CRÔNICA
Os ciclos de minhas escritas
Confira a crônica deste domingo, 6


Quando achei que conhecia meu corpo e seus mandos e desmandos hormonais, minha vida virou de ponta cabeça. Perto dos 40, nada mais faz sentido, meu ciclo encolheu de maneira desesperadora, meu fluxo aumentou tanto que meu banho se assemelha ao cenário de um crime hediondo, e meus sintomas tomaram formas alarmantes: dias de depressão são seguidos por um dia de fúria assassina, aplacada pela chegada de uma irritabilidade sem tamanho, que só se esvai com as últimas gotas de sangue, quando tudo acaba, apenas para recomeçar, sem pausa, sem paz.
Mas antes da morte, a vida, e antes da menstruação, a ovulação. Esse é um período que sempre passou um tanto despercebido para minha pessoa, mas que de uns tempos para cá vem causando grande comoção, visto que sou tomada por um tesão sem precedentes, que às vezes me faz ter medo de engravidar só de pensar em sexo – e passei a pensar muito nisso! – em especial, quando leio, escrevo, falo e escuto sobre literatura ou sobre teoria da literatura, a segunda é um orgasmo garantido. É estranho até para mim, mas isso começou quando voltei para a Universidade e, bom ou ruim, parece que, por enquanto, vai ser assim.
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Tudo isso para dizer que quando estou ovulando tem dias que queria escrever, mas só penso em foder. Ainda bem que tenho um companheiro sempre disponível em casa e posso utilizar de seus serviços sempre que a penetração me faz falta, embora essa não seja minha parte favorita do sexo, prefiro me relar contra superfícies, meus dedos, outros dedos, boca, língua e até a pica, mas ela está longe de ser a estrela da festa. Escrever não com a caneta em punho, mas com as pontas dos dedos ágeis sobre o teclado, acariciando cada uma das letras, borrando meus pensamentos com o botão de apagar, quantas vezes eu quiser, usando o calor de Salvador como desculpa para me permitir arder por dentro, deixando a escrita ir tomando meus sentidos e seus sentidos, indo e vindo, às vezes resistindo, às vezes transbordando rápido demais. Escrever para gozar, no mais, dispenso.
Dispenso a escrita e também você, leitor, como dispenso a presença do outro no sexo – é bom, mas é muito bom sem – minhas fantasias escorrendo soltas entre minhas coxas, todos os músculos retesados, negociações e concessões fora, meus desejos. Engraçado é que mal acabo de escrever essas palavras e já discordo de mim mesma, pois estou mentindo ao dizer que meu desejo exclui outros e outras – meus devaneios eróticos sempre vão ao encontro de alguém que desconheço na intimidade do corpo físico, mas que tateio em meu processo masturbatório de criação de uma fantasia que se esvai com um orgasmo, de uma ficção amorosa que tende a perdurar muito mais do que deveria ou de um texto, pois as autoras com que trabalho são grandes responsáveis por muitos desses momentos de gozo, às vezes basta uma frase bem construída ou um lampejo da intimidade de suas entranhas para me deixar louca e me fazer desejar a escrita.
O prazer de ler de quem apalpa zonas erógenas estrangeiras; escrever como quem mostra o íntimo do aparelho reprodutor, canais de conexão em trânsito, fases desconhecidas de mim, meus lados obscuros, meus ciclos expostos – sangue, suor, lágrimas, espasmos de dor e de prazer. Ser lida como quem se toca em um quarto escuro diante de ti. Quem está aí?


