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CRÔNICA

A troca na loja que virou luta: o preço de exigir seus direitos

Quando R$ 34,50 se tornam motivo de guerra: o dia em que Matilda desafiou a loja

ró-Ã*
Por ró-Ã*
Confira a crônica da Muito deste domingo, 12
Confira a crônica da Muito deste domingo, 12 -

Matilda é uns bons anos mais velha que a Internet, tendo vivido tempos menos confortáveis em diversos aspectos. Assim, mantém alguns hábitos antigos, como dar preferência a lojas físicas. Teme que o varejo online acabe custando o emprego de quem trabalha em estabelecimentos onde se pode pisar, e tem também a preocupação de contribuir com a economia local.

Por isso, semana passada entrou e saiu de lojas na Avenida 7, entre o Rosário e as Mercês, até encontrar o que procurava: um daqueles varões de tamanho ajustável, utilizados para pendurar a cortina do banheiro. Tem horror a boxe, sabe Deus a razão.

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Chegou em casa e penou feito uma condenada para instalar o objeto, procedimento geralmente rápido e fácil. Já teve uns três, sabe que é coisa simples. Resolveu, então, voltar à loja a fim de trocá-lo, munida da nota fiscal de dois dias antes e do saquinho em que a peça foi embalada na fábrica.

Logo que anunciou o problema a uma vendedora, obteve um muxoxo de desdém:

— Vamos ver, né? A senhora abriu a embalagem…

Comentar seria inútil perda dos caracteres limitados de que disponho aqui, portanto sigo com o relato:

Chamou um colega a fim de testar se o produto estava mesmo com defeito; vai que a infeliz cultivava o hobby de fazer compras pra depois se dar ao trabalho de retornar à loja inventando conversa. O rapaz suou uns 20 minutos antes de conseguir prender o varão. Matilda deu uma pancadinha para se certificar de que estava firme. Despencou na hora.

— Ah, assim não pode! A senhora bateu!!!

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Triunfantes, os dois vendedores sentenciaram que estava tudo bem com a mercadoria, pois tinha sido fixada e só caiu porque a cliente lhe desferiu um murro digno dos bíceps de Leo Santana. Ela não se conformou; tem braços fraquinhos e o mau costume de exigir respeito. Porque pode, claro: é branca, etc.

— Quero falar com o gerente.

— Não pode entrar lá.

— Fico na porta. Se precisar, entro.

O rapaz instruiu a colega a narrar fielmente o acontecido: o objeto estava em perfeito estado, a criadora de caso tinha dado um sopapo que desfez a instalação. Lógico que omitiu o tempo sofrido antes de conseguir equilibrar o varão mal e porcamente entre as paredes. Segundo Matilda, até um sopro teria feito o bicho cair.

Após alguns minutos de papo com o gerente, quando pode ter comentado que a abridora de embalagens estava começando a fumegar, a vendedora voltou com a solução:

— Vamos trocar, mas não tem outra vez. Troca de troca a gente não faz.

Matilda não se intimidou:

— Pode ter certeza de que, se este também não funcionar, vou direto ao Procon. Tenho todo o tempo do mundo.

Recebeu um sorrisinho desafiador e insinuante de que, mal-agradecida, parecia não se dar conta da extrema benevolência do gerente.

É interessante que um estabelecimento comercial entenda estar fazendo um favor ao público por lhe vender mercadorias sei lá quantas vezes mais caro do que o preço original. E, ainda por cima, não se ache na obrigação de trocar um varão de R$ 34,50 claramente defeituoso. A mulher não estava nem querendo seu dinheiro de volta, somente obter um produto que funcionasse.

Quando Matilda me contou esse episódio, pensei primeiro na má-vontade exibida pelos empregados em relação a uma queixa legítima, tomando escancaradamente o lado do patrão. Depois, na normalização da falta de direitos: Não está satisfeita? Vá se queixar ao bispo! Quem se vê desrespeitado dia após dia não possui sequer a ideia de que direitos existem.

Isso é observável nas instâncias mais básicas do cotidiano, com gente que só está tocando a vida como ela é possível. Se posicionar do lado do mais forte é questão de sobrevivência, porque nem em seus desvarios mais desatinados gozariam de uma vida decente.

Na outra ponta, estão os que tomam para si todos os direitos negados aos outros e creem poder tudo, sem deveres cidadãos. Pertencesse a nossa consumidora à trupe do “Christian, husband, father & patriot", que matou um gari em BH há poucos meses porque o caminhão de lixo lhe atrapalhava a passagem, a loja teria agora duas vagas de emprego abertas.

Ao assassino caberá pouco mais que breve constrangimento e celebridade infame. Destino bem diverso teria sido o do gari, caso fosse o atirador. Desde que foi morto pelo valente playboy, no entanto, é somente mais um exemplo de quem pode e de quem não neste país varonil.

*É autora de Dor de facão & brevidades

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