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O verme que "devora" Salvador: conheça o pichador clandestino LVC

Quem é o pichador por trás do verme que "devora" Salvador?

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge
Quem é LVC, o criador do verme que tomou conta de Salvador
Quem é LVC, o criador do verme que tomou conta de Salvador - Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

A pichação feita por LVC, há algum tempo, no muro de um imóvel da União em Salvador já estava quase sumida, então, o artista e pichador decidiu que faria uma nova para mostrar à reportagem, mesmo ouvindo que isso não era necessário. Depois de caminhar tranquilamente pela área externa do prédio público, carregando alguns panos sob o braço esquerdo, LVC, que aparenta ter mais de 40 anos, chega ao fundo das instalações e observa o movimento ao redor.

Certificado de que não há um vigilante por perto, o visitante começa uma rápida transformação no visual, em frente ao pequeno barranco com alguma vegetação, que separa o passeio da viga de cimento exposta, parte da sustentação do prédio.

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Às pressas, LVC veste uma calça preta de algodão, com desenhos feitos de grafite, por cima da bermuda que usava. Uma camisa é amarrada ao seu rosto, deixando à mostra apenas os olhos e um pedacinho do nariz. Em poucos instantes, a viga também vai mudar, vai ganhar uma pichação, em plena luz do dia. "O prédio está abandonado, rapaz. Isso é até uma forma de sinalizar esse abandono", diz o artista.

LVC sabe que sua atividade é considerada crime de vandalismo. Tanto que vive de forma parcialmente clandestina, não informa nada que possa identificá-lo, nem a idade, é arisco a gravar a sua voz em entrevistas e, sobretudo, assumiu a identidade social de LVC Vandalismo. Uma sigla que tampouco gosta de explicar.

Imagem ilustrativa da imagem O verme que "devora" Salvador: conheça o pichador clandestino LVC
Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Devidamente disfarçado, LVC, que se define como um "pirata urbano", pega no chão a lata de spray que trouxe consigo, recua um pouco para tomar impulso e escala rapidamente o barranco. Uma vez lá em cima, demora menos de 15 segundos para desenhar o "verme", pichação, ou pixo, que o tornou conhecido até fora do país. Na sua edição de 29 de agosto de 2023, a revista Piauí publicou a matéria A grife do verme – um pichador conquista bairros ricos de Salvador.

É que, desde 2009, cinco anos antes de criar o verme, o cara que começou a fazer pixos com colegas de escola aos 12 anos, vende camisas, calças, tênis, tapetes e quadros com o seu trabalho. E desde 2014, o grande destaque é a famosa estampa que, normalmente, é espalhada gratuitamente à noite pelas ruas, algumas vezes com risco de morte.

Em visita a Salvador no ano passado, a tradutora brasileira Paula Góes, que mora no exterior, reparou o desenho do verme em alguns pontos da capital baiana, mas até então não sabia da existência de LVC Vandalismo.

Um dia, Paula estava no cinema ao lado do paquera quando viu alguém vestindo uma camiseta com o verme. "Perguntamos onde ele tinha comprado e ele apontou a conta @lvcvandalismo no Instagram. Entramos em contato, encomendamos nossas camisas e tivemos o prazer de conhecer rapidamente o artista", declara a tradutora, que há duas semanas vestiu a camiseta feita por LVC no Burning Man, um festival alternativo que reúne anualmente cerca de 50 mil pessoas no Deserto de Black Rock, no estado de Nevada, Estados Unidos.

Paula acredita que, uma vez que se vê o verme, não se consegue mais “desver”. E logo a tradutora passou a notar os vários vermes espalhados por toda Salvador, na Cidade Alta e na Cidade Baixa. "Eu vi os vermes tanto nos pontos turísticos quanto na periferia, como se estivessem consumindo a cidade. Certamente, não fui a única a notar: toda vez que saía com minha camisa, alguém perguntava quem era o artista ou falava “olha o verme!”", relata a tradutora.

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Sobreviver

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Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Como parte de sua estratégia de ficar às sombras, o artista clandestino evita participar de festivais de hip hop com pixos, mas de vez em quando leva suas roupas para vender. Questionado se consegue viver da arte, LVC declara: "Viver, não, sobreviver. Dá pra pagar as contas".

Sobre o reconhecimento da sua obra entre seus pares, o artista declara estar "de boa", e credita o respeito adquirido ao fato de "não interferir no trabalho de ninguém". LVC se mantém atuando na noite com parte da turma dos tempos de escola. Mas houve desistências no grupo, sobretudo há seis anos, depois que Jailson Galdino de Souza Santos, o Scank, foi morto a tiros, aos 27 anos, enquanto fazia uma pichação na madrugada de 13 de fevereiro de 2020, no Imbuí.

O próprio LVC já sentiu de perto a possibilidade da morte enquanto pichava um muro. Após a chegada de um vigilante do imóvel, o pichador partiu em fuga e ouviu, às suas costas, o clique do gatilho de um revólver. Mas o tiro não chegou a ser disparado e ele saiu ileso.

Bem antes do assassinato que abalou a comunidade do pixo, Tauan Caíque decidiu abandonar as ações com os amigos. A tensão na noite era cada vez maior e a notícia da paternidade o fez buscar uma vida mais tranquila. Atualmente, Tauan vende vinhos.

Fã do trabalho de LVC, o empresário considera que as suas intervenções dialogam com o que classifica como a "brutalidade de Salvador", referindo-se à falta de planejamento urbano. "A cidade está poluída por todos os lados com outdoors e o trabalho dele é um verme, que em tese come tudo, come chão, come cimento", afirma Tauan, ressaltando que a maioria dos pichadores soteropolitanos é formada por jovens da periferia em busca de uma forma de expressão.

O empresário, que conhece LVC há mais de 12 anos, recebeu de presente do artista clandestino camisas para ele e para os seus filhos; o mais velho, que mora nos Estados Unidos, e Malik, este morando consigo: "Em termos de moda, LVC tem um senso estético muito bom".

Imagens na cidade

Produtor cultural, Maurício Galvão conheceu o universo do hip hop nos anos 2000, quando participou da criação do Casarão Santa Luzia, na Avenida Jequitaia. Naquele momento, Salvador tinha uma cena underground vibrante. Quando criou o projeto Salvador Meu Amor, em 2011, passou a mapear os artistas soteropolitanos e, através de seus amigos, recebeu uma enorme quantidade de imagens do verme espalhadas pela cidade.

Maurício passou a seguir LVC no Instagram e ficou impressionado porque o artista não usava a rede apenas para divulgar o que fazia. "Ele transformava a própria comunicação em uma extensão da obra. Havia uma espécie de gamificação da arte, com pistas, deslocamentos e interações com o público", aponta o produtor cultural, que adquiriu do artista não apenas uma camisa, como um quadro e um tapete.

Na opinião de Maurício, o principal diferencial de LVC é ter criado uma imagem imediatamente reconhecível, o verme. "A figura da boca escancarada, cheia de dentes, e do corpo formado por semicírculos funciona como personagem, assinatura e marca territorial. Ela aparece em diferentes pontos de Salvador e produz uma espécie de mapa afetivo e visual da cidade", analisa Maurício.

O produtor cultural Maurício Galvão passou a seguir LVC no Instagram
O produtor cultural Maurício Galvão passou a seguir LVC no Instagram - Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Professor de Desenho da Escola de Belas Artes da Ufba, Roddolfo Carvalho considera que o trabalho de LVC em Salvador é emblemático e possui várias leituras. "Em uma camada superficial, ele carrega a imagem de um verme sedento, insaciável, com uma boca enorme, na intenção de devorar tudo o que ele encontra pela frente", define o professor, para quem o ícone define o próprio artista, em uma proposta de devorar a cidade para garantir a própria existência.

Outra análise feita pelo professor, que também é artista visual, é o uso antigo da palavra verme como gíria depreciativa, que em Salvador adquiriu outra conotação. "Falar que uma pessoa é um verme, aqui, significa que ela é muito preparada para sobreviver às adversidades", aponta Roddolfo.

Ele também assinala que qualquer animal que passe pela fase larval precisa se alimentar, nesse momento, de tudo o que encontre pela frente. Como lagartas que viram borboletas e vermes que se transformam em moscas. "É perfeitamente possível olhar esse verme como uma fase da urbanidade de Salvador, que vive nessas contradições", declara.

Pichação e grafite fazem, igualmente, parte da cultura hip hop, que ainda inclui ouvir rap e andar de skate. "O pixo vem dos registros mais antigos da Roma Antiga, do piche, do betume, que penetra profundamente na pedra e não sai de jeito algum", explica o professor de Desenho da Ufba, Roddolfo Carvalho, ressaltando que o seu uso tinha uma veia política forte, como as críticas ao imperador.

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Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

No Brasil, a pichação começa a ser usada de forma organizada em meados da década de 1960, com a implantação da Ditadura Militar. "A forma de comunicar de grupos contrários à ditadura, buscando a resistência, era a pichação nas paredes", destaca Roddolfo.

A pichação servia, ao mesmo tempo, para denunciar o desaparecimento de pessoas e exibir a ousadia de invadir lugares proibidos. "Em Salvador, há registros da década de 70 como ato político, sem ter necessariamente uma filiação partidária", explica.

Gesto de resistência

A curadora e professora Alejandra Muñoz, do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Ufba, entende o pixo em sentido mais de grafia, de escrita, de códigos às vezes pictográficos, mas de comunicação de uma mensagem de protesto contra o estabelecido. "É um gesto de resistência contra as hegemonias socioculturais e econômicas, uma manifestação artística de resistência a qualquer domesticação e institucionalização, muitas vezes uma alternativa de expressão quando não há escuta", aponta.

Ainda na ativa e sem previsão de deixar o pixo, LVC conhece detalhadamente os caminhos e as rotinas de alguns prédios públicos de Salvador, incluindo o período de almoço dos vigilantes. Uma dessas construções, inclusive, serve de ateliê informal, onde ele espalha pelo chão dos corredores e pela grama camisas que podem ser vendidas por R$ 250.

Imagem ilustrativa da imagem O verme que "devora" Salvador: conheça o pichador clandestino LVC
Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Concluída a atividade de LVC no prédio público, o repórter faz menção de tomar o caminho de volta, mas ouve o pichador/artista visual informar que, pelo outro lado, bem mais próximo, há um elevador.

Após o cumprimento de bom dia a uma jovem que também aguardava a cabine, faz-se um pequeno silêncio até que o painel do ascensor indica a chegada ao andar desejado e um alerta sonoro indica a abertura da porta. LVC se despede e vai caminhando para fora do imóvel, onde às vezes faz pichação e, às vezes, produz material para vender pelo Instagram.

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