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CRÔNICA

Emprestei US$ 60, perdi o dinheiro e ganhei uma história para a vida

Crônica de um erro, uma carta e um improvável acerto do destino

ró-Ã*

Por ró-Ã*

11/01/2026 - 15:23 h
Da heroína à igreja: uma virada que começou com raiva
Da heroína à igreja: uma virada que começou com raiva -

Os acontecimentos me fazem às vezes pensar que a vida neste planeta é regida por diversos diretores e cada um realiza o gênero de filme que preza: drama, comédia, terror e por aí vai. Tudo ao mesmo tempo, em partes diferentes do mundo e com atores distintos. Nisso se incluem os admiradores de roteiros com reviravoltas.

Vivia eu em Nova Iorque, no início dos anos 80, primeiramente com meu então namorado. Morávamos no East Village, num cafofo de excelente localização, sublocado da mulher de um amigo. Quando ele retornou ao Brasil, após um ano e meio, fui morar no belo loft no SoHo do casal para quem trabalhava como babá. Um dia, o próximo ocupante do quarto e sala com banheira na cozinha entrou em contato comigo, a fim de que eu assumisse a conta de luz que ainda me dizia respeito.

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Poucas semanas depois, me procurou de novo, precisando desesperadamente de $. Boazinha, lhe emprestei os 60 dólares que havia economizado e valiam alguma coisa à época, sob a promessa de devolução na semana que se fez seguinte indefinidamente.

Comecei a ligar cobrando e sempre recebia uma desculpa esfarrapada. Às vésperas de voltar a Salvador para terminar meu curso na Facom, trancado faltando duas matérias, resolvi ir à 24 St Mark’s Place # 7 e encarar meu credor. Ele abriu uma frestinha da porta, todo trêmulo, e pediu que eu esperasse alguns minutos, após os quais me deixou entrar. Exibia agora paz santíssima e percebi um filete de sangue escorrendo por seu braço.

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É lógico que me engabelou de novo e eu nunca vi a cor do meu dinheiro. Tico & Teco concluíram que a tranquilidade após os cinco minutos significaram uma dosezinha de heroína na veia, e minhas economias deviam ter sido utilizadas para sustentar o vício durante um tempo. Ô raiva! Eu me privando de tudo para poder comprar umas bugigangas, principalmente utensílios de cozinha não encontráveis por aqui.

Durante a viagem sobre as nuvens, sempre insone, lhe escrevi uma longa carta furiosa, postada dois ou três dias após a aterrissagem no Aeroporto 2 de Julho. Terminava assim: “Pelo menos aprendi que nunca se pode confiar num junkie”. E descansei; disse tudo o que queria, assunto encerrado, passemos bem.

Uns 15 anos mais tarde, hospedei mais uma vez o amigo cuja mulher sublocava o tal apê. Suas visitas eram frequentes, pois era dono de uma terrinha na região de Maraú. Daquela vez, porém, uma surpresa o acompanhava: um envelope contendo $100 enviados por Maurice, na intenção de saldar sua dívida comigo, mais $40 valendo como juros. Jamais esperei aquilo! Estava certa de que, ao ser sepultada, me faltariam 60 dólares no caixão.

Alguns meses se passaram, estive em NYC e soube que ele queria falar comigo. Combinamos um almoço. Encontrei um sujeito de terno e gravata, a quem eu jamais teria reconhecido num daqueles “lineups” policiais. Constituíra família, estava muito bem de vida, convertera-se a uma igreja e me pediu perdão. Disse que minha carta, principalmente a frase final, o abalara ao ponto de fazê-lo tomar tenência, deixar o vício e mudar de rumo. Ó ró-Ã redentora.

Agora, vivia grudado na igreja, já que personalidades aditivas sempre precisam de algo a que se agarrar. Devolveu a carta, ainda guardada aqui em algum canto: “Agora, fecho definitivamente aquele ciclo”.

Achei legal: a dureza de minhas palavras serviram para afastá-lo da vida a caminho de uma overdose. Sei também que contribuí para alterar as andanças de outra criatura aqui em Salvador, hoje provavelmente defunta, não fosse a minha inflamada e lacrimosa interferência junto a sua família. E essa pessoa me tem muito carinho, porque reconhece que a livrei de um fim estúpido.

Nunca pretendi ser salva-vidas, porém assim se deu nesses dois casos. Tomara que seja algo que eu possa alegar, se houver mesmo Juízo Final: Fiz algumas merdas, mesmo sem nunca querer prejudicar ninguém, mas atentem para o algum peso no outro prato da balança.

Quem sabe nossa passagem por aqui não seja em vão, apesar dos tantos equívocos. Podemos ser personagens de roteiristas e diretores desejosos de finais felizes. Que aprecio, desde que não melosos. Mel, só as abelhas produzem com propriedade, e sabe-se lá se temos o direito de roubá-lo. Eu ainda roubo para cobrir panquecas, embora minha sobrinha garanta que minha alma vai ficar toda esculhambada.

*Escritora, autora de Dor de facão & brevidades

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