MUITO
Não é sobre nada disso
Confira a Crônica da revista Muito


Eu não aguento mais falar sobre isso. Topo falar disso, falar do que quero, do que precisamos, abrir um diálogo em torno do assunto, dizer alguma coisa em relação a isso tudo. Mas falar sobre… vai me desculpando, é que a palavra, de tão gasta, anda fina feito papel de seda reutilizado na embalagem de presente, quase rasgando.
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Sim, estou falando desta senhorinha que, até pouco tempo atrás, não tinha muito prestígio nem pompa: andava de roupas simples, gestos modestos, um pouco acanhada. Hoje deu para vestir-se com os looks da moda, circula nas grandes rodas (ou redes?) sociais, faz companhia a quem quer exibir um discurso legal. Estou me referindo a ela, a dona preposição.
Concebida como um elemento de ligação entre outras duas palavras, sua natureza sempre foi de dependência, sujeição, conformidade. Se eu digo que falarei sobre… imediatamente, vem a pergunta implícita: sobre o quê?! Um assunto? Uma notícia? Uma novidade? Uma ideia? Exige-se naturalmente um complemento.
Mas isso foi antes da emancipação. Agora a preposição quer ser autônoma, independente, em outras palavras: dona do próprio nariz. Uma coadjuvante da frase, que agora cismou de seguir carreira própria na tentativa de ser protagonista. Quer terminar a oração sozinha sem depender de mais ninguém, nem mesmo do complemento necessário para explicar o que se pretende.
“Este é um assunto do qual vamos falar sobre” – alguém diz de boca cheia, invertendo a ordem natural do enunciado, talvez na tentativa de imitar o inglês, idioma no qual há construções com preposição em fim de frase, sem se ater ao fato de que, no português, não. A própria raiz etimológica da palavra preposição já indica a função do termo: ‘pre’ vem do prefixo latino ‘prae’, que significa antes ou à frente. Ou seja, preposição é o que se coloca em posição anterior a outra palavra. Não é incrível como a própria língua, em geral, já nos explica seu funcionamento?
Para além dessa questão fundamental de posicionamento na frase, a nossa senhorinha também anda metida a besta por outras razões. É um tal de “é sobre isso” pra cá, “não é sobre isso” pra lá. Vá nas redes (e também nas rodas) para comprovar. Quantos conteúdos – para usar essa outra palavra que ascendeu no rol social da fama, seguida aqui dos temidos travessões – você costuma ler com esse tipo de frase?
Veja bem, não é sobre seguir regras. É sobre se comunicar de verdade. E aí basta você notar que pode tirar o ‘sobre’ sem qualquer prejuízo de sentido ou significado pra ver que ele está ali como mero bibelô. Está na moda, principalmente com as ferramentas de inteligência artificial que usam esse modelo como padrão em seus textos. Esquecem que o mais importante não é só seguir regras, é se comunicar de verdade.
Uma boa comunicação requer entendimento e bom senso no uso da linguagem. De conceitos vazios, o inferno linguístico já está cheio. Eu sei que a língua é um organismo vivo. “A preposição pode ser o que ela quiser e bem entender”, alguns defenderão. Mas as mudanças ocorrem de modo espontâneo, amplamente incorporadas no dia a dia dos falantes e consolidadas ao longo do tempo; não deveriam ser por modismo digital.
Esta senhorinha anda cheia de vontades, mas não tem pra onde correr… ela continua sendo elemento de ligação. Não é ninguém sozinha, ouso dizer. Não há pompa ou look da moda que dê jeito. Não é sobre isso, entende?!
*Luisa Sá Lasserre é autora do livro de crônicas “Pensei, mas não ydisse” (Ed. Patuá)

