NEGOCIAÇÕES
Empresa que planejou comprar Fonte Nova recebeu R$ 458 milhões do Banco Master
Planos também incluiriam reformar o estádio do Canindé e comprar a Arena das Dunas


O Banco Master financiou, por meio de um crédito de R$ 458 milhões, a Revee Real Estate, empresa que prometia transformar o estádio do Canindé em uma arena moderna e que também avaliava compras envolvendo equipamentos como a Arena Fonte Nova, em Salvador, e a Arena das Dunas, em Natal.
A informação consta em uma planilha enviada à Justiça pelo liquidante do Banco Master, em um processo que pede o bloqueio de bens de Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro.
A suspeita apresentada no processo é de que a família utilizava empréstimos como instrumento para retirar recursos do banco e repassá-los a pessoas ligadas ao grupo.
A Revee nega irregularidades, afirma que quitou a operação em setembro de 2025 e diz que nunca teve como estratégia adquirir dívidas para assumir o controle da Fonte Nova ou da Arena das Dunas.
Crédito de R$ 458 milhões
Segundo a documentação enviada à Justiça, a Revee State S.A. tomou crédito em 22 de março de 2024, com prazo de pagamento de até cinco anos, até 2029. Depois, em 15 de agosto de 2025, o direito de receber esse pagamento foi cedido ao fundo Máxima FIM Crédito Privado 2 por R$ 600 milhões.
A operação fazia parte de um conjunto maior envolvendo cinco CCBs, as Cédulas de Crédito Bancário. De acordo com o liquidante do Master, o Máxima teria pago R$ 2,9 bilhões ao banco para comprar esses créditos. Quatro deles tinham valores idênticos: R$ 458.622.094,46.
Entre as tomadoras também aparecia a iFLY Brazil, empresa ligada a experiências de paraquedismo indoor. A Revee se apresentava como detentora da marca iFLY, mas a própria iFLY Brasil, em nota, negou que a marca pertença à companhia e afirmou que a Revee mantém apenas um contrato de gestão da unidade localizada em São Paulo.

Relação com arenas
A Revee ganhou projeção ao anunciar projetos ligados à gestão e reforma de equipamentos esportivos e culturais. A empresa integrava a estrutura que deu origem à SAF da Portuguesa, com a promessa de reformar o Canindé e transformá-lo em uma arena para 50 mil pessoas.
Além do estádio paulistano, a companhia também estudava negócios em outras praças. Segundo a reportagem, a estratégia passava pela compra de dívidas de construtoras com bancos para ganhar influência na gestão de arenas. Esse movimento teria sido cogitado para equipamentos como a Arena Fonte Nova, em Salvador, e a Arena das Dunas, em Natal.
A Revee, porém, nega que tenha tido como estratégia adquirir dívidas para assumir o controle dessas arenas. Em nota, a empresa afirmou que avalia continuamente oportunidades no setor de infraestrutura e equipamentos esportivos, mas disse que jamais houve negociação ou interesse mútuo que resultasse em uma operação desse tipo.
Fonte Nova entrou no radar
A Arena Fonte Nova apareceu entre os ativos que despertaram interesse no entorno das negociações. Augusto Lima, então CEO do Banco Master, chegou a tentar associar o nome do Credcesta à arena de Salvador, segundo informação revelada anteriormente pela coluna de Milene Teixeira.
O plano não avançou publicamente, mas o episódio ajuda a explicar por que o nome da Fonte Nova aparece no contexto das movimentações da Revee e do Banco Master em torno de estádios e arenas no país.

Revee também tinha concessões em outras cidades
Antes de ser atingida pela crise provocada pela Operação Carbono Oculto, a Revee acumulava projetos em diferentes estados. A empresa assumiu a concessão do complexo da Arena Fonte Luminosa, em Araraquara, em contrato de 35 anos assinado em 2023.
O acordo previa pagamento de R$ 10 milhões à vista e outros R$ 20 milhões em investimentos diretos. O complexo inclui o estádio Fonte Luminosa, o ginásio Gigantão e um centro de eventos com capacidade para receber 30 mil pessoas em shows.
Em Recife, a Revee venceu a concessão do ginásio Geraldão, também por 35 anos, em contrato de R$ 209 milhões. Em Belo Horizonte, assumiu o uso da Serraria Souza Pinto por 20 anos, com compromisso de investimentos mínimos de R$ 7 milhões.
A empresa também havia sido anunciada pela GL Events como responsável por construir uma arena multiuso no Anhembi, em São Paulo. Somados, os projetos do Canindé e do Anhembi foram apresentados pela Revee como investimentos de R$ 1 bilhão.
Canindé e Portuguesa SAF
Em São Paulo, a Revee era uma das três participantes do contrato que deu origem à SAF da Portuguesa. Pelo acordo, o futebol da Lusa ficaria sob gestão da Tauá Partners, enquanto a estrutura física do Canindé seria concedida à Revee.
A promessa era transformar o estádio em uma arena moderna, com capacidade para 50 mil pessoas. O Canindé chegou a ser tratado como “fechado para reforma”, mas o avanço do projeto passou a ser questionado posteriormente.

Operação Carbono Oculto
Oito dias depois da operação de R$ 2,9 bilhões envolvendo créditos de empresas ligadas à Reag, foi deflagrada a Operação Carbono Oculto. A ação atingiu a gestora e também teve reflexos sobre a Revee.
João Carlos Mansur, apontado como dono da Reag e um dos principais alvos da operação, presidia o conselho de administração da Revee. A empresa, no entanto, afirmou que não possui vínculo societário com a Reag e negou qualquer envolvimento com os fatos apurados na Carbono Oculto.
Empresa nega irregularidades
Em nota, a Revee afirmou que o contrato de crédito citado foi integralmente liquidado em 18 de setembro de 2025. A companhia também contestou informações sobre seus planos de expansão e disse que nunca anunciou a compra de um clube da segunda divisão de Portugal.
Segundo a empresa, houve apenas a divulgação de interesse em uma possível operação, encerrada depois do processo de diligência.
A Revee também afirmou que Luis Davantel deixou seus cargos por motivos pessoais. Davantel havia sido contratado para comandar a empresa após ter atuado como principal executivo à frente do Allianz Parque.
Lucas Trevisan, que assumiu posteriormente a área de Relações com Investidores, também deixou o posto, mas segue na companhia como presidente do Conselho de Administração, segundo a nota.
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O que diz a iFLY Brasil
A iFLY Brasil também se manifestou, afirmando que a Revee não é detentora da marca iFLY e que há apenas um contrato de gestão para a operação da unidade localizada em São Paulo.
Sobre o empréstimo bancário citado, a iFLY informou que a operação foi integralmente liquidada em 15 de outubro de 2025.
Crise derrubou ações
A Revee havia sido lançada na B3 em maio de 2025, com ações cotadas a R$ 6. O valor chegou a passar de R$ 30 depois de o conselho presidido por Mansur aprovar um aumento de capital de pelo menos dez vezes, de R$ 120 milhões para R$ 1,21 bilhão.
Após a Operação Carbono Oculto, porém, a companhia passou a enfrentar forte desgaste. As ações caíram para abaixo de R$ 3, e a operação da empresa começou a perder força.
O caso agora amplia as dúvidas sobre a origem dos recursos usados nos planos de expansão da Revee e coloca sob análise judicial a relação entre o Banco Master, fundos de crédito e empresas que prometiam reformar ou assumir a gestão de grandes equipamentos esportivos no país.


