MUITO
Enquanto o mundo desaba, o sol se põe em Itaparica
Confira a crônica de Evanilton Gonçalves

Por Evanilton Gonçalves*

Sentados em um banco diante do mar, admirávamos o sol na ilha de Itaparica por alguns minutos até ele desaparecer. A vida continuava. Nada de urgente parecia existir no mundo no decurso daquele momento. Ali, você e eu e todas as pessoas enquadradas naquela paisagem dourada erámos ao mesmo tempo simples indivíduos com sonhos e medos, mas também a completude resplandecente que o olhar alcança. Naquele instante, parecíamos revestidos de uma tênue camada de ouro, pessoas preciosas. Você apontou para a maré baixa, comentou sobre a força gravitacional do sol, da lua e da Terra, enquanto o movimento silencioso dos astros atraíam, pouco a pouco, o mar que você tanto desejava sob seus pés.
Queria que todos os dias fossem assim, despreocupados e solares. Essa minha ingenuidade idílica, eu sei, não se sustenta por muito tempo diante da tábua de maré que é a vida. Dias melhores e piores virão. Sabemos disso mesmo sem possuirmos o poder mágico da adivinhação. A natureza diante de nós (e dentro de nós) nos ensina sobre a impermanência das coisas na vida. A alegria, sabemos, não é infinita, mas cíclica. Agora, porém, ela irradia imensa em torno de nós e sua proximidade nos emociona.
Enquanto observávamos cada coisa à nossa frente, o céu, os barcos, a água morna em seu tom verde-claro, um peixe dourado saltou do mar e planou fugaz como se brincasse de ser pássaro. Esse gesto inesperado nos proporcionou o espanto de quem vê algo pela primeira vez. Você sorriu pelo encantamento da boa surpresa. Eu, atraído pela força gravitacional do seu sorriso, também dei risada. Não investigamos as motivações do peixe-pássaro. O que importava? O espanto nos bastava. Estávamos enlevados. Esse breve instante espalhou ainda mais em nós uma alegria crescente, como um movimento oceânico que nos encheu de sensações boas.
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Estávamos com maior disposição para amar naquele instante. Talvez porque ainda não tinha chegado até nós a notícia aflitiva de que um tirano invadiu o país de outro perto de nós com um roteiro fajuto de Capitão América debaixo do braço. E com o discurso inconfundível de quero petróleo e tomem democracia, people, soltou, como um herói sinistro, bombas sobre as cabeças das pessoas. Aqui, com o tempo cercado pela calmaria das águas, as pessoas vão seguir à noite com a tradição milenar chinesa de soltar fogos de artifício para espantar maus espíritos, encher o céu de cores e de esperanças renovadas. Menos efusivos, embora ainda muito contentes, lançaremos no ar confete serpentina para que o papel colorido em formato de fitas adorne a nossa celebração.
Mas ainda é cedo, estamos sob o entardecer de Itaparica. Para adiar o fim do mundo, compartilho com você o álbum Pelos Olhos do Mar. Em outra ilha, a quase mil quilômetros de nós, Lia de Itamaracá e Daúde cantam Santo Antônio da Boa Fortuna. Sentados em um banco diante do mar, somente nossos ouvidos escutam as vozes cheias de súplicas dessas mulheres. Você recosta a cabeça no meu ombro bronzeado. Inclino minha cabeça sobre a sua. Nossos cabelos se emaranham num carinho singular. Fios brancos já surgem em mim e em você. Que bom. O mundo ainda não acabou.
*Evanilton Gonçalves é autor de Ladeira da Preguiça (Todavia)
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