É HOJE!
Antes de Slash: Guns N' Roses 'encontra' a Guitarra Baiana em noite histórica
Banda chega a Salvador e movimenta cena roqueira local

Falta pouco para a Arena Fonte Nova vir abaixo. Quando o icônico riff de introdução de Sweet Child O' Mine rasgar os alto-falantes na noite desta quarta-feira, 15, o público entrará em transe antes mesmo de Axl Rose soltar a primeira nota. Nesse instante, quem assume os vocais é a guitarra de Slash. É ela quem vai ditar a emoção de uma geração inteira e se tornar a "voz" da multidão, a própria alma do hard rock.
Mas, muito antes da cartola de Slash e de sua Gibson Les Paul dominarem os estádios do mundo, a Bahia já havia descoberto o segredo para fazer um instrumento "falar" com o público. Enquanto o Guns N’ Roses se prepara para subir ao palco para um show histórico em Salvador - a cidade é a primeira do Nordeste a receber esta turnê da banda -, a capital baiana celebra não apenas a turnê internacional, mas também a sua própria revolução elétrica. O encontro das guitarras distorcidas de Los Angeles com a terra da não menos famosa Guitarra Baiana cria uma ponte invisível entre dois mundos que, no fundo, dividem a mesma rebeldia sonora.
A voz que dispensou cantores
Se Slash tem a habilidade de fazer a guitarra soletrar palavras, a Bahia já fazia isso décadas com a sua própria versão. Mas vale ressaltar: a guitarra baiana não é uma miniatura da guitarra elétrica tradicional americana, mas sim um instrumento de identidade única: um híbrido com proporções de cavaquinho e afinação de bandolim.
Armandinho Macêdo, que deu cinco cordas e projeção mundial à Guitarra Baiana, conta que o som inconfundível do instrumento nasceu de uma necessidade prática de seu pai, Osmar Macêdo, em parceria com a genialidade técnica de Dodô. O músico chegou a ser citado por vários internautas que pediam a sua presença no palco para uma palhinha da guitarra baiana a Slash.
"O instrumento nasce quando meu pai começa a aprender bandolim com 10 anos de idade. Minha avó tinha uns bandolins, ela tinha um conjunto de mulheres lá em Mutuípe. Aí meu pai começou a gostar e aprender. Com 12, 13 anos, ele queria levar o bandolim para a rua para tocar com os amigos. Mas não podia: 'Esse bandolim é italiano, bandolim de cuia, com madrepérolas. Não pode levar para a rua'. Aí ele foi numa loja e procurou. O mais baratinho que tinha era o cavaquinho. Ele viu que a escala era a mesma e que poderia afinar o cavaquinho como o bandolim. Aí nasce o que veio a ser a guitarra baiana", relembra.

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A virada elétrica aconteceu em 1942, após assistirem ao violonista Benedito Chaves com um violão elétrico. Dodô, que era eletrotécnico, começou a criar captadores para o cavaquinho de Osmar. No entanto, o som esbarrou na microfonia.
"Meu pai um dia encheu o cavaquinho dele de estopa. Abafou o cavaquinho todo, e o som era bom. Aí que veio a ideia de experimentar no maciço. Prenderam um parafuso de um lado e do outro na bancada, botaram a corda e o captador que Dodô fazia embaixo. O som era perfeito, e podia aumentar o volume todo que não dava microfonia. Distorcia, mas não dava microfonia”.
Inicialmente chamado de "pau elétrico" ou "cavaquinho elétrico", a nomenclatura que ganharia o mundo veio algumas décadas depois, batizada pelo próprio Armandinho.
"O cavaquinho que eu começo a fazer como guitarra é aí em 78, no quarto disco é que eu boto o nome mesmo, eu digo: 'essa guitarra é baiana'. Aí escrevi lá, guitarra baiana. O Moraes já tinha feito uma homenagem a mim, a Pepeu Gomes como guitarrista baiana e falado essa expressão. Eu gostei, aí falei: 'velho, é o nome do meu cavaquinho'. Eu fiquei preocupado, todo mundo chama de cavaquinho elétrico, eu vou botar o nome do meu cavaquinho de guitarra baiana. Escrevi lá, Guitarra Baiana Armandinho, Guitarra Baiana Osmar. Se reclamaram e não quiseram deixar cavaquinho elétrico, tá bom. Nunca mais chamaram de cavaquinho elétrico, guitarra baiana foi o nome que faltava para dar realmente origem ao instrumento", detalha.
Durante mais de 30 anos, não houve cantor em cima do trio elétrico. A guitarra baiana era a verdadeira atração. Armandinho lembra a lição que aprendeu cedo:
"A guitarra durante mais de 30 anos foi a voz do trio elétrico. Meu pai dizia para mim, quando eu tinha 10, 11 anos: 'Aprenda a letra das músicas para você procurar emitir, para fazer o povo cantar. A guitarra é a voz no trio elétrico'. Tinha músicas como 'Ei, você aí, me dá um dinheiro aí'. Tinha que induzir. A que ficou mais evidente nessa fala é a da água mineral. Porque não tem jeito, ela pergunta: 'Bebeu água?'. O povo responde: 'Não, está com sede!'. Todo mundo responde como se ela estivesse falando mesmo. Eu buscava essa comunicação da voz”.
Armandinho, que também carrega fortes influências do rock, garante que o instrumento soteropolitano, mesmo não sendo uma guitarra tradicional, tem "punch" para encarar qualquer clássico de arena. "Se eu fosse tocar Sweet Child O' Mine, iria de guitarra baiana e faria dentro do que eles fazem, porque eu também sou roqueiro. Adoro fazer esse riff do Slash. Quando eu faço isso no trio, tem uma galera roqueira que vibra logo", crava. A pedidos da internet e desafiado pelo portal A TARDE, o artista fez sua versão em guitarra baiana dos clássicos do Guns. Confira o resultado:
Slash baiano?
E essa mesma vibração que Armandinho arranca dos roqueiros no trio elétrico é o que alimenta a cena local. Manter o legado do Guns N' Roses pulsante na terra que muitas vezes só é lembrada pela axé music é um ato de resistência e paixão. Para Daniel Alcântara, músico, guitarrista e fundador da banda cover soteropolitana Guns, No Roses, vestir a cartola e empunhar a Les Paul na Bahia é um trabalho de dedicação extrema. O grupo possui cinco integrantes: Daniel (Slash, guitarra), Caio "Ludo" Passos (Axl, vocais), Leonardo Gomes (Izzy, guitarra), Lucas Barbosa (Matt Sorum, bateria) e André Miranda (Duff, baixo). Todos já estão de ingressos comprados para ver o show.
"Conheci o Guns através dos DVDs antigos de flashback dos anos 80 que meu pai colocava. Fiquei fã do Slash também através do jogo Guitar Hero [...] Eu tenho muito respeito pela obra deles, tento reproduzir fielmente, inclusive os improvisos, e a sua expressividade técnica como guitarrista. Dediquei muito tempo da minha vida para estudá-lo", conta.
Ao imaginar um encontro entre a Les Paul e o instrumento-símbolo de Salvador, Daniel vê uma sinergia absoluta. "Seria uma proposta incrível ver o Slash tocar a guitarra baiana! Iria ficar a cara da Bahia, até porque o Guns tem uma ligação rítmica muito forte, e o Slash tem muita influência da black music e do blues americano, raízes negras que combinam com a nossa história baiana”.
Para o músico e empresário, a vinda da turnê original injeta ânimo no cenário underground soteropolitano.
"Ver uma banda do porte do Guns N' Roses na Arena Fonte Nova me encheu de esperanças. Ao ter contato com músicos e tocar em outros estados, a pergunta que mais me fazem é: 'Tem rock na Bahia?'. Eu percebi ao longo do tempo que a Bahia é esquecida pelo cenário de rock nacional e mundial, e isso é algo injusto pois temos artistas incríveis aqui, desde as lendas Raul Seixas e Pitty, como os artistas independentes que estão na cena underground. Com o show do Guns em Salvador, nossa cidade vai ser vista e vai atrair mais olhos aos empresários do ramo cultural”.
Dos monstros de SP à Fonte Nova
O rock transborda as barreiras das bandas cover e atinge as produções autorais locais. Gabriel Gonçalves, vocalista e guitarrista da banda Gabriel & Os Decaídos, formada na pandemia, tem o Guns N' Roses como marco zero de sua independência musical.
"Meus pais são do rock n' roll e lá em casa sempre se escutou muita música. Então, desde sempre, fui exposto a Beatles, Stones, Zeppelin, Purple, Slade, Chuck Berry, Elvis, enfim, ao que interessa dos anos 60, 70 e 80. Mas foi por volta de 1990, que um primo 5 anos mais velho gravou uma fita para mim com uma seleção de músicas do Guns. Minha vida mudou ali. Eu fiquei obcecado. Meu quarto era todo de pôsteres do Guns, eu buscava incansavelmente revistas que tinham traduções das músicas [...] Lembro que eu colocava os discos para tocar e fazia uma farra com uma raquete velha de frescobol, que por muito tempo foi minha ‘guitarra’”, lembra.

Gabriel ressalta como o estilo visceral da banda influencia o trabalho de seu próprio grupo, formado por Cândido Martinez (guitarra solo), Cadinho Almeida (baixo) e Luigi Ramundo (bateria). Com uma sonoridade ancorada no rock clássico e influências que vão de Rolling Stones e Tom Petty a ícones locais como Cascadura, Gabriel & Os Decaídos combina esse peso musical com letras que abordam temas existenciais e do cotidiano, sempre temperadas com grandes doses de sarcasmo.
"O Guns é uma influência grande em todos da banda, principalmente as coisas de Izzy Stradlin, incluindo sua carreira solo, que é fenomenal. Mas a influência vai além da música em si. Ela aparece em figurinos, na força das apresentações ao vivo, e em pequenas coisas que, no final, acabam fazendo uma grande diferença”.
Tendo assistido ao show no Monsters of Rock em São Paulo no último sábado 4 de abril, Gabriel eleva as expectativas para a apresentação na Bahia.
“O show de SP foi sensacional! Duas canções em especial me surpreenderam, por serem mais obscuras: Dead Horse e Bad Apples, amo as duas. Espero que elas sejam mantidas. No mais, eu gosto muito de ineditismo, shows que deixam algum espaço para novidades, então se eles quiserem colocar alguma canção que ainda não apareceu nesta tour, eu fico feliz. As canções novas são bem interessantes também, com destaque para Atlas. No mais, é curtir o catálogo de hits (que não é pouco)”.
Se a dica de Daniel Alcântara é para que Slash e Axl toquem "os hits no volume máximo", Gabriel Gonçalves propõe um "dia perfeito" soteropolitano para os astros: "Pegar uma praia em Ipitanga, um almoço com pratos baianos e frutos do mar, um pulinho na Discodelia [boate famosa na capital] para um garimpo de vinis punk para o Duff e, se fosse possível, assistir ao Bahêa brocar na Fonte", brinca.
Expresso Nightrain
Salvador marca uma etapa da nova turnê Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things em solo brasileiro. A caravana do Guns N' Roses já incendiou os palcos de Porto Alegre, São Paulo, São José do Rio Preto, Rio de Janeiro e Vitória.
Em Salvador, antes da atração principal, marcada para às 20h, a banda Raimundos aquece o público a partir das 18h30, com um repertório de rock nacional. Os portões abrem às 16h e os últimos ingressos ainda estão disponíveis na plataforma Bilheteria Digital, com opções nos setores lounge premium e experience, com valores que variam entre R$ 1.000 e R$ 2.695, além das taxas.
Após o show, Axl, Slash, Duff e companhia embalam seus cases para os três últimos compromissos no país: Fortaleza (18/04), São Luís (21/04) e o encerramento em Belém (24/04).
No fim das contas, seja solando em uma guitarra americana ou chorando no instrumento inventado em meio ao Carnaval de Salvador, o recado de Salvador hoje é alto e claro: bem-vindos à selva.
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