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CRÔNICA

Os que enlouquecem por dentro e os que enlouquecem o mundo

Confira a crônica deste domingo, 21

ró-Ã*
Por ró-Ã*
Confira a crônica deste domingo, 21
Confira a crônica deste domingo, 21 - Foto: Editoria de arte A TARDE

Eládio era vizinho e costumava nos visitar com frequência, num tempo em que os conhecidos apareciam sem avisar e eram sempre muito bem recebidos. Passava os dias escrevendo cartas ao então Ministro do Trabalho, Almir Paz-zia-not-to! Falava alto e pronunciava o sobrenome da autoridade enfatizando as sílabas.

Antes de enviá-las, gostava de compartilhar conosco seu conteúdo. Sempre começava desejando boa saúde ao ilustre destinatário, mas depois os assuntos corriam desembestados: pedia emprego, comentava os últimos sucessos de Wando e Jessé, dava sugestões para a Pasta. No meio de tudo, certamente obedecendo a alguma lógica em seu cérebro, tacava um Hoje tomei um copão de Nescau e comi biscoitos Maizena.

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Esforço danado pra não cair na gargalhada. Sabíamos que era aposentado por problemas mentais e não se ri de uma pessoa doente, mas juro que era difícil. Cada coisa que ele escrevia ao Ministro! E volta e meia balançava a cabeça, murmurando: “Pior é na guerra…”, nos obrigando de novo a sufocar o riso.

Pelo que me consta, nunca foi internado. Era mansinho e passou longe do infortúnio sofrido por uma tia-avó minha. É raro a gente saber da vida de parente antigo, porém a esquizofrenia a tornou célebre na família. Agradeço aos Céus por não ter lhe herdado esses genes, mas também fiquei distante de sua beleza. Antes de ser entregue em casamento a um solteirão 20 anos mais velho, noivou com um Floriano muito amado.

Aconteceu de uma irmã de Floriano ter sido deflorada por um rapaz com quem se engraçara, obrigando o primogênito a honrar seu sobrenome. Meteu duas balas no malfeitor e foi preso, prometendo à noiva que voltaria. O pai da moça determinou que a filha jamais se uniria a um assassino! Apareceu o coroa e celebrou-se o casório.

Tudo correu nos conformes até que o infeliz foi libertado e saiu à procura de sua alma gêmea, agora residindo em Amargosa e mãe de quatro filhos. Dizem que o encontro se resumiu a um suspiro: É verdade… Você não me esperou…

A partir de então, o marido de Elvira chegava do trabalho para se ver diante das situações mais insólitas: a mulher exibindo caminhos de rato em lugar dos cabelos sedosos; a certeza de que um artesão planejava lhe arrancar a pele a fim de fabricar selas; o desejo ardente de ir morar com sua mãe verdadeira, atriz de um dos filmes repetidamente exibidos no cinema da praça.

Depois passou Elvira a se vestir e às crianças com as melhores roupas e tomar o trem rumo a qualquer destino. Lá chegando, pegava outro e retornava à casa. Quando um dia deitou a filha recém-nascida numa assadeira, na intenção de preparar um banquete, despacharam a desgraçada para o Hospital Juliano Moreira, onde morreu ainda jovem, após ter os miolos eletrificados semanalmente; não concebiam outro tratamento e inexistiam os remédios que Eládio já alcançaria.

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Há 40 anos, meninas as minhas sobrinhas, eu brincava lhes chamando a atenção para um verso de Rita Lee: “Perdi a cabeça…”. Imaginávamos um pescoço se desprendendo do tronco e a pessoa tendo que procurar debaixo da mesa, das cadeiras, da poltrona.

Tem quem perca a cabeça e nunca a encontre novamente. Tem os que a perdem e não suspeitam que esteja na latrina, acreditando também que é onde a minha e a de outros habitam – e estamos todos certos. Questão de opinião, e nem unzinho fragmento de poeira cósmica vai se mexer por causa disso.

Assisti recentemente a uma minissérie documental sobre Trump, seguida pelo filme O Aprendiz. Fiquei frustrada por não haver referência ao abuso de menores patrocinado por Jeffrey Epstein, enquanto me escandalizou e causou fascínio a figura de Roy Cohn, mentor do atual presidente dos EUA. A meu ver, Cohn era um ser dos mais desprezíveis, ensinando ao jovem Donald os seguintes princípios: 1) Atacar furiosamente! 2) Negar com veemência qualquer acusação! 3) Mesmo na lona, jamais admitir a derrota!

Fico com os ensandecidos sem delírios cruéis de superioridade. Escolho o lado dos que prescindem da admiração e amor alheios – por todos nós desejados, mas que para eles se tornaram dispensáveis. Estão sob o comando de seus desvarios, dos quais escapamos pela falta de um componente na espiral do DNA. Que bom também não sermos líderes promovendo o ódio, responsáveis por desgraças e aclamados por promovê-las.

*ró-Ã é autora do livro Dor de facão & brevidades

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