CRÔNICA
A cidade que esqueceu suas praças
Evanilton Gonçalves narra com melancolia a destruição de uma praça histórica no centro de Salvador


Quando eu vim morar aqui, no centro da cidade, a primeira coisa que avistei de minha janela foi uma tradicional banca de jornal e revistas, dessas que quase não se encontram mais facilmente por aí. Sorri do alto pensando que seria fácil descer e comprar dois exemplares do jornal de domingo, nos quais uma crônica minha tentaria capturar o tempo com palavras.
Um exemplar serve para constituir o que chamo pomposamente de meu acervo pessoal de literatura, de modo que sou minha própria instituição de preservação, armazenando em uma das gavetas do guarda-roupa, entre meias, roupas íntimas e peças-chave para o dia a dia, além das minhas crônicas, matérias jornalísticas que afirmam para o mundo que eu sou escritor e, alimentando o dito popular, alguém que faz e acontece.
O outro exemplar é mais importante, é para mainha, minha leitora predileta. Com certeza, ela guarda melhor que eu meus escritos. Se dependesse dela, eu já teria o Nobel de Literatura.
O mundo tinha quase acabado quando cheguei aqui no Dois de Julho. Mas alguém ainda lembra que somos sobreviventes da pandemia de covid-19? Quando se olha de longe, parece que não somos capazes de enxergar direito. Desci num domingo para comprar meu jornal e descobri que a banca era mais uma que tinha, na verdade, se reinventado como loja de conveniência e, apesar da variedade de produtos, não vendia jornal.
Uma coisa era certa: o senhor que trabalhava na banca azul no meio da praça tinha como uniforme variações da camisa do Esporte Clube Bahia. De longe ou de perto, nunca o vi com uma camisa diferente. Agora não o vejo mais, porque ele sumiu junto com a banca que foi arrancada do meio da praça. Por um tempo, observei no chão a existência frágil do passado: uma base de cimento com contorno retangular que desenhava o vazio duro e o abandono que crescia no meio da praça.
Nos dois bancos revestidos por mármore há pouco mais de 15 anos, histórias antigas e recentes não se cruzarão mais, pois não há mais banco para as histórias se assentarem. Bem no canto, a árvore que dança majestosa pela sábia condução do vento parece nos mandar um sinal de alerta sobre a iminente morte da praça. “Não veem o que está acontecendo?” As pessoas sobem e descem indiferentes. Da janela, também especulo sobre o que está acontecendo. Intrigado, no caminho para a padaria, abordo um dos trabalhadores.
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“Oi, com licença, tudo bem? Pode me dizer o que está sendo construído na praça? É academia de rua, é?” O homem de rosto cansado me diz que não. Enxuga o suor da testa e me conta o que vem por aí. Se eu já não fosse incrédulo, ficaria. Sinto vontade de folhear um Dicionário de Insultos, de praticar a Comunicação Ultraviolenta contra a prefeitura, embora eu tenha acabado de ler Comunicação Não Violenta, de Marshall Rosenberg.
Respiro fundo e agradeço ao trabalhador pela informação. Em casa, bebo o café recém-feito cujo aroma delicioso traz algum relaxamento. Enquanto mordisco o pão e rumino ideias, pouco a pouco a praça segue sendo desfeita, transformada por um recuo plano e isolado. Carolina Maria de Jesus me vem à mente: “Deixe estar que eu vou botar vocês todos no meu livro!”
Na Esquina do Arco-Íris, encontro da Rua Carlos Gomes com a Rua da Faísca, homens da prefeitura trabalharam dias e dias, manipulando máquinas pesadas e diversos materiais de construção, para fazer o que o patrão mandou: matar a praça, isto é, a vida comunitária.
Em seu lugar, com o toque de urbanismo típico de uma visão de mundo pouco inteligente, que prioriza a poluição do ar, a vida segregada e a insegurança, a prefeitura construiu um revolucionário estacionamento para meia-dúzia de veículos.
*Evanilton Gonçalves é autor de Ladeira da Preguiça (Todavia)


