‘The Romantic’, novo álbum do cantor Bruno Mars, foi lançado no final de fevereiro e horas depois virou assunto entre os brasileiros, principalmente baianos, devido a uma canção: ‘Risk It All’. Os internautas apontaram semelhanças com a música ‘Imprevistos’, composta por Aparecida de Fátima Leão Moraes e lançada em 2015, no álbum ‘Desculpe Aí’, de Pablo do Arrocha.
Diversas pessoas passaram a afirmar que Bruno Mars, dono de hits como 'Talking to the Moon' e 'Locked Out of Heaven' teria plagiado Pablo. A semelhança entre as canções está, para o público, na melodia, especialmente no refrão.
‘Risk It All’, de Bruno Mars, é uma composição do artista em parceria com Dernst Emile II, James Fauntleroy, e o parceiro de longa data Philip Lawrence.
Ouça as músicas
Plagiou?
O Portal A TARDE ouviu o músico Henrique Badermann, diretor da Badermann Academia de Música. Segundo o especialista, a comparação entre 'Risk It All' e 'Imprevistos' revela que há, de fato, uma semelhança perceptível na melodia do refrão, o que explica a associação feita pelo público.
“No entanto, do ponto de vista técnico-musical, essa semelhança não é suficiente para caracterizar plágio”, afirmou.
Badermann pontuou que, para que se configure plágio melódico, não se analisa apenas a altura das notas — registro vocal ou região melódica —, mas também o padrão rítmico, os intervalos entre as notas, o fraseado e a função estrutural da melodia dentro da música — por exemplo, se ocorre no refrão ou no verso.
“Uma sequência de notas semelhante, quando organizada com um ritmo diferente, já configura uma melodia distinta. Isso reduz significativamente a possibilidade de caracterização de cópia. Do ponto de vista estatístico, considerando um refrão curto com cerca de 16 notas (ou sílabas musicais) e apenas as sete notas naturais da escala (dó, ré, mi, fá, sol, lá e si), a probabilidade de duas melodias serem exatamente iguais é extremamente baixa, da ordem de 1 em dezenas de trilhões, mesmo antes de se considerar o fator rítmico”, explicou.
Quando se inclui o ritmo, essa probabilidade se torna ainda menor. Assim, a análise musical sugere que há uma proximidade estética e perceptiva, mas não identidade melódica suficiente para caracterizar plágio deliberado
Não é sample
Henrique Badermann também esclareceu que, nesse caso, não é possível dizer que se trata de um sample.
“É possível discutir uma similaridade melódica, mas não se trata de sample. Samplear significa retirar diretamente um trecho do áudio original de uma música (voz, instrumentos ou qualquer fragmento sonoro) e reutilizá-lo em outra gravação. Nesse caso não houve uso do áudio da gravação original. Portanto, não se trata de sample, mas, no máximo, de uma discussão sobre semelhança melódica”, elucidou.
Análise e comparação das músicas
O músico detalhou à reportagem que a análise das canções envolve tanto aspectos musicais quanto perceptivos.
São considerados principalmente:
- Melodia: sequência de alturas, intervalos e desenho melódico
- Ritmo melódico: duração das notas e sua posição nos tempos fortes
- Fraseado: forma como as frases começam e terminam
- Estrutura: se a semelhança ocorre em parte central da música, como o refrão
- Harmonia: progressão de acordes que sustenta a melodia


Ambas as imagens acima, elaboradas por Henrique Badermann, evidenciam similaridades. “Com uma escrita simplificada do ritmo para melhor entendimento do leitor e alterando a tonalidade da composição de Bruno Mars para a mesma tonalidade da composição de Pablo (o que aumentaria muito a probabilidade de plágio), as notas ainda permanecem diferentes”, ressaltou.
É interessante observar também que a melodia de ambas inicia fora do tempo 1 do compasso (número 1 da imagem), possui notas longas no tempo forte do compasso seguinte (número 2 da imagem) e possuí um movimento descendente (número 3 da imagem) com conclusão ascendente (número 4 da imagem).
Existem algumas outras similaridades, mas no geral, as notas em si são bem diferentes, comprovando a não existência do plágio.
Proximidade harmônica
O especialista detalhou ainda que, além da semelhança melódica percebida no refrão, há também uma proximidade harmônica, ou seja, progressões de acordes semelhantes. “Mesmo estando em tonalidades diferentes, se uma das músicas for transposta para o tom da outra (como no trecho acima), é possível perceber que em alguns momentos os acordes utilizados foram iguais, inclusive no início do refrão, o que é muito comum na música”, disse.
Isso contribui para a sensação de semelhança auditiva, embora progressões desse tipo sejam amplamente utilizadas na música popular e não sejam exclusivas de um único compositor.
Fui plagiado: o que fazer?
O professor de Direito Civil, Direito Autoral e Propriedade Industrial da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Rodrigo Moraes, que tem um livro com diversos casos sobre plágio, explicou ao Portal A TARDE o que um artista vítima de plágio precisa fazer.
“O compositor da música, caso ele se sinta prejudicado, precisa contratar um maestro, um perito que faça um laudo e entrar com a ação judicial. Isso se ele achar que de fato é plágio. [Importante ressaltar que] existem muitas semelhanças com essas músicas pop, muitos clichês melódicos e não necessariamente uma coisa que parece, é plágio. Existe uma certa subjetividade nisso”, disse o advogado.
Rodrigo Moraes ponderou ainda que, às vezes, uma melodia fica no intelecto da pessoa, que é o que os psicólogos chamam de criptomnésia — fenômeno psicológico, caracterizado por um distúrbio no processamento de memórias.
Não necessariamente houve uma má fé. Existe uma discussão jurídica sobre essa questão. Para cravar se o plágio precisa ter o dolo ou não? Eu preciso ter intenção? É um assunto muito amplo.
No caso de Bruno Mars, caso se confirme um plágio, a responsabilidade, de acordo com o advogado, seria dele, da editora e da gravadora dele. “Mas só contra o Bruno, caso ela tenha assinado como autor, seria o suficiente. O julgamento aconteceria aqui, porque a música foi lançada no Brasil. É possível entrar com um processo aqui no Brasil”.
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Plágio e sample: o que é e diferenças
O advogado enfatizou que existem diferenças entre plágio e samplear. O profissional complementou a explicação do música ouvido pela reportagem: “Samplear é utilizar algo sem a autorização. Todo mundo vai saber, por exemplo, se eu pegar um trecho de Dorival Caymmi para samplear um refrão. Isso não necessariamente é plágio, porque todo mundo está sabendo que aquilo ali é a voz do Dorival. Isso é um uso desautorizado de fonograma, é uma outra coisa”.
O professor da Ufba destacou também que a palavra “plágio” não está na lei de direitos autorais. “Nem a lei diz o que é plágio. O conceito de plágio vem de muitos séculos atrás e passou a ser usada nesse contexto devido a uma metáfora criada por um poeta chamado Marcial, que aplicou, pela primeira vez, a palavra “plágio” na arte – até então, o termo só havia sido usado para descrever roubo de escravos”, informou.
Hoje, o plágio é um ilícito civil e pode gerar danos morais, patrimoniais e, inclusive, uma ação criminal. Agora, o que é plágio de uma música, a lei não diz.
Em situações que são colocadas em pauta a possibilidade da existência de plágio, “a importância da análise de cada caso concreto é que vai decidir se houve e, portanto, há de fato, uma subjetividade no caso concreto”.
Rodrigo Moraes disse ainda que vai depender do grau da originalidade da obra: “Porque tem muitas músicas que se parecem. A lei também não diz o tamanho do plágio. Pode ser um trecho só, não precisa ser a música inteira. E o plagiário esconde a autoria, diferente de samplear. Porque o plagiário atribui a si próprio a autoria de uma obra de terceiro. Esse é o conceito de plágio. Há uma questão ética por trás disso”.
Por fim, o profissional frisou que existe também uma discussão jurídica sobre a licitude ou não do plágio, porque o direito de citação existe e é muito antigo no direito autoral.
“O direito de citação tem a finalidade de crítica, finalidade educacional. Quando eu faço um sample de um refrão que é o auge de uma música e coloco esse refrão na minha música, aí eu tenho que pedir uma autorização. Eu defendo isso”, concluiu.
Resumo do Caso de Suposto Plágio de Bruno Mars
- Lançamento do álbum 'The Romantic' de Bruno Mars gerou polêmica no Brasil por conta da canção 'Risk It All'.
- Internautas notaram semelhança entre 'Risk It All' e a música 'Imprevistos' do artista Pablo do Arrocha.
- Especialista Henrique Badermann afirmou que a semelhança não configura plágio, pois diferenças rítmicas são significativas.
- Badermann esclareceu que samplear é diferente de similaridade melódica; não houve uso direto do áudio de 'Imprevistos'.
- Rodrigo Moraes, professor de direito, alertou que vítimas de plágio devem buscar assessoria legal e que o conceito de plágio não está claramente definido na legislação.
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