TÁTICA E OPINIÃO
Jogo coletivo versus individualismo: a lição da Copa para o futebol brasileiro
Enquanto espanhóis e argentinos preenchem o meio-campo, o Brasil insiste em lances isolados


A Espanha, com sua bela e eficiente maneira de jogar, ficou com a bola, dominou toda a partida, finalizou vinte vezes, criou cinco claras chances de gols e mereceu o título com um gol marcado por Ferran Torres.
A Argentina não teve uma única finalização no tempo normal de jogo e apenas no final da prorrogação finalizou e criou uma oportunidade de marcar. Se a Espanha tivesse mais talento no ataque, poderia ter feito mais gols. Lamine Yamal, o único excepcional atacante, teve uma atuação discreta.
Um espetáculo no campo apesar dos bastidores
Apesar das apostas esportivas, de Donald Trump e da ganância da FIFA, a Copa do Mundo, dentro de campo, foi espetacular.
O torneio foi uma demonstração clara da evolução do futebol, com belas e emocionantes partidas, um número recorde de gols e jogos disputados com muita intensidade.
As seleções mostraram grande capacidade de atacar e defender com muitos jogadores, alternando a marcação mais recuada com a pressão para recuperar a bola, acelerando e pausando no momento certo.
A decepção com Ancelotti e a ilusão do treinador
A derrota do Brasil ainda não terminou. Carlo Ancelotti, por ser um treinador vitorioso, de prestígio mundial e europeu — como a maioria dos brasileiros queria —, foi uma grande decepção.
Ele não deixou de ser um excelente técnico. Embora tenha cometido alguns erros e a eliminação da Seleção Brasileira tenha ocorrido mais cedo do que nos mundiais anteriores, o fato é mais uma demonstração da importância relativa dos treinadores.
Eles erram e acertam, pois o futebol está longe de ser uma ciência exata. Há muitos outros fatores envolvidos.
Como nasce um grande time do dia para a noite
Muitas vezes, um grande time ou uma seleção se forma de repente. Os jogadores se completam em campo mais pelas características do que pelos treinamentos.
A primeira vez que joguei ao lado de Dirceu Lopes e Evaldo no Cruzeiro dos anos 1960, parecia que jogávamos juntos há mil anos.
Evidentemente, o melhor é que um treinador de seleção tenha um bom tempo para formar uma equipe com suas variações na escalação e na maneira de jogar.
O abismo coletivo entre Brasil e Argentina
Os times que atuam na Argentina são inferiores aos que jogam no Brasil. Além disso, as duas seleções são formadas quase somente por atletas que atuam no exterior.
Fora Lionel Messi, existe, mais ou menos, um equilíbrio técnico individual entre as duas seleções. Porém, o jogo coletivo dos argentinos é muito melhor.
A Argentina preenche mais o meio-campo, troca mais passes e tem maior controle da bola e do jogo. Lionel Scaloni, que jogou na Espanha, bebeu na fonte dos espanhóis.
Já o Brasil, há décadas, prioriza as estocadas, os lances individuais, as bolas longas para os velozes e hábeis pontas e atacantes. Faltam craques no meio-campo.
Leia Também:
A urgência de reinventar o jogador brasileiro
Muitas coisas precisam mudar no futebol brasileiro, fora e dentro de campo, especialmente na formação de jogadores.
Não há mais lugar para dividir o meio-campo entre os volantes que marcam e os meias que atacam; os goleiros entre os que jogam bem com as mãos e os que jogam bem com os pés; os zagueiros que defendem bem e os que têm bons passes; os laterais que marcam e os que avançam; nem entre os centroavantes fixos e os chamados "falsos 9".
Os bons atletas, durante o mesmo jogo, necessitam ter mais de uma função em campo.
Os males do país refletidos nos gramados
Os grandes problemas do país se estendem ao futebol.
Nas últimas décadas, em variados governos, o Brasil tem sido incompetente para resolver ou atenuar bastante os graves problemas sociais, educacionais, de corrupção e de criminalidade.
O mesmo acontece, infelizmente, no futebol.


