas artes marciais começou muito antes de ele aprender a trocar golpes dentro de um octógono.
Do judô na escola ao sonho de viver do esporte
O primeiro contato de Felipe com a luta aconteceu ainda no colégio. As aulas de judô eram ministradas por um professor que também possuía um centro de treinamento, e pouco tempo depois de começar, o baiano deixou o ambiente exclusivamente escolar para treinar na academia e passou a participar de competições.
"Iniciei no esporte aos 10 anos, por incentivo do meu pai, no judô. Comecei no colégio e, anos depois, fui para a academia do mesmo professor. Em pouco tempo, já estava competindo, ainda como faixa cinza. Desde então, nunca parei", conta Felipe.
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Cinco anos depois, ele migrou para o jiu-jitsu. Ainda muito jovem, Felipe percebeu que a modalidade poderia oferecer uma possibilidade mais concreta de transformar o esporte em profissão, inclusive por meio das premiações distribuídas em campeonatos menores.
"Enxerguei no jiu-jitsu a oportunidade de conseguir viver do esporte. Em comparação ao judô, havia campeonatos menores que davam premiações. Vi que também existia a oportunidade de chegar aos grandes eventos e ganhar mais dinheiro. Depois de alguns anos, sentei com meus pais e falei que queria viver disso", relembra.

No ano seguinte à conversa, Felipe deixou Salvador e foi morar em Belo Horizonte para integrar uma equipe de competição, entrando no circuito nacional do jiu-jitsu, com participações em Campeonatos Brasileiros e torneios abertos realizados em diferentes estados.
As premiações ainda não eram suficientes para garantir estabilidade financeira, mas já funcionavam como uma confirmação de que a escolha poderia levá-lo a algum lugar.
"Não era um dinheiro espetacular, com o qual dava para viver, mas a sensação de ganhar por estar competindo e por alcançar um objetivo era muito boa. Eu também tinha a confiança de que um dia conseguiria ganhar muito mais", comenta.
Doença do pai provocou retorno a Salvador
A permanência em Belo Horizonte, no entanto, foi interrompida quando o pai de Felipe adoeceu. Como irmão mais velho, ele retornou a Salvador para ficar ao lado da família e ajudar no que fosse necessário. Mesmo com a mudança de planos, continuou treinando e competindo.
Após a pandemia e uma troca de equipe, Felipe chegou ao Galpão da Luta, academia baiana que também revelou Jailton Malhadinho, um dos principais nomes brasileiros da atualidade no UFC. Naquele momento, porém, Felipe não pretendia disputar MMA, totalmente dedicado ao jiu-jitsu.
Em uma das últimas experiências voltadas exclusivamente à modalidade, viajou de ônibus de Salvador a São Paulo para competir no Campeonato Brasileiro. Após cerca de 24 horas de deslocamento, Felipe perdeu a luta e retornou à Bahia - mas a rotina encontrada no Galpão começou a modificar seus planos.
Como a grade de atividades da academia era direcionada à formação de lutadores de MMA, o baiano passou a participar de todos os tipos de treinamento. Gostou da experiência e, ainda em 2022, realizou a primeira luta profissional na nova modalidade.

"Minha pretensão não era treinar MMA. Eu queria continuar no jiu-jitsu e competindo. Só que a grade do Galpão da Luta é totalmente voltada para o MMA, então passei a fazer todos os treinos. Gostei e, no mesmo ano, estreei. Até hoje estou aqui", conta.
A adaptação foi rápida. Apenas quatro anos depois de iniciar a carreira no MMA, Felipe chegou ao UFC, intervalo considerado curto em um esporte no qual muitos atletas passam grande parte da vida tentando receber uma oportunidade na organização.
"Para quem está no MMA, chegar em quatro anos é algo muito difícil. Devo essa conquista ao meu empresário e aos meus mestres, que me guiaram durante todo esse caminho e continuam me guiando", reconhece
"Eles fizeram total diferença para que eu alcançasse o maior objetivo de um lutador, que é estar no maior evento de MMA do mundo", completa.
Primeira derrota veio na seletiva do UFC
Seguindo o caminho de ascensão, a primeira possibilidade de entrada no UFC surgiu em 2025, quando Felipe foi selecionado para o Contender Series, programa comandado por Dana White que funciona como uma das principais portas de acesso à organização.
No dia 9 de outubro, o baiano enfrentou Freddy Vidal. Felipe chegou invicto ao confronto, mas foi derrotado por finalização no terceiro round e sofreu o primeiro revés da carreira profissional. Além da perda da invencibilidade, deixou a seletiva sem o contrato que havia ido buscar.

O resultado poderia ter interrompido sua ascensão, mas Felipe retornou ao circuito e disputou mais duas lutas em um curto intervalo. Em 11 de dezembro, venceu Kauê Tavares por nocaute técnico em apenas 32 segundos.
Já no dia 7 de fevereiro de 2026, finalizou Deivison Felipe Santos com um mata-leão, aos 4min07s do primeiro round, pelo Mamute Fight Championship.
"No ano passado, a gente bateu na trave. Fomos convidados para o Contender Series e voltamos com a minha primeira derrota na carreira. Mesmo assim, não deixei esmorecer. Continuei treinando, fiz outra luta no fim do ano, mais uma no início deste ano e fui convidado diretamente para o UFC", lembra.
Convite em cima da hora levou Felipe ao UFC Londres
A recuperação rápida foi suficiente para recolocar o baiano no radar da organização, e o chamado chegou em fevereiro, já para uma luta no mês seguinte. Com poucas semanas disponíveis, Felipe aceitou enfrentar Mario Pinto no UFC Londres, em 21 de março.
Além de estar invicto, Pinto já acumulava duas vitórias no UFC e entrou no octógono consideravelmente mais pesado. Felipe competiu com cerca de 93 kg, enquanto o português possuía mais de dez quilos de vantagem. Mesmo estreando com pouco tempo de preparação, o brasileiro conseguiu tornar a luta competitiva.
No primeiro round, Felipe conectou golpes e ameaçou o adversário na trocação, além de neutralizar as primeiras tentativas de queda. A partir do segundo assalto, Pinto passou a explorar com maior frequência o clinche e a diferença física para pressionar o baiano contra a grade. Ainda assim, teve dificuldades para derrubá-lo e só conseguiu levar o confronto ao chão no fim da parcial.

No terceiro round, o português voltou a utilizar o controle contra a grade para reduzir os espaços de Felipe e administrar a vantagem. O brasileiro tentou aumentar o volume de golpes nos minutos finais, mas não conseguiu reverter o andamento do combate. Pinto venceu por decisão unânime, permaneceu invicto e chegou à 11ª vitória na carreira, além da terceira consecutiva no UFC.
Felipe terminou a estreia com 88% de aproveitamento na defesa de quedas. Das 16 tentativas realizadas por Mario Pinto, a maior parte foi neutralizada pelo baiano, que também conectou 54 dos 106 golpes significativos que desferiu, alcançando 51% de precisão.
Apesar da derrota, o baiano deixou uma impressão positiva diante de um adversário maior e mais experiente na organização, preparando para o terreno que viria apenas quatro meses depois.
Mudança de categoria
Do confronto em Londres também, veio também um aprendizado - a desvantagem física que Felipe enfrentaria caso permanecesse entre os pesos-pesados. Assim, a decisão de descer para os meio-pesados foi tomada em conjunto pelo atleta e sua equipe. O UFC concordou com a mudança e ofereceu o combate contra Levi Rodrigues Jr.
"Apesar de eu performar bem nos pesos-pesados, eles são muito grandes e pesados em relação a mim. Acaba existindo uma disparidade muito grande. Não fazia sentido continuar ali. Optamos por descer, o UFC acatou e ofereceu esta luta", explica.

Na estreia, competir entre os pesados ao menos facilitou a aceitação do confronto em cima da hora, uma vez que Felipe não precisou passar por um processo severo de perda de peso. Caso a luta contra Pinto fosse disputada no limite dos meio-pesados, o prazo reduzido poderia ter comprometido sua preparação.
"Com um mês, temos pouco tempo para trabalhar. Como a estreia foi em uma categoria que não é a minha, a questão do peso foi tranquila. Se fosse na categoria em que vou lutar agora, seria ruim, porque também precisaria me preocupar com o corte. Por isso, um camp mais longo é muito melhor do que uma luta de short notice", afirma.
Categoria tem tradição de campeões brasileiros
Ao descer para os meio-pesados, Felipe Franco passa a disputar uma categoria marcada pelo sucesso de brasileiros no UFC. Cinco atletas do país já conquistaram o cinturão linear da divisão: Vitor Belfort, Lyoto Machida, Maurício "Shogun" Rua, Glover Teixeira e Alex "Poatan" Pereira.
Belfort foi o primeiro da lista, ao derrotar Randy Couture por nocaute técnico no UFC 46, em 2004. Cinco anos depois, Lyoto Machida nocauteou Rashad Evans no UFC 98 e chegou ao título ainda invicto. Em 2010, no UFC 113, "Shogun" venceu o próprio Machida por nocaute e assumiu o cinturão.

A tradição voltou a ser reforçada em 2021, quando Glover Teixeira finalizou Jan Błachowicz no UFC 267. Já em 2023, Alex "Poatan" Pereira nocauteou Jiří Procházka no UFC 295 e tornou-se o quinto brasileiro campeão linear dos meio-pesados.
Preparação completa para enfrentar adversário invicto
A diferença entre as duas preparações, segundo Felipe, é significativa. Para a estreia, havia pouco tempo para desenvolver todos os componentes necessários antes de uma luta no UFC. Agora, o trabalho pôde ser distribuído de maneira mais adequada.
"A diferença é total. Até um mês a mais faz muita diferença no treinamento, porque temos mais tempo para fazer o trabalho em todos os quesitos: preparação física, preparação psicológica e treinos voltados especificamente para a luta. Desta vez, tudo foi mais completo", diz.
Com 1,85m, Felipe terá diante de si um adversário dois centímetros mais alto. Levi Rodrigues Jr., representante da Rasteira Fight Team, tem 1,87m e também pesará aproximadamente 93 kg.

O paulista está invicto após cinco lutas profissionais, mas vem de derrota em sua estreia no UFC, resultado que não entrou em seu cartel profissional nas informações apresentadas para o confronto, e também procura a primeira vitória na organização.
A trocação de Levi foi apontada pelo Galpão da Luta como uma das principais ameaças. O adversário, no entanto, enfrentará um atleta que construiu a maior parte da formação no jiu-jitsu e possui quatro vitórias por finalização.
"Estudamos minuciosamente todos os detalhes e as particularidades dele. Sabemos que é um cara perigoso no striking, então trabalhamos em cima disso. Hoje sou um lutador completo e não temo ir para a área do meu adversário", garante.
"Se ele defender minhas quedas e precisarmos trocar socos, vamos fazer isso. Estamos prontos para qualquer cenário, física e psicologicamente, para conseguir minha primeira vitória no UFC", projeta.
Vitória pode ser ponto de partida para legado no UFC
Assim, Felipe trata o confronto em Oklahoma City como o início do legado que pretende construir na organização. Depois de chegar ao UFC por meio de uma oportunidade recebida em cima da hora, ele acredita que o primeiro resultado positivo pode modificar a maneira como será observado e abrir espaço para novos desafios.
"Significaria tudo, porque será o ponto de partida para uma longa caminhada de vitórias e para o legado que quero criar aqui dentro. Vai ser uma felicidade imensa conquistar a primeira vitória e deslanchar, que é o que acredito que vai acontecer. O UFC vai me enxergar com outros olhos e me dar novas oportunidades", prevê.
A confiança é sustentada por uma carreira na qual nenhuma vitória precisou da avaliação dos jurados. Todos os dez triunfos de Felipe ocorreram no primeiro round, divididos entre seis nocautes e quatro finalizações. O baiano também nunca havia chegado ao fim dos três assaltos antes da estreia contra Mario Pinto, encerrada aos 15 minutos.

Hoje, o atleta vê sua presença no UFC como uma demonstração do caminho que pode ser percorrido por outros jovens de Salvador. Ao recordar as viagens longas de ônibus, a saída de casa para treinar em outro estado e o retorno à Bahia para cuidar da família, ele entende que os sacrifícios realizados desde a adolescência começaram a ser recompensados.
"É muito gratificante conseguir, por meio do que você ama fazer, conhecer outros estados e países. Volto um pouco atrás e lembro do menino que começou no jiu-jitsu sonhando em viver da luta. Vejo que todo o esforço e todo o sacrifício valeram a pena", pensa.
"A gente que vem da favela sabe que a situação é bem mais difícil. Sonhar é de graça. Se você realmente acredita, tem que batalhar, trabalhar e fazer o que for possível. Uma hora as coisas acontecem. Quem trabalha não fica de mãos vazias", completa.
De "Orelha" a "Black Diamond"
Felipe, então, vive um momento de transformação - de patamar, categoria e até nome. Conhecido como "Negão" no MMA brasileiro, Felipe já teve outro apelido durante a trajetória, e segue rumo a um novo.
No início do jiu-jitsu, era chamado de "Orelha" por um antigo treinador, que enxergava uma semelhança entre o jovem lutador e um dos integrantes da dupla musical Lucas e Orelha.
O apelido atual surgiu somente depois de sua chegada ao Galpão da Luta. Agora, porém, o atleta planeja adotar um novo nome para a carreira internacional. Como "Negão" não é utilizado pelos anunciadores do UFC e nem tão acessível ao resto do mundo, ele pretende passar a ser apresentado como "Black Diamond", ou "Diamante Negro", em inglês.

Mesmo mudando de nome, categoria e até de luta, no entanto, a relação com o esporte permanece a mesma. Felipe conta que antigos colegas de infância o procuram pelas redes sociais e recordam que ele já dizia que chegaria ao UFC.
O próprio lutador não se lembra dessas declarações, mas considera os relatos uma confirmação de que seu caminho sempre esteve ligado às artes marciais.
"Desde pequeno faço isso. Já está no sangue. Acho que a luta me escolheu, porque nunca quis fazer outra coisa. Alguns colegas me encontram no Instagram e dizem: 'Você lembra que falava, quando era pequeno, que estaria no UFC?'", conta.
"Eu não lembro, mas já falava isso. Talvez, no meio do caminho, a gente perca um pouco o foco e ache que o caminho é outro, mas eu tive que voltar. A luta me escolheu", finaliza.


