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Feira feminista no MAB convoca homens para debater a paternidade

Museu de Arte da Bahia sedia debate gratuito sobre paternidade ativa e empoderamento feminino

Pedro Resende
Por Pedro Resende
O cantor Dão Black é uma das atrações
O cantor Dão Black é uma das atrações - Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

Existe uma frase que resume o que está em jogo no mês em que se comemora o Dia dos Pais, no próximo domingo. "Chegar junto" não é o mesmo que "estar por perto". A distinção é sutil, mas separa duas paternidades: uma que ainda opera como espectadora da criação dos filhos, e outra que assume, de fato, a corresponsabilidade pelo cuidado. É esse o convite da nova edição do BaZá RoZê, feira artística feminista que completa um ano de ocupação no Museu de Arte da Bahia (MAB) e escolheu para homenagear a data a discussão sobre paternidade.

Neste fim de semana, o MAB está recebendo shows, oficinas, yoga em família e uma feira de moda, arte e gastronomia promovidos pelo evento, mas, o centro simbólico da edição é a roda de conversa Paternidade em tempos de empoderamento feminino, hoje, às 15h30, no auditório, que reune o psicólogo Alessandro Marimpietri, o historiador Murilo Mello, o cantor Dão Black e o sommelier José Marinho, com mediação de Mariana Paiva.

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Equilíbrio

Para Brenda Medeiros, jornalista, produtora e idealizadora do RoZê, colocar a paternidade no centro de um evento feminista não é estratégico. "Apesar de sermos uma feira feminista, o que é mais central dentro desse conceito é o equilíbrio entre gêneros", diz ela, que descreve o desequilíbrio que motivou o tema.

"Sempre vai sobrar mais por causa de quem não chega perto para dividir as tarefas obrigatórias, de responsabilidades, e esse outro lado, na maioria das vezes, é a mulher, é a mãe", afirma.

A feira nasceu há quase oito anos, por meio de um grupo de 20 expositoras reunidas em torno do empreendedorismo feminino, e chegou ao MAB há exatamente um ano.

Para entender por que esse debate ganhou tanta força nos últimos anos, vale recuar. O historiador Murilo Mello lembra que a família nuclear como conhecemos hoje – pai, mãe e filhos – é relativamente recente. "A família era maior", explica. "Primos, tias, avós viviam em conjunto". Com a modernidade e o capitalismo, essa rede se afunilou, e a figura paterna passou a concentrar uma autoridade vertical que hoje está sendo questionada: "O mundo moderno vai desconstruindo aquele modelo patriarcal, onde o pai manda, onde o poder é vertical, é imposto".

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É dentro dessa transição que o psicólogo Alessandro Marimpietri trabalha em consultório. Ele descreve o que se perde quando um pai está fisicamente em casa, mas ausente do cuidado real. Fala em uma "impressão digital subjetiva" que só se forma na relação cotidiana entre pai e filho, e no custo de não construí-la.

"Há crianças que têm que conviver com um dilema que é um pai que existe materialmente e que não existe simbolicamente", diz. Do outro lado da equação, segundo ele, está o esgotamento de quem assume sozinha a demanda emocional e prática da casa.

"Uma exaustão materna que, segundo estudos, se revela devastadora para as mulheres e, também, para as crianças que estão mais vulneráveis quando seus cuidadores de referência se vulnerabilizam".

O profissional não trata a desigualdade doméstica como fenômeno único. Para ele, há tanto machismo deliberado quanto um condicionamento tão naturalizado que passa despercebido. "Há homens que deliberadamente não querem assumir essa tarefa", afirma. "Há outros homens que, no campo do discurso, dizem querer, mas no da prática, dado esse machismo estrutural, não conseguem".

Alessandro rejeita qualquer separação entre o combate ao machismo dentro e fora de casa. "Se na sua casa aos domingos após o almoço os homens estão refestelados nas poltronas e as mulheres lavando a louça, todo seu discurso antimachista é letra morta". Para quem quer mudar e não sabe por onde começar, o conselho é direto. "Ouçam as mulheres, admitam quando errar e tentem sempre arrumar as coisas".

Geração

Se a teoria explica o movimento, é na experiência concreta que ele aparece com mais nitidez. O cantor e compositor Dão Black, um dos convidados da roda de conversa, mede a distância entre sua paternidade e a do próprio pai em cenas domésticas. O pai dele era caminhoneiro, passava semanas rodando o país entregando picolé e sorvete, e voltava para poucos dias em casa.

Quando o filho de Dão nasceu, a rotina foi outra: banho na banheira, troca de fralda, pomada para assadura. Ele relembra uma conversa entre pai e filho sobre isso: o menino perguntou ao avô se ele fazia esse tipo de cuidado, e o avô respondeu que precisava "pegar a estrada para trazer o sustento".

Para o artista, a mudança geracional tem nome. "Essa 'nova paternidade' surge por conta dessas discussões estarem nas escolas, em palestras". E o papel do pai dentro do movimento de empoderamento feminino, resume ele, é o de romper com todas as mazelas do machismo. "Essa desconstrução precisa ser praticada dia após dia".

Entre os expositores da feira, essa divisão de tarefas também vira modo de vida e de trabalho. É o caso da empreendedora Karla Rebouças, que produz velas e peças em concreto em casa ao lado do marido, Jaderson, e do enteado Benjamin.

Ele lixa peças, cuida das plantas e ajuda a escolher os lançamentos. Uma parceria que se estende da produção artesanal à criação do filho, com apoio também da mãe biológica do menino. "O propósito do meu marido é ser pai", diz Karla. "É muito lindo ver um homem que trata a paternidade de forma responsável, e que faz questão de estar com o filho sempre".

Contraponto

A expositora Tarsila Ferreira é mãe solo e representa o que ainda é maioria estatística por trás do discurso de mudança. Ela descreve um esgotamento que não veio só da ausência do pai da criança, mas de uma rede inteira que falhou. "Além do genitor, também fui abandonada por amigas e amigos, pela Delegacia da Mulher, pela Defensoria Pública... a mulher é sempre a culpada pela gravidez não planejada", afirma.

Para ela, essa discriminação vai além do estereótipo do pai fisicamente ausente para descrever algo mais silencioso. "Homens moram na mesma casa que seus filhos e não conhecem suas crianças porque não se responsabilizam por elas, além de dar dinheiro ou brincar".

A expositora Tarsila Ferreira
A expositora Tarsila Ferreira - Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

Tarsila formula por que um evento como o RoZê importa. "Os homens precisam se mobilizar e convocar amigos, vizinhos, parentes, para que isso reverbere numa mudança social".

Para Tarsila, celebrar avanços reais sem esquecer o que ainda falta deve ser prioridade de todos. Alessandro resume o tipo de impacto que um debate público como esse pode gerar, dentro de um espaço majoritariamente voltado à pauta feminista. "Trata-se de uma agenda da pluralidade, onde, entre perspectivas distintas, a gente possa amar o diálogo".

Entrada gratuita

A feira segue neste domingo com programação especial de Dia dos Pais. Às 15h, oficina Arte em Painel; às 15h30, no auditório, a roda de conversa "Paternidade em tempos de empoderamento feminino", com o psicólogo Alessandro Marimpietri, o historiador Murilo Mello, o cantor Dão Black, o sommelier José Marinho e mediação de Mariana Paiva; às 16h, yoga em família; e, encerrando o dia, às 18h, show de Ana Barroso e Estevam Dantas. A feira de expositores segue aberta com moda, decoração, arte e gastronomia.

Também em cartaz no museu: as exposições Carybé e o Povo da Bahia, Tradição e Invenção, Presságio, de Marcelo Vaz, e Mundo Zira – Ziraldo Interativo. O MAB funciona de terça a domingo, das 10h às 18h.

Serviço:

BaZá RoZê — "Pai RoZê é quem chega junto"

Até hoje, domingo, das 13h às 20h

MAB – Museu de Arte da Bahia (Corredor da Vitória)

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