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CRÔNICA

Alvo mais que a neve: um tributo a Rubem Alves

Leia a crônica deste domingo

Antonia Damásio*

Por Antonia Damásio*

25/01/2026 - 14:06 h
Psicanalista Antonia Damásio reflete sobre como a obra de Rubem Alves transita entre a candura e a força
Psicanalista Antonia Damásio reflete sobre como a obra de Rubem Alves transita entre a candura e a força -

O Rubem me tocou. No cerne das minhas intimidades, fisgou-me a altura das coxas e sobrecoxas. Feriu-me de morte, num tiro certeiro, engatilhado em visadas. Das suas ranhuras serpentearam palavras brutas que pulsaram nas veias e vielas incautas da literatura. Ventrículo de imortal. Pulsa de maneira insidiosa. Cobriu-me de visgos, arreganhou-me a visão. E, sem esforço ou oposição, foi criando espaço interno, impregnando o meu corpo com as suas calamidades.

Escutar os seus murmúrios me fez duvidar dos meus (con)sentimentos. Senti que eram assim, tão corriqueiros e fluidos, que perdiam coloração e substância diante dos seus fartos argumentos.

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Ele me guiou com seus galanteios cegos. Iluminou meus devaneios enquanto sua mão boba repousava sobre mim. Sinto que vou desfolhar. Ele me ornou com graça, cobrindo-me com palavras de rodopio e gratidão. E eu me sinto tonta, verdejante, ainda.

Meu corpo vai se esgueirando à beira do descaminho. Quando dou por mim, já me entreguei inteira. Sou toda pele, cheiro e ouvidos. Cada sentido que dele escapa, esconde-se e deixa uma marca laboriosa dentro de mim. Não sai nem com benzedura.

Quero fazer uma queixa. E uma deprecação. O Rubem tocou em mim com candura. Povoou-me de imensa saudade, despertou afetos lisonjeiros e se derramou por inteiro, bem aqui, onde fixei o marcador. Corre, chama um perito. Ainda há marca d’água e caneta destaque. O Rubem não transita sem vestígios. Há um fio que o conecta ao rodopio de suas querelas. Tirou-me a inapetência, tornou-me voraz e exigente. Partiu sem ser tipificado em código. Suscitou-me e emudeceu.

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O Rubem nomeou uma tribo. Na tradição há quem diga que lutou com um anjo e prevaleceu. O feito dos pais é herdade. Sendo assim, Jacó do Bandolim que me perdoe. A culpa é da tradução. Apurando melhor as responsabilidades, confesso que a minha cópia é mimeografia. Passou pelo cilindro, ganhou um tom azulado e um toque prevalentemente etílico. Passou de mão em mão a perder-se de vista.

De um modo ou de outro, fiquei enganchada no fio da sua palavra. Girei, cirandei, dei voltas torpes pelo ar. Sua escrita é etérea. A sua pessoa, não conheci. Ela é papel de seda e eu sou taquara rachada. Sua assinatura é disforme, transita entre a pipa e a flor. Parece até que Rubem dorme no silêncio desordenado de cada oração. E eu sou a ele subordinada e assindética.

*Psicanalista

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