ABRE ASPAS
Filha de Marielle desembarca em Salvador com projeto focado nas eleições
Luyara Franco avalia o cenário para mulheres negras nas eleições


"É uma honra, um dever, uma responsabilidade tremenda". É assim que Luyara Franco, diretora-executiva do Instituto Marielle Franco e filha da vereadora do Rio de Janeiro e ativista negra assassinada em 2018, resume seguir à frente da organização que multiplica o legado da mãe. Na semana passada, Salvador recebeu a segunda parada do evento Brota, Semente, ação gratuita que leva a Agenda Marielle Franco 2026 e o Indicador Marielle Franco de Qualidade Democrática aos territórios, com oficinas de esporte, escrita e mobilização.
Nesta entrevista, Luyara fala sobre a escolha de Salvador para a circulação e os avanços e retrocessos de mulheres negras, periféricas e pessoas LGBT+ na disputa política, há dez anos da eleição de Marielle. Luyara ainda trata sobre a importância de aplicar um pensamento democrático na prática. "Pensar democracia é pensar em uma ferramenta para o cotidiano", afirma a diretora.
Como é construir a sua própria voz à frente de uma organização sem deixar de honrar o legado da sua mãe?
Eu acho que a gente já estava honrando desde o início, desde 2018, quando a gente vai para as ruas mostrar que o luto virou luta. É aí que a gente funda o instituto, com a minha família entendendo a importância da multiplicação desse legado. Eu estava com 19 para 20 anos quando tudo aconteceu. Eu fui me entendendo também no lugar da responsabilidade do nome, no peso de pegar esse legado. Fui me construindo, continuando a me forjar nessa luta, no lugar que eu sempre estive com a minha mãe, nas ruas, pelo desenvolvimento.
Em 2023, eu entrei para o instituto como coordenadora de memória, para pensar de fato a parte da preservação, entendendo que ali era um lugar talvez menos doloroso para continuar nesse caminho. Eu sou a herdeira, a única filha que ela tem sou eu. Então, fui entendendo os meus processos, mas tomando o meu lugar, que é de direito. Estou há um ano na direção executiva. Com muita certeza do nosso propósito, com muita força, venho me inserindo nos círculos da gestão dentro do instituto. É uma honra, um dever, uma responsabilidade tremenda, mas com muita consciência do nome, do tamanho e do que a gente precisa fazer para continuar esse projeto político em que acreditamos.
Você costuma dizer que a democracia precisa fazer sentido na vida das pessoas. Como é que o instituto traduz esse conceito em ações concretas nos territórios?
Tem uma fala da minha mãe, inclusive uma das últimas falas dela, em que ela diz que, 10 anos antes dela entrar na Câmara, estava lá a política brasileira Jurema Batista, e 10 anos antes disso era Benedita da Silva. Ou seja, não tinha como a gente pensar na democracia daqui a 10 anos e saber quem estaria lá. Infelizmente, na noite em que ela disse isso, ela foi assassinada. Então, pensar em 2026, o ano em que se completam 10 anos da eleição dela, é pensar o que aconteceu com a democracia nos últimos anos e como a gente continua mantendo essa comunidade e essa importância da democracia viva, trazendo isso mais para cada território.
Voltamos esse ano com o Brota, Semente em cinco cidades, avançando nesses encontros territoriais, com estratégia para cada um deles. Quando a gente fala "eu sou porque nós somos", de "eu sou porque ela é", é um conceito que é de uma sabedoria que se pratica. O Brota, Semente é desbrotar, é germinar, mas também é algo que precisa ser construído junto. Eu aprendi com a minha mãe que a mudança é uma responsabilidade coletiva. Então, a gente não pode pensar no futuro, pensar a cidade que a gente quer, pensar a democracia que a gente quer, se a gente não escuta as pessoas. Pensar democracia é pensar em uma ferramenta para o cotidiano.
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O Brota, Semente estreou em São Paulo e agora vem para Salvador. Como é que foi a escolha da capital baiana como a segunda parada?
Em São Paulo, a gente conseguiu ver, na prática, a importância dessa ação. Está sendo muito legal, porque a gente está diversificando a nossa linguagem: não estamos só fazendo roda de conversa. Começa o dia com uma ação, um alongamento consciente. Penso no corpo, no território, na importância dessa ligação do corpo com a mente.
Depois, uma oficina de colagem, uma oficina de escrita. Então, pensando numa linguagem bem acessível e diferente do que a gente já está acostumada a fazer. Eu sou suspeita para falar de Salvador porque é uma cidade que eu amo. Tenho primos que moram aí. A gente escolheu Salvador também porque temos a Casa Marielle Franco, que não é do instituto, mas é um braço parceiro. Salvador é esse lugar de gente preta: no Brasil, é um lugar onde nossas raízes são muito fortes. Fico muito feliz de voltar para o nosso lugar assim.
A Agenda Marielle Franco é um conjunto de propostas para candidaturas comprometidas com direitos, criado com a escuta de cerca de 150 organizações e movimentos sociais. A edição de 2026 teve alguma atualização?
A agenda Marielle Franco é esse conjunto de boas práticas e políticas que a gente coloca à disposição da sociedade em anos eleitorais, principalmente das pessoas que estão se candidatando, se colocando na política institucional, para que se comprometam com aquele compromisso, com um jeito Marielle Franco de fazer política. Claro que a gente continua lutando por justiça, continua multiplicando o legado dela enquanto parlamentar e também em relação ao que de fato aconteceu, o assassinato.
Mas o que a gente mais preza é a importância de continuar com o projeto político em que ela acreditava, com as produções acadêmicas, com os pensamentos que ela trazia enquanto mulher preta e ativista. A gente coloca tudo isso dentro de uma agenda para os parlamentares que vão se candidatar. Em 2026, temos nove eixos na agenda, entre eles, vamos debater segurança pública, direito à saúde e à educação. Este ano tem uma novidade: estamos colocando um eixo específico de direito ao esporte, pensando o esporte do território e a memória do território.
Tem muito a ver com o indicador de qualidade democrática, imagino...
Sim, o Indicador Marielle Franco será uma pesquisa, lançada em outubro deste ano, que vai acompanhar o que se fala sobre a minha mãe e sobre a democracia na internet o ano inteiro. Assim, não ficamos restritos à tela de quem pesquisa, e consegue levar para a roda o que a gente está vendo, o que está sendo construído.
De certa forma, tem pessoas muito comprometidas, pessoas defendendo – mas também tem pessoas usando o que aconteceu para legitimar e continuar difundindo violência política. E acho que o nosso trabalho principal dentro do instituto é combater a violência política de gênero e raça. A gente está nessas primeiras fases. Lançamos o indicador um pouco depois das eleições, mas entendendo que o indicador não vai ser algo fechado. A gente está fazendo o indicador pensando nesse termômetro eleitoral, nessa conjuntura 2026 e no que vamos pegar dos anos passados.
O que mudou ou o que não mudou para pessoas dissidentes, mulheres negras, periféricas, LGBT+ que querem disputar espaço na política brasileira?
Difícil responder isso. Depois do assassinato da minha mãe, houve um movimento muito orgânico das pessoas entenderem a importância de ocupar esse lugar. Hoje vemos mais mulheres negras, feministas, mais pessoas LGBT+ dentro da política institucional. Tivemos um avanço considerável em 2018 e mudanças concretas no processo eleitoral, com o fundo partidário, as cotas e os recursos específicos destinados a candidatas, especialmente às negras.
Por outro lado, o crescimento da violência política chegou a um patamar alarmante. Foi justamente sobre isso que tratou a última pesquisa do instituto, dedicada à violência política no ambiente digital: nela conseguimos traçar uma tipologia e mapear as estratégias usadas pela extrema direita para atacar mulheres negras e periféricas nas plataformas. Ao final do estudo, incluímos também um manual de orientação para que elas saibam como lidar com esses ataques. Ou seja: avançamos de forma significativa na representatividade e na quantidade de mulheres dentro dos parlamentos.
Só que, nesse mesmo caminho, o número de ataques também disparou – usados justamente como estratégia para intimidar e paralisar. Foi pensando nisso que, no ano passado, lançamos o livro Rosas da Resistência, que reúne a experiência de 11 candidatas, algumas eleitas, outras não. A dúvida é: afinal, o que acontece depois? Quem cuida de quem cuida? É por isso que insisto, temos mais pessoas se reconhecendo nesse lugar, mais candidaturas, mais eleitas, mas junto disso uma violência de gênero e raça que também cresce e segue sendo usada como ferramenta de paralisação.


