CRÔNICA
O céu do rancho
Confira a crônica da Muito deste domingo, 16


Encontro seu Nonô na feira e o parabenizo pelo nascimento de sua primeira neta. Seu Nonô tem um só filho e três netos meninos. A chegada da netinha o alegrou muito.
— Eu só não gostei de uma coisa, seu Frank. A minha nora fez um negócio que desagrada a Deus.
— Como assim, seu Nonô?
— Depois do parto ela ligou as trompas. Mas o que eu posso fazer, né?
Dona Minerva, minha conhecida, teve que hospedar durante uns dias a sua velha mãe. As duas não se dão bem, a mãe é desbocada, intrometida, uma peste. Quando Minerva tinha 14 anos, a mãe a entregou para trabalhar numa casa de um casal idoso. A mulher do casal era doente, e o velho se aproveitou da menina e a engravidou. Depois que o homem ficou viúvo, se casou com a mocinha e tiveram outros filhos. Há uns anos o velho faleceu. A mãe de Minerva volta e meia culpa a filha de ter seduzido o patrão.
Numa festa de aniversário, reclamo com Zé do Leite sobre as pragas no meu quintal. A lagarta comeu o pé de maracujá, a ferrugem ataca as pinhas e a atemoia, os gafanhotos chegam justamente quando o pé de manga está florindo, e devoram tudo. Zé se queixa de algo mais complicado: as capivaras que vieram no curso do rio Itapicuru e subiram os afluentes, devastando as lavouras e se reproduzindo com até oito filhotes por fêmea, por ano. Os agricultores têm que cercar as plantações com redes de metal. Na conversa sinto-me um fazendeiro, com as preocupações da classe, para isso bastando o meu quintal tão singelo.
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A cidade de Araci está localizada a 272 metros acima do nível do mar, e talvez por isso a gente veja céus belíssimos, céus suaves, céus solenes. Há muitas nuances de céu, principalmente ao pôr do sol, com centenas de cores. Já observei umas 1.200, mas ainda descubro novas.
São laranjas, amarelos, rosas, azuis bebês, azuis petróleos e outros tons tão perfeitos que nem as lagartas nem a ferrugem nem os gafanhotos nem as capivaras consumirão. Somente o Sol do meio-dia, vermelho de fome, arrebenta com essa tela e nos impede de contemplá-la.
De noite, o silêncio cai pesado sobre o rancho do Regalo e a quietude assusta quem não está familiarizado. Evito olhar o espelho negro do celular, mas a tentação às vezes é forte. Sei que dentro do lago escuro da tela e do mundo movem-se os mesmos conhecidos monstros antigos da velha raça humana, os monstros que nunca nos deixam, mais assustadores do que o mato em volta. Acostumar-se ao silêncio é o melhor negócio.
O novo dia começa gelado. Assim que abro a porta, a gata, que passou a noite vadiando, invade faminta a cozinha. Recebo-a e pergunto onde passou a noite, se encontrou os raros vagalumes que no quintal resistem à extinção. Nada me diz sobre as suas companhias. Fazemos o desjejum e preparamos novos passeios pelas redondezas.
O povo aqui elogia pouco, é sisudo e pouco abraça. Ainda bem. No entanto, eles ficam constrangidos quando pedimos algo e não podem nos dar. Sempre terminam as respostas negativas com uma pergunta: “Tenho não, hein?”, “O pão acabou, hein?”. E tome-lhe justificar: “Hoje foi pouco pão, porque o padeiro teve que viajar, porque teve umas ovelhas dele que sumiram. E a mãe dele…”. Explicação que ninguém pediu.
Mas bonito mesmo é o verbo “iencher”, como no exemplo “A churrascaria só ienche no final de semana”. Dá a verdadeira impressão de um lugar que sai do vazio completo para a lotação máxima. Esse “i” no começo da palavra é sinal claro de inflar.
Maravilha da nossa língua, este céu de puríssimo azul.
*Franklin Carvalho é autor de Tesserato – A tempestade a caminho (Ed. Noir)


