ALERTA
Milhões de pessoas podem perder auxílio em meio à grave crise financeira da ONU
Crise sem precedentes? ONU corta milhares de empregos e acende alerta mundial


A Organização das Nações Unidas (ONU) enfrenta uma crise financeira que já provocou a eliminação de mais de 10 mil postos de trabalho em apenas um ano e ameaça a continuidade de programas humanitários em diferentes regiões do mundo. A redução de recursos atinge principalmente iniciativas voltadas à assistência de refugiados, crianças e populações em situação de vulnerabilidade.
Segundo dados trazidos pelo g1, entre 2024 e 2025, o número de postos de trabalho no sistema das Nações Unidas passou de 130.948 para 120.176, uma queda de aproximadamente 8%. Os dados constam de um relatório do Conselho de Chefes Executivos da organização, que reúne informações sobre os quadros de pessoal das agências e organismos vinculados à entidade.
O cenário é agravado pela redução das contribuições de países financiadores e pelo atraso em pagamentos obrigatórios. Os Estados Unidos, responsáveis pela maior parcela do orçamento regular da ONU, acumulam uma dívida bilionária e condicionam novos repasses à implementação de reformas na instituição.
Cortes atingem 21 organismos das Nações Unidas
Em 2025, a redução de pessoal afetou 21 dos 41 organismos e agências integrantes do sistema da ONU. Entre as instituições mais prejudicadas estão o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Para 2026, a organização também autorizou a extinção de aproximadamente 2,9 mil cargos adicionais. Como parte das medidas para reduzir despesas, foram implementados programas de desligamento voluntário e aposentadoria antecipada.
A manutenção de toda a estrutura das Nações Unidas custou US$ 64,3 bilhões, aproximadamente R$ 322 bilhões, em 2025. O montante representa uma redução de 2% em comparação com 2024.
Cerca de dois terços desses recursos foram direcionados a atividades humanitárias e projetos de desenvolvimento realizados nos países atendidos pela organização.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, já havia alertado, no fim de 2025, para a fragilidade das finanças da instituição.
O porta-voz de Guterres, Stéphane Dujarric, afirmou ao g1 que a situação se agravou com a diminuição expressiva das contribuições voluntárias dos Estados Unidos, responsáveis anteriormente por aproximadamente 45% do orçamento destinado à assistência humanitária. Países europeus também reduziram seus repasses.
Segundo Dujarric, as consequências incluem diminuição na distribuição de alimentos e vacinas, restrições ao acesso à educação e encerramento de programas voltados a refugiados.
Mais de 8 milhões de pessoas podem perder assistência
O ACNUR está entre as agências que enfrentam as maiores dificuldades financeiras. Em 2025, a instituição estimou a necessidade de US$ 10,6 bilhões para atender quase 130 milhões de pessoas, mas conseguiu arrecadar menos de 40% do montante.
No ano anterior, a arrecadação havia correspondido a 48% dos recursos necessários para manter suas atividades.
Diante da redução das receitas, a agência diminuiu seu quadro de funcionários em um terço, fechou escritórios em 140 localidades e encerrou operações em 15 países.
A estimativa do ACNUR é que 8,3 milhões de pessoas possam deixar de receber assistência essencial em 2026 em consequência dos cortes.
A restrição financeira já afeta serviços de proteção em países como Afeganistão, Síria e Etiópia. No Chade, mais de 230 mil crianças correm o risco de ficar sem atendimento de proteção infantil.
A situação permaneceu crítica ao longo de 2026. Até o fim de julho, o ACNUR havia recebido US$ 2,7 bilhões dos US$ 8,5 bilhões necessários para suas operações anuais, mesmo após uma redução de 20% no orçamento.
Outro obstáculo é a destinação dos recursos arrecadados. Mais da metade das contribuições recebidas possui utilização previamente determinada pelos doadores, o que limita a possibilidade de direcionar o dinheiro para outras necessidades emergenciais.
A agência defende a ampliação do financiamento e a flexibilização dos repasses para evitar novas restrições aos serviços humanitários.
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Brasil também sofre impactos da crise
A redução de recursos internacionais já provoca consequências para o atendimento de refugiados no Brasil.
Segundo Davide Torzilli, representante do ACNUR no país, a instituição havia recebido, até o fim de agosto, somente 22% do orçamento necessário para suas atividades em 2026. Em 2025, os cortes atingiram 40% da força de trabalho do ACNUR e das organizações parceiras financiadas pela agência no território brasileiro.
A falta de financiamento ameaça o atendimento a mais da metade dos refugiados que necessitam de assistência no país. Entre os serviços comprometidos estão o fornecimento de abrigo, alimentos e itens básicos de sobrevivência.
O cenário ocorre enquanto o Brasil registra a chegada de até 500 pessoas por dia em busca de proteção internacional. De acordo com Torzilli, a escassez financeira já fez com que alguns refugiados perdessem acesso a programas de assistência, enquanto outros passaram a receber atendimento mais restrito, conforme critérios de vulnerabilidade e prioridades de proteção.
Estados Unidos acumulam dívida bilionária com a ONU
Além da diminuição de doações voluntárias, as contas das Nações Unidas são pressionadas pelo atraso nas contribuições obrigatórias dos países-membros. Nos últimos dois anos, os pagamentos pendentes dessas contribuições somaram US$ 1,6 bilhão.
Os Estados Unidos aparecem entre os principais devedores, apesar de responderem pela maior participação individual no financiamento do orçamento regular da organização.
Em setembro de 2026, a ONU informou que o país acumulava US$ 1,3 bilhão, equivalente a R$ 6,4 bilhões, em contribuições anuais não pagas. O montante não incluía as obrigações financeiras relacionadas às missões de paz.
Naquele mesmo mês, os norte-americanos efetuaram pagamentos de US$ 725 milhões referentes ao orçamento regular e outros US$ 102 milhões destinados às operações de paz.
Os repasses ocorrem em meio às críticas do presidente Donald Trump à estrutura das Nações Unidas. O governo norte-americano defende mudanças na administração da entidade, incluindo medidas de redução de custos e revisão de suas atividades.
Em declaração ao g1, um representante do Departamento de Estado dos Estados Unidos informou que novos pagamentos dependerão da comprovação de avanços nas reformas exigidas pelo país.
O governo também declarou que pretende impedir o direcionamento de recursos a organizações consideradas contrárias aos interesses norte-americanos ou à política externa de Trump.
Para Uriã Fancelli, mestre em Relações Internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, a estratégia representa uma forma de pressão política sobre a ONU.
Na avaliação do especialista, a administração Trump busca reduzir o tamanho e os gastos da organização, ao mesmo tempo em que procura enfraquecer sua atuação multilateral.
Fancelli também aponta que a manutenção de determinados pagamentos pode estar relacionada à tentativa de preservar o direito de voto dos Estados Unidos na Assembleia Geral.
Quanto cada país precisa contribuir?
O orçamento regular das Nações Unidas para 2026 foi fixado em US$ 3,45 bilhões, aproximadamente R$ 16 bilhões, uma redução de 7%. Diferentemente dos US$ 64,3 bilhões gastos em 2025 com todo o sistema das Nações Unidas, esse orçamento corresponde apenas às despesas do Secretariado, responsável pela administração da organização.
O financiamento é dividido entre os 193 países-membros, conforme critérios que consideram principalmente a capacidade econômica de cada nação. O cálculo leva em conta indicadores como renda nacional, renda por habitante e endividamento, além de ajustes específicos destinados aos países de menor renda.
A participação mínima estabelecida é de 0,001%, enquanto a contribuição máxima corresponde a 22%. Para os países classificados como menos desenvolvidos, existe um limite específico de 0,01%.
Os Estados Unidos ocupam a primeira posição, com aproximadamente 22% do orçamento regular. A China aparece em seguida, responsável por 20%. O governo chinês concluiu, em 1º de setembro, o pagamento dos US$ 641 milhões (R$ 3,1 bilhões) previstos para 2026.
O Brasil também quitou sua contribuição anual. O pagamento de US$ 44,8 milhões, equivalente a R$ 223 milhões, foi finalizado em 12 de março. A participação brasileira corresponde a 1,4% do orçamento.
Até 1º de outubro, 143 dos 193 países-membros haviam efetuado integralmente os pagamentos previstos para 2026. Outros 50 ainda apresentavam pendências, incluindo Estados Unidos, Bolívia, Chile, Equador, El Salvador, Irã, Síria e Venezuela.
Os valores não pagos representam quase 25% do total que deveria ser arrecadado pela organização por meio das contribuições obrigatórias neste ano.
Investimentos da ONU no Brasil cresceram 37%
Apesar da crise enfrentada pelo ACNUR, o volume de recursos destinados separadamente a projetos das Nações Unidas no Brasil apresentou crescimento entre 2024 e 2025.
No ano passado, foram investidos US$ 213 milhões, cerca de R$ 1 bilhão, em iniciativas desenvolvidas no território brasileiro, um aumento de 37%. Ao todo, a ONU executou 338 iniciativas no país durante 2025. As ações envolveram serviços de saúde, atendimento a pessoas em situação de rua, apoio à agricultura familiar e projetos de enfrentamento à pobreza.
Segundo os dados da organização, os programas beneficiaram milhões de pessoas em diferentes regiões do Brasil. Parte dos investimentos foi viabilizada por contribuições do governo federal e de parceiros internacionais, além da colaboração com o setor privado.
Em 2025, o governo brasileiro destinou US$ 106,1 milhões a iniciativas relacionadas ao desenvolvimento sustentável e à execução da Agenda 2030, conjunto de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) adotados pelos países-membros da ONU.
Alemanha, Luxemburgo e Reino Unido também contribuíram com projetos desenvolvidos no território brasileiro. A União Europeia destinou US$ 1,3 milhão a essas iniciativas.
Outro aporte veio do Canadá, que disponibilizou aproximadamente R$ 59 milhões ao Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia.
Parte dos recursos canadenses já foi aplicada em iniciativas de proteção a crianças e adolescentes da região amazônica, com ações nas áreas de educação e saúde.


