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DIA DOS ANIMAIS

Festa, bolo e até casamento: os luxos na vida de cachorros em Salvador

Com festas e cardápio especial, cachorros ganham vida de gente

Pedro Resende
Por Pedro Resende
Aniversário com convidados e buffet: festas para cães viram tendência
Aniversário com convidados e buffet: festas para cães viram tendência - Foto: Divulgação

"Eu realmente sou mãe, mãe de pet de verdade", diz a designer de interiores Kakau Regina, tutora de Scarlett Malta da Mata, uma maltês de cinco anos que chegou à sua vida durante a pandemia. Kakau não tem filhos humanos por escolha. "Todo o amor que eu tinha para dar a um ser, eu entreguei todo para ela", conta.

A história ilustra um comportamento que já movimenta um mercado: o de tutores que tratam os cachorros como membros da família, com alimentação sob medida, bolos de aniversário feitos de carne e comemorações com direito à decoração.

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Scarlett não estava nos planos. Kakau trabalha com projetos e eventos, tem uma rotina corrida e nunca imaginou ter um pet. Foi um vizinho, que tinha acabado de perder um cachorro, quem sugeriu que ela tivesse um. "Ela chegou na minha vida de uma maneira avassaladora", lembra.

Hoje, a rotina gira em torno da cachorrinha. Ela não come ração: a comida natural é feita por Kakau, à base de carneiro e tilápia, já que a cachorra é alérgica às outras proteínas. Também toma suplementos e melatonina, além de ter plano de saúde. Nada disso, garante a tutora, é capricho, já que Scarlett tem dermatite atópica em um grau bem elevado". Quanto custa? Kakau nunca fez a conta. "Eu não falo gasto, eu falo que é um investimento".

O amor também vira festa. No primeiro aniversário, ela fechou a varanda de um restaurante no Rio Vermelho para cerca de 15 outros cachorros e seus tutores. O tema era marinheiro. "Todos os aniversários dela têm tema", diz.

Scarlett já "casou", com cerimônia e vestido de noiva. "O marido mandou de presente para ela uma cama de casal". As duas costumam combinar a roupa e dormem na mesma cama. "Eu acho que ela não sabe que ela é cachorro pelo tratamento que ela tem".

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A designer de interiores Kakau Regina, tutora de Scarlett
A designer de interiores Kakau Regina, tutora de Scarlett - Foto: Divulgação

Pandemia

Para Karine Pamponet, empresária da ZAC Food, buffet natural para cachorros, Kakau está longe de ser exceção. "Antigamente, o pet era um agregado da família", comenta. "Hoje, o animal é membro da família".

Ela relaciona a mudança às novas configurações familiares, acentuadas, na visão dela, pela pandemia. "As pessoas transferem mais para o pet a companhia, o carinho, o amor, a relação mesmo de familiar".

Com o afeto, vem a preocupação com a longevidade: exames, veterinários especialistas, suplementação e alimentação. Karine tem certificado de pet chef, e a empresa conta com uma veterinária como responsável técnica. A comida feita por profissionais, diz, é balanceada, ao contrário da caseira.

Se o pet é da família, argumenta Karine, também deve estar nas confraternizações. O buffet criou cardápios para Dia das Crianças, Halloween, São João, Páscoa e Natal. Os bolos são de carne, frango, cordeiro ou suíno. "Se parece muito com bolo humano, mas na verdade ele é um bolo pet", explica. O recheio pode ser de batata-doce, proteína, víscera ou iogurte natural, e a cobertura é colorida com beterraba, espirulina e cúrcuma.

Sem conservante, o cardápio precisa ser consumido no dia. O maior desafio, conta Karine, é a mesa. "A gente monta a festinha e tem que ficar sempre no cuidado, porque senão não dá nem para cantar o parabéns, já tem gente roubando comidinha na mesa", brinca.

Uma das clientes, a enfermeira e criadora de conteúdo pet Natália Borges, de 42 anos, tutora de Amora, Love, Flor e Bombom, começou a celebrar os aniversários no ano passado: "Senti vontade de comemorar a vida dos nossos pets com os amigos da creche".

A primeira festa foi a de Amora, também como celebração da saúde dela após um período de doença. Os convidados são cachorros, e o investimento fica entre R$ 300 e R$ 500, dependendo do número deles.

A cadelinha Amora em sua festa de aniversário
A cadelinha Amora em sua festa de aniversário - Foto: Divulgação

A medida do afeto

Quem recebe esses parabéns é a Ana Paula Canavarro, dona da creche canina AuAu, há quase 10 anos no mercado. Ela diz que a procura cresceu nos últimos três anos. A festa, porém, não é aberta ao público. "É uma festa exclusivamente para os cães que estão ali na creche", explica.

A regra tem um motivo, e tem relação com um debate sobre a medida do afeto pelos pets. Especialistas defendem que a humanização dos cães pelos tutores deve ser abordada com equilíbrio. O excesso pode fazer mal aos animais e, em alguns casos, refletir inseguranças ou projeções emocionais dos próprios donos. É nesse ponto que o afeto encontra um limite, o do respeito ao comportamento natural do animal. Esse limite aparece na prática de quem organiza festas.

Na creche AuAu, cada aniversariante convida os "melhores amigos", em grupos de quatro ou cinco, porque, segundo Ana, "comida pode despertar uma posse de recurso", o que pode gerar conflito. A decoração também deve ter limites para "não atrapalhar a dinâmica deles".

O tutor leva petiscos e bolo. "Já teve bolo de dois andares", comenta. "A gente ficou impactada com a beleza". Há quem seja fiel à tradição. A spitz Emmy, de 9 anos, comemora o aniversário na AuAu há quase uma década, e sempre tem lembrancinha para os cães levarem para casa.

O caçula de Natália, Bombom, foi o aniversariante de agosto. "É incrível como eles sabem que o dia é deles", diz. Na festa, "parecia realmente estar agradecido por aquela tarde divertida e cheia de gostosuras". Kakau, por sua vez, não tenta explicar o que sente por Scarlett. "É uma ligação que eu não sei te explicar, eu só sei sentir".

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