MORADIA
80% dos compradores desejam a natureza no entorno da moradia
Procura por qualidade de vida impulsiona projetos imobiliários
Em meio ao avanço das mudanças climáticas, ao aumento das temperaturas nas cidades e à crescente preocupação com a saúde mental, a relação entre moradia e natureza vem ganhando um novo significado.
Se durante muito tempo viver cercado por áreas verdes foi visto como um privilégio reservado a poucos, hoje a proximidade com o verde passa a ser percebida por muitos brasileiros como um elemento essencial para a qualidade de vida.
A mudança de comportamento já aparece nas pesquisas de mercado. Levantamento da Brain Inteligência Estratégica mostra que 57% dos compradores de imóveis buscam espaços mais arejados e integrados à natureza, enquanto 80% consideram fundamental a presença de áreas verdes no entorno do empreendimento.
Os números refletem uma tendência que vem transformando o setor imobiliário e redefinindo o conceito de morar nas grandes cidades.
A discussão ganha mais relevância na semana em que se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho). Em um cenário marcado pela urbanização acelerada, especialistas apontam que a reconexão entre as pessoas e a natureza deixou de ser apenas uma questão estética para se tornar uma necessidade ligada ao bem-estar físico, emocional e ambiental.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2050 cerca de 70% da população mundial viverá em áreas urbanas. O crescimento das cidades, no entanto, traz desafios relacionados ao aumento das ilhas de calor, à qualidade do ar, à impermeabilização do solo e aos impactos sobre a saúde mental.
Como resposta, ganha força no mundo o conceito de wellness real estate, que reúne empreendimentos projetados para promover saúde, conforto e qualidade de vida.
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Benefícios do verde
A ciência reforça os benefícios dessa aproximação com a natureza. Estudos da Green Plants for Green Buildings indicam que ambientes biofílicos — aqueles que incorporam elementos naturais ao cotidiano — podem elevar a sensação de bem-estar em até 15% e aumentar a produtividade em cerca de 6%. Já pesquisas da Universidade de Exeter, no Reino Unido, apontam que o contato frequente com áreas verdes ajuda a reduzir sintomas relacionados ao estresse, ansiedade e depressão.
No ambiente doméstico, conceitos como biofilia e neuroarquitetura também vêm ganhando espaço. A arquiteta Mariana Meneghisso explica que a biofilia parte do princípio de que os seres humanos possuem uma conexão natural com o meio ambiente.
Por isso, projetos que incorporam vegetação, iluminação natural, ventilação cruzada, materiais orgânicos e formas inspiradas na natureza tendem a proporcionar maior conforto físico e emocional.
“Quando aliamos biofilia e neuroarquitetura, criamos ambientes que conectam os benefícios da natureza à saúde física e emocional. Assim, conseguimos projetar espaços mais alinhados às necessidades humanas”, afirma.
A neuroarquitetura, por sua vez, busca compreender como os ambientes influenciam emoções e comportamentos. Segundo o arquiteto Alexandre Pasquotto, elementos como iluminação, texturas, cores, pé-direito e organização dos espaços podem estimular sensações de relaxamento, criatividade e bem-estar.
A relação entre áreas verdes e saúde também já foi observada em pesquisas nacionais. Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) identificou que a presença de espaços arborizados em áreas urbanas contribui para a redução dos níveis de estresse e para a melhora da qualidade de vida dos moradores.
Essas descobertas têm influenciado diretamente o mercado imobiliário. Se antes jardins e áreas verdes apareciam apenas como complemento paisagístico, agora eles passam a integrar a essência dos empreendimentos. Em diferentes cidades brasileiras, novos projetos apostam em soluções que combinam preservação ambiental, biodiversidade e convivência com a natureza.
Em Salvador
Em Salvador, um dos exemplos dessa tendência é o Bosque Caminho das Árvores, empreendimento da JVF Empreendimentos que incorpora um conceito de paisagismo restaurador desenvolvido pelo botânico e paisagista Ricardo Cardim. O projeto prevê a introdução de aproximadamente 40 espécies nativas brasileiras, entre árvores, arbustos, palmeiras e forrações, com foco na recuperação da biodiversidade local.
Para Cardim, o futuro das cidades depende da capacidade de reintegrar ambientes urbanos e ecossistemas naturais. “Precisamos construir espaços urbanos capazes de restaurar ecossistemas e, ao mesmo tempo, melhorar a experiência cotidiana das pessoas”, defende.
Além das áreas verdes, o empreendimento incorpora conceitos de arquitetura biofílica, espaços de contemplação, ambientes de convivência e uma piscina natural com sistema de filtragem baseado em areia fluida, pedras e processos naturais.
Segundo a diretora da JVF Empreendimentos, Viviane Fonseca, a procura por esse tipo de solução acompanha uma mudança profunda no perfil dos compradores.
“As pessoas não querem mais apenas metragem e localização. Elas buscam bem-estar, contato com a natureza, luz natural, ventilação e ambientes que façam sentido para o corpo e para a mente”, afirma.
Ela destaca que os benefícios vão além dos moradores.
“Ao reintroduzir espécies nativas, criamos um microclima mais ameno, melhoramos a qualidade do ar e atraímos pássaros e polinizadores. É uma forma de devolver biodiversidade ao ambiente urbano e demonstrar que o crescimento das cidades pode acontecer em sintonia com a natureza.”
Em um contexto de eventos climáticos extremos, crescimento urbano e aumento das preocupações com saúde mental, o mercado imobiliário parece responder a uma demanda cada vez mais evidente. Mais do que valorizar um imóvel, a presença da natureza passou a representar um investimento em qualidade de vida.