JUSTIÇA X PARTO
Julgada no parto: mãe enfrenta tribunal em audiência virtual durante contrações
Com um tablet na maca, mulher lutou contra o Estado e o hospital para garantir o direito de decidir como sua filha nasceria

O nascimento da filha de uma mulher nos Estados Unidos ganhou contornos inesperados ao envolver uma disputa judicial em tempo real durante o trabalho de parto. A gestante, que estava internada em um hospital, participou de uma audiência virtual após recusar a realização de uma cesariana recomendada pela equipe médica.
Cherise Doyley, que atua como doula e já havia passado por três cesáreas, deu entrada no Hospital da Universidade da Flórida com a intenção de tentar um parto normal. Segundo os médicos, havia risco de ruptura uterina, que é uma complicação considerada rara, mas potencialmente grave, especialmente em pacientes com histórico de cirurgias anteriores.
Cherise afirmou que estava ciente dos riscos, que estimava serem inferiores a 2%, e disse ter baseado sua decisão em experiências anteriores. Ela relatou complicações em recuperações passadas, incluindo episódios de hemorragia, além da preocupação com os cuidados com os filhos durante o pós-operatório.
Audiência judicial
Horas após a internação, ainda em trabalho de parto, a gestante foi informada de que participaria de uma audiência judicial. Um tablet foi posicionado diante dela, dando início à sessão virtual, que reuniu médicos, advogados, representantes do hospital e o juiz Michael Kalil.
Durante a audiência, foi informado que o Estado havia apresentado um pedido emergencial, a partir de solicitação do hospital, para autorizar a realização da cesariana. Cherise contestou a medida. “Eu ainda tenho direitos como cidadã americana e como paciente, e tenho o direito de decidir o que acontece comigo, com meu corpo e com meu bebê”, disse.
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Em outro momento, ela também questionou: “Tenho outros filhos no mundo que precisam de mim. E esse é o meu direito, porque, no fim das contas, se eu morrer por causa de uma cesariana, ninguém nesta ligação vai cuidar dos meus filhos. Eles vão me amarrar e me fazer uma cesariana contra a minha vontade?”.
Sem cirurgia
Após cerca de três horas de discussão, o juiz não determinou a realização imediata da cirurgia, mas autorizou que o hospital interviesse sem consentimento em caso de emergência.
Durante a madrugada, a equipe médica identificou alterações nos batimentos cardíacos do bebê. Diante do novo cenário, Cherise foi encaminhada ao centro cirúrgico, onde deu à luz, por cesariana, a filha Arewa.
O caso ocorreu no fim de 2024, e a criança atualmente tem um ano. Após o episódio, Cherise afirmou que avalia recorrer à Justiça, alegando ter se sentido pressionada durante o processo.
“Quando usamos os tribunais para basicamente coagir e intimidar alguém a se submeter a um procedimento médico desnecessário contra a sua vontade, isso é semelhante à tortura”, declarou a mulher ao comentar a situação.
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