CINEMA
Acervo de pioneiro do cinema baiano corre risco de desaparecer
Oscar Santana busca uma solução para preservar um dos mais importantes acervos audiovisuais


Um dos maiores acervos cinematográficos da Bahia corre risco de desaparecer se não houver ação imediata de preservação.
Escrevo este ensaio para registrar que esse texto atende a um pedido pessoal do meu confrade da Academia de Letras e Artes de Salvador (Alas) e meu amigo, Oscar Santana, que aos seus 92 anos, gozando de saúde física e mental invejáveis, preocupado com a preservação de seu imenso acervo filmográfico, e de equipamentos de filmagens e afins, procurou-me através de nosso confrade da Alas, Dr. Rozendo Ferreira Neto, para encontrar uma solução institucional ou particular para abrigar e preservar seu imenso acervo, de uma valor histórico-cultural incalculável para a história do cinema na Bahia e o Brasil.
Há figuras na história da cultura que operam como arquitetos silenciosos. Não aparecem como protagonistas dos grandes manifestos, não ocupam o centro das narrativas consagradas, mas sustentam técnica, estética e materialmente a possibilidade de uma produção existir. O baiano Oscar Santana é uma dessas figuras raras, cuja trajetória revela o subsolo da história do cinema no Brasil.
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Em vez de buscarmos apenas a genealogia dos filmes e autores que ganharam projeção nacional, é preciso deslocar o olhar para os agentes que construíram as bases, os equipamentos, os fluxos de trabalho e o ecossistema indispensável para que um “ciclo” de cinema acontecesse. Essa mudança de perspectiva transforma Santana em um personagem central.
A formação de Oscar Santana se inicia nos círculos de cinefilia alimentados pelo Clube de Cinema da Bahia, liderado por Walter da Silveira. Aquele ambiente, frequentado por jovens inquietos, funcionava como laboratório intelectual num momento em que Salvador estava longe de possuir uma indústria cinematográfica. Santana absorve dessa experiência não apenas um repertório visual, mas a convicção de que o cinema é, antes de tudo, uma máquina complexa que precisa ser inventada onde não existe.
Daí nasce sua parceria com Roberto Pires no projeto mais ousado da época: a Iglu Filmes, considerada a primeira produtora de cinema estruturada fora do eixo Rio–São Paulo. A Iglu não foi apenas um endereço ou uma razão social, foi um ato de fundação.
Ali se montou laboratório, se adaptaram equipamentos, se inventaram dispositivos ópticos como a célebre lente Igluscope, fruto direto da inteligência técnica de Pires e Santana e se formou uma equipe capaz de operar técnicas avançadas com recursos mínimos. A Iglu Filmes viabilizou títulos fundamentais do chamado Ciclo Baiano de Cinema, entre eles Redenção, A Grande Feira, Tocaia no Asfalto e o emblemático Barravento, de Glauber Rocha.
É comum que a historiografia privilegie o impacto autoral de Glauber, e com justiça. Mas é igualmente necessário reconhecer que Barravento só pôde existir porque encontrou uma infraestrutura recém‑erguida, um grupo de profissionais em formação e uma produtora que, apesar da escassez, oferecia condições mínimas para filmar.
Oscar Santana está nessa base, no ponto exato onde o cinema deixa de ser uma abstração estética e se materializa em objetivo, película, luz, logística, transporte tudo aquilo que não aparece nos créditos com o brilho de um diretor, mas que sustenta cada plano.
Em paralelo à operação industrial, Santana desenvolve sua própria obra autoral, marcada por um diálogo fértil com o cinema popular. Em O Caipora (1963) e O Pistoleiro (1975), ele investe no policial, no melodrama e no filme de ação, transpondo essas tradições narrativas para ambiências baianas, ora urbanas, ora sertanejas.
Em vez de aderir ao experimentalismo programático que marcava certos setores do Cinema Novo, Santana opta por uma estética híbrida, profundamente comunicativa, que aproxima o público local de suas próprias histórias.
A criação de sua própria empresa, a Sani Filmes, reforça esse protagonismo silencioso. Fundada em 1961, a Sani Filmes torna‑se não apenas um instrumento de autonomia criativa, mas um ponto de resistência num ambiente historicamente hostil à produção regional.
Ao manter ativa uma produtora durante décadas, Santana preservou equipes, técnicas, equipamentos e a continuidade de um saber‑fazer que não dependia de políticas públicas ou de modismos estéticos. Era a prática do cinema como ofício, como persistência, como insistência cultural contra as marés de esquecimento.
No momento em que se revisita a história do cinema brasileiro sob perspectivas regionais e descentralizadas, Oscar Santana emerge como figura indispensável. Ele não representa apenas a memória de um ciclo, mas a memória de uma infraestrutura cultural construída à mão, num país que raramente reconhece seus arquitetos invisíveis. Sua trajetória desafia o olhar tradicional do crítico e nos obriga a reconsiderar o que significa fazer cinema no Brasil: não apenas filmar, mas criar as condições para que o cinema exista.
Urgência
A história do cinema é sempre mais frágil do que parece. Não basta que um filme tenha sido realizado, exibido ou celebrado para garantir sua permanência no mundo.
A memória audiovisual depende, antes de tudo, da sobrevivência material de seus suportes, película, fotogramas, negativos, câmeras, lentes, documentos de produção, roteiros, registros técnicos, cartazes, fotografias, correspondências, máquinas de montagem. Sem eles, perde-se não apenas a obra final, mas toda a lógica de criação que lhe deu origem.
Na Bahia, essa fragilidade é ainda mais profunda. Nosso cinema nasceu em um ambiente de escassez institucional e inventividade artesanal, e por isso mesmo depende, hoje, de cuidados redobrados.
O caso recente envolvendo o acervo de Oscar Santana evidencia uma urgência que não pode mais ser adiada: a Bahia não possui uma instituição plenamente preparada para receber, preservar e disponibilizar acervos audiovisuais privados de grande porte.
É preciso admitir: um acervo não preservado é um acervo condenado. Películas deterioram, fitas mofam, câmeras se tornam irrecuperáveis. A falta de espaços climatizados, protocolos técnicos, catalogação e digitalização coloca em risco não apenas objetos, mas memórias. Um acervo cinematográfico é mais do que objeto de colecionador, é testemunho histórico, documento antropológico, arquivo cultural.
A Bahia precisa, urgentemente, discutir a criação de uma cinemateca estadual, com política permanente de acolhimento, restauração e digitalização. Sem isso, vários capítulos da história do cinema nordestino continuarão vulneráveis ao desaparecimento.
A preservação audiovisual não é uma questão técnica: é uma questão de futuro. E o futuro da memória cinematográfica da Bahia, a começar pelo acervo monumental de Oscar Santana, depende de ação imediata, coordenada e pública.
*O conteúdo assinado e publicado na coluna Olhares não expressa, necessariamente, a opinião de A TARDE

