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CRÔNICA

Picolé de limão na esquina

Confira a crônica deste domingo, 26

Luisa Sá Lasserre*
Por Luisa Sá Lasserre*
O som do picolé de limão na esquina e a saudade de um tempo sem pressa
O som do picolé de limão na esquina e a saudade de um tempo sem pressa - Foto: Editoria de arte A TARDE

O leite vinha em tonel na carroceria de uma Pampa; o vendedor, muito branco, feito o leite fresco que trazia. Todas as manhãs (ou quase todas, não sei bem), ouvia a buzina anunciando a chegada tão esperada, antes da grande mudança para as caixinhas das prateleiras. Perto de casa não havia sequer mercado, padaria só no bairro seguinte. Mas como faz tempo! Aonde deve ter ido parar o leiteiro pós-ascensão dos pasteurizados? Que outra profissão arranjou?

À tarde passava uma vendedora de tupperwares, que rodava o condomínio, indo de casa em casa oferecer a revolução doméstica em forma de potes de armazenamento práticos e duráveis. Não havia nada mais icônico para uma dona de casa no final da década de 80. Para minha prima e eu, apenas a expectativa de folhear a revistinha com modelos variados e promessa de passatempo nas tardes de tédio. Depois nos escondíamos atrás da parede para dar risada da oferta de copo de ‘kilk shake’ com tampa.

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Mas o que eu mais gostava mesmo era do sininho que ouvia de longe e me fazia correr até o portão, esticando os olhos para a esquina da rua onde despontava o picolezeiro. Ele já sabia meu sabor preferido, e eu nem precisava pedir, era sempre o mesmo: picolé de limão. Durante toda a minha infância e adolescência, ele passava na rua no fim da tarde, o velho picolezeiro e o sabor de sempre. Saí de lá adulta e ele permanecia no ofício.

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Havia também os vendedores de enciclopédia que vez ou outra apareciam. Quem poderia esquecê-los? Foram eles os grandes precursores da internet. Em uma era pré-Google, era àqueles grandes volumes de páginas que recorríamos quando queríamos pesquisar um determinado assunto. Das guerras mundiais ao funcionamento de uma lâmpada, tinha de tudo um pouco.

No fundo do quarto grande ao final do corredor, um móvel de madeira antigo acomodava a coleção Tesouro da Juventude, que meu pai ali guardava e eu, eventualmente, brincava de ler. A enciclopédia de 18 volumes voltada ao público infantojuvenil era a minha internet secreta, na qual eu acessava informações tão variadas quanto possível de caber dentro dos limites do papel. Lembro especialmente das fábulas de Esopo, que eu adorava, e por meio das quais a literatura e as virtudes preenchiam o meu imaginário.

Mais tarde troquei o Tesouro da Juventude por colecionar os livros de mistério de Agatha Christie, que uma revista famosa “dava” de brinde, em capa dura. As informações do mundo vinham pela televisão de tubo e o jornal de papel, cuja edição de domingo, como esta aqui, era sempre a mais esperada – principalmente o caderno de cultura. As revistas também estavam lá, e eu gostava de folhear de trás pra frente, parando nas colunas assinadas e indicações de entretenimento.

Naquela época, o mundo entrava devagar pela porta da frente e não me pedia pressa. Eu folheava os acontecimentos e degustava os instantes, feito picolé azedinho e leite morno. Percorria o corredor até o quarto grande e me sentava no chão com a minha imaginação. Os vendedores passavam na porta, mas ninguém nos empurrava consumo 24 horas ao dia.

A internet desbancou todas as enciclopédias e as tupperwares agora são vendidas em e-commerce, mas sem ninguém pra nos fazer rir pronunciando ‘kilk shake’. Não sei quando o leiteiro deixou de aparecer, nem quando o picolezeiro finalmente se aposentou. Mas eu tenho pra mim que uma parte minha ainda festeja aquele sininho do picolé de limão apontando na esquina.

*Luisa Sá Lasserre é jornalista e autora do livro de crônicas “Pensei, mas não disse” (Ed. Patuá)

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