CRÔNICA
Alvo mais que a neve: um tributo a Rubem Alves
Leia a crônica deste domingo

Por Antonia Damásio*

O Rubem me tocou. No cerne das minhas intimidades, fisgou-me a altura das coxas e sobrecoxas. Feriu-me de morte, num tiro certeiro, engatilhado em visadas. Das suas ranhuras serpentearam palavras brutas que pulsaram nas veias e vielas incautas da literatura. Ventrículo de imortal. Pulsa de maneira insidiosa. Cobriu-me de visgos, arreganhou-me a visão. E, sem esforço ou oposição, foi criando espaço interno, impregnando o meu corpo com as suas calamidades.
Escutar os seus murmúrios me fez duvidar dos meus (con)sentimentos. Senti que eram assim, tão corriqueiros e fluidos, que perdiam coloração e substância diante dos seus fartos argumentos.
Ele me guiou com seus galanteios cegos. Iluminou meus devaneios enquanto sua mão boba repousava sobre mim. Sinto que vou desfolhar. Ele me ornou com graça, cobrindo-me com palavras de rodopio e gratidão. E eu me sinto tonta, verdejante, ainda.
Meu corpo vai se esgueirando à beira do descaminho. Quando dou por mim, já me entreguei inteira. Sou toda pele, cheiro e ouvidos. Cada sentido que dele escapa, esconde-se e deixa uma marca laboriosa dentro de mim. Não sai nem com benzedura.
Quero fazer uma queixa. E uma deprecação. O Rubem tocou em mim com candura. Povoou-me de imensa saudade, despertou afetos lisonjeiros e se derramou por inteiro, bem aqui, onde fixei o marcador. Corre, chama um perito. Ainda há marca d’água e caneta destaque. O Rubem não transita sem vestígios. Há um fio que o conecta ao rodopio de suas querelas. Tirou-me a inapetência, tornou-me voraz e exigente. Partiu sem ser tipificado em código. Suscitou-me e emudeceu.
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O Rubem nomeou uma tribo. Na tradição há quem diga que lutou com um anjo e prevaleceu. O feito dos pais é herdade. Sendo assim, Jacó do Bandolim que me perdoe. A culpa é da tradução. Apurando melhor as responsabilidades, confesso que a minha cópia é mimeografia. Passou pelo cilindro, ganhou um tom azulado e um toque prevalentemente etílico. Passou de mão em mão a perder-se de vista.
De um modo ou de outro, fiquei enganchada no fio da sua palavra. Girei, cirandei, dei voltas torpes pelo ar. Sua escrita é etérea. A sua pessoa, não conheci. Ela é papel de seda e eu sou taquara rachada. Sua assinatura é disforme, transita entre a pipa e a flor. Parece até que Rubem dorme no silêncio desordenado de cada oração. E eu sou a ele subordinada e assindética.
*Psicanalista
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