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Explorador baiano passa 40 dias no 'fim do mundo' seguindo passos de Darwin
Marcio Pimenta revelou descobertas em livro


Quando o pesquisador britânico Charles Darwin chegou, em 1832, à região hoje conhecida como Patagônia Argentina, esse imenso planalto semiárido que corresponde a quase um terço do território daquele país, ainda não havia sido anexado pelos descendentes de colonizadores europeus. Inóspita, a região era habitada basicamente por cinco comunidades indígenas que haviam se assentado ali mais de 10 mil anos antes.
A estadia de Darwin, que durou mais de três anos, coincidiu tragicamente com o início da dizimação de mapuches, onas, yamanas e outros povos por parte dos brancos.
"Darwin conversou com indígenas locais. Ele era antirracista, mas ele se assustou quando encontrou uma comunidade que ele nunca tinha visto antes", relata o fotógrafo e explorador baiano Marcio Pimenta, fotojornalista da revista National Geographic, que passou 40 dias na região, em uma viagem custeada pela National Geographic Society.
Ele considera que ao longo da sua expedição ao local, o explorador britânico se tornou mais um guia do que um personagem. "O que aprendi com Darwin na Patagônia foi a questão do tempo, como o tempo é o senhor do nosso destino, independentemente de nossas ideologias e de nossas escolhas", declara.
O fotógrafo se refere à descoberta feita por Darwin de fósseis de mamíferos extintos na Patagônia, que influenciou a Teoria da Evolução, revolucionando o conhecimento sobre a vida no planeta.
"Ele descobriu um fóssil de 11 mil anos quando a Igreja afirmava que a vida tinha 5 mil anos", lembra Marcio, que reuniu as histórias dessa viagem em Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo, um livro de 279 páginas (R$ 110) publicado pela editora baiana Solisluna, que será lançado em Salvador no próximo dia 8, às 19h, na Livraria Terra Libris (Térreo do Cine Glauber Rocha), na Praça Castro Alves.
Quase 200 anos depois da passagem de Darwin pela América do Sul, o livro ratifica a noção da volatilidade das certezas. "Na Patagônia, o tempo é o senhor porque ele está visível em toda parte. Você encontra fósseis de animais que desapareceram há milhares de anos, caminha sobre formações geológicas de milhões de anos e atravessa paisagens que parecem colocar a nossa própria existência em perspectiva", declara o fotógrafo.
Na viagem, o fotógrafo baiano chegou em alguns lugares e encontrou paisagens profundamente transformadas e outras surpreendentemente semelhantes às descrições feitas por Darwin. "O que entendi é que nada é realmente permanente, embora nossa escala de vida nos dê essa ilusão", constata Marcio.
Um dos pontos altos da experiência de Marcio no sul do continente foi a observação da geologia em Puerto San Julian, em Santa Cruz, a segunda província mais ao sul da Argentina. Ali, Marcio viu as falésias com as camadas da terra.
"Elas revelam a idade do planeta, o tempo de vida, e mostram como nós somos absolutamente insignificantes", afirma o fotógrafo, que comparou a visão que teve às diversas cascas de uma árvore, cada uma com uma coloração diferente, indicando fases distintas da vida. Marcio permaneceu por três dias nesse vilarejo com cerca de 7 mil habitantes.
Outro lugar que impressionou o fotógrafo foi Ushuaia, na Terra do Fogo, a cidade mais austral do planeta e, por isso, conhecida como o fim do mundo. "Este é o último lugar da Terra em que é possível chegar", diz Marcio, se referindo ao fato de que a humanidade surgiu na África e de lá saiu em processos migratórios pelo planeta.
Na expedição, ele se conectou a um mundo de novidades, como uma das espécies da Patagônia estudadas pelo naturalista britânico e que ganhou o seu nome, a Ema-de-Darwin. "A observação das diferenças entre ela e a ema-comum ajudou Darwin a pensar sobre como espécies próximas se adaptam a diferentes territórios", afirma.
Os gaúchos da Patagônia, por sua vez, impressionaram Darwin pela habilidade com os cavalos, pela caça e pelo conhecimento do território. "Foram personagens recorrentes em seus relatos da viagem".
O fotógrafo baiano também esteve no Rio Santa Cruz, por onde Darwin e o capitão FitzRoy avançaram pelo interior da Patagônia na tentativa de alcançar os Andes. "Eles Chegaram muito perto, mas retornaram sem saber da pequena distância que os separava das montanhas".
Na viagem, Marcio conheceu a bióloga Maria Sabina Prado, que trabalha na Estancia Harberton, na Terra do Fogo. "Seu trabalho com evolução, seleção natural e adaptação mostra como as perguntas que mobilizaram Darwin continuam presentes na ciência contemporânea".
Em Punta Alta, o fotógrafo esteve no local onde foram encontradas pegadas do Mylodon darwini, ou Milodonte, um gênero extinto de preguiça gigante. "Darwin encontrou fósseis nessa mesma região, mas não viu as pegadas, descobertas somente em 1986, 154 anos depois de sua passagem", explica.
Marcio também esteve em Puerto Deseado, lugar de onde Darwin deixou a costa e avançou pelo interior da Patagônia: "Como em outras etapas da viagem, ele tentou alcançar os Andes, mas não conseguiu chegar à cordilheira".
Ele registrou ainda a réplica em tamanho natural do Patagotitan mayorum, um dos maiores dinossauros já conhecidos. "Sua descoberta revela uma Patagônia muito anterior àquela percorrida por Darwin e amplia a escala de tempo da história que fui buscar no território".
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Estrangeiros
Rica em recursos naturais, a Patagônia tem ocupado o noticiário ultimamente pela presença crescente de estrangeiros e a facilitação por parte do governo argentino da venda de terrenos a forasteiros.
A Reuters noticiou em agosto deste ano que o bilionário teuto-americano Peter Thiel comprou ações de um projeto petrolífero em Vaca Muerta, na Patagônia.
"Preocupa, obviamente, a exploração promovida pelo atual governo da Argentina em zonas onde há glaciares", considera Marcio.
E há rumores de que Thiel pretende construir um abrigo na região para o caso de uma guerra mundial com armas nucleares, como noticiou em maio a Folha de São Paulo. O lugar chamado de "o fim do mundo" pode ser um refúgio em caso do fim do mundo?
Especialista em Darwin, o professor Charbel El-Hani, do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), destaca que a viagem do pesquisador britânico à Patagônia acontece no início de sua carreira como naturalista e elogia o trabalho de Marcio.
"Tem uma contribuição grande para dar em relação ao entendimento da obra de Darwin, uma coisa mais situada e não um trabalho teórico", aponta o professor, que será mediador de um bate-papo com Marcio durante a sessão de autógrafos no próximo dia 8.
Charbel ressalta que a descoberta dos fósseis na Patagonia foi fundamental para que Darwin, originalmente um criacionista, se consolidasse como evolucionista. E destaca a vinda de Darwin a Salvador: "É o único lugar da América do Sul em que ele passou duas vezes em paradas para manutenção do barco. Nesse momento, Darwin tem o seu primeiro contato com uma floresta tropical".
O Canal do Panamá ainda não existia e os ingleses tentavam descobrir uma forma de atingir o Oceano Pacífico pelo Estreito de Magalhães, no extremo da Patagônia.
Naquele momento, dez anos após a Independência do Brasil, os ingleses eram muito influentes no Império, e Salvador mantinha conexões comerciais importantes com o Império.
Darwin, ainda um desconhecido, ficou hospedado no Hotel Universo, imóvel que décadas depois seria a primeira sede de A TARDE, na Praça Castro Alves.
Até o barco HMS Beagle chegar ao Rio de Janeiro, Darwin era apenas um convidado de honra do capitão Robert FitzRoy. "O capitão, que era aristocrata e não falava com a tripulação, temia que a solidão o levasse ao suicídio e chamou alguém de sua classe social", declara o professor. O naturalista de bordo era um médico que desertou no Rio e Darwin assumiu o posto.
Identidade
Sobre o livro, Marcio afirma ter escolhido a Solisluna porque queria uma editora que entendesse o seu trabalho como uma obra inteira, não apenas como um relato de viagem.
"Encontrando Darwin está na fronteira entre literatura de viagem, ciência, história e exploração, e precisava de uma editora disposta a preservar essa identidade", afirma o fotógrafo, ressaltando que o fato de ser uma editora da Bahia também pesou.
A baianidade, aliás, abriu portas de lado a lado. Marcio procurou a Solisluna no fim de 2025 e poucos meses depois o livro estava pronto. "Quando ele falou que era baiano, a gente deu logo uma atenção especial", brinca a coordenadora editorial do livro, Valéria Pergentino, sócia da Solisluna.
Valéria relata que ao ler os originais ficou muito encantada. "O livro trata de uma viagem que ele fez com um objetivo muito claro, seguir os passos de Darwin pela Patagônia, mas transcende muito isso", avalia a editora, que vê no livro reflexões profundas.
Uma curiosidade é que o termo Patagônia deriva da expressão patagón (pés grandes, em espanhol), cunhada pelo navegador Fernão de Magalhães em 1520 ao conhecer a comunidade techuelte, cujos moradores eram bem mais altos do que os ibéricos.
A experiência de Darwin na Patagônia comprovou como a vida evolui e tudo muda. O livro de Marcio fez uma fotografia do momento atual.


