PUNKS DA PERIFERIA
"Cena de brancos e abastados": Velotroz volta para reafirmar rock periférico
Banda se reúne após 20 anos para show em Salvador

Por Maiquele Romero*

Há bandas que voltam para pagar contas. Outras para celebrar datas. E algumas retornam porque a vontade de criar juntos insiste em permanecer. O show que a Velotroz apresenta nesta sexta-feira, 16, no pátio da Igreja de Santo Antônio Além do Carmo, pertence claramente aos dois últimos grupos.
Não se trata apenas de reencontrar um repertório, mas de reabrir uma época: um modo de fazer música em Salvador nos anos 2000, quando um grupo de jovens negros, vindos da periferia, decidiu ocupar uma cena que não parecia pensada para eles.
Mais do que um show, o reencontro marca uma oportunidade rara de rememorar um momento da história recente da música baiana. Para quem sente saudade, o tempo de matá-la é agora. Formada em 2006, a Velotroz surgiu como uma banda de “punks da periferia”, como o próprio vocalista Giovani Cidreira definiria anos depois, evocando a canção de Gilberto Gil. Jovens “anti-heróis americanos”, atravessados por conflitos, afetos e referências múltiplas, que encontraram na amizade e na curiosidade musical uma forma de se expressar, e de existir coletivamente.
Formada em 2006 por Giovani Cidreira, Caio Araújo (Rei Lacoste), Maicon Charles, Danilo Souza, Cássio Reis e Filipe Castro, a banda passou por diferentes formações. Nesta apresentação comemorativa, a formação que sobe ao palco conta com Giovani na voz e violão, Caio no baixo, Filipe na bateria e Danilo na guitarra, além de show de abertura de Tangolo Mangos e convidados especiais ao longo do reencontro, reafirmando o espírito de coletivo que sempre marcou a Velotroz.
Amizade: início, meio e fim

A ideia de voltar a tocar juntos não nasceu de um impulso repentino. Ela foi sendo alimentada ao longo dos anos, especialmente durante a pandemia. “É um encontro de amigos. A amizade sempre prevaleceu em tudo”, resume Danilo Souza.
Filipe Castro reforça essa continuidade ao lembrar que, mesmo com cada integrante vivendo em uma cidade diferente e seguindo caminhos próprios, o elo nunca se rompeu. Para ele, a amizade é o fio que costura tudo o que a banda fez no passado e continua fazendo agora.
O retorno só se concretizou quando a vontade ganhou forma, data, espaço, logística. Nesse processo, a figura de Rosa Abreu foi decisiva. Produtora cultural, Rosa acompanhou a Velotroz ainda nos anos 2000, primeiro como fã e, depois, como amiga próxima.. Foi ela quem provocou o reencontro, insistiu na ideia e ajudou a transformá-la em realidade. Rosa fala do retorno a partir de um lugar profundamente afetivo. A Velotroz, segundo ela, foi a trilha sonora de um período muito feliz de sua vida. Ao longo dos anos, percebeu que essa memória não era individual: havia uma comunidade espalhada por Salvador, pela Bahia e até fora do país que carregava a banda como referência. O show nasce justamente desse desejo de reencontro coletivo.
“Muito das coisas que eu ouço hoje em dia e que eu que eu trouxe de referência musical na minha vida, vieram de referências que foram construídas junto com o que a galera da Velotroz ouvia e o que o que tava sendo feito ali, e eu percebia que era um sentimento que não era só meu” explica Rosa.
O show também é atravessado por uma ausência incontornável: Maicon Charles, baterista da banda, falecido em 2015. A homenagem a ele é um dos eixos centrais da apresentação e atravessa tanto o repertório quanto o gesto de voltar ao palco.
Filipe, que antes estava na percussão, hoje assume a bateria, que era de Maicon e fala da responsabilidade de ocupar esse lugar. “Eu estou sendo sub de Maicon Charles. Aí você há de convir que o negócio o empena um pouco. Não dá para repintar a Monalisa, pô. Xerox mesmo, não tem como. Era um dos maiores músicos com que eu já toquei na minha vida até hoje. Maicon era um absurdo tocando, era um monstro”, comenta.
A memória de Maicon, inclusive, atravessa a banda em todos os momentos como um grande amigo, músico, presença constante e referência impossível de alcançar, mas essencial de honrar.
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Sem pedir licença
Nos anos 2000, entrar na cena de rock de Salvador não era simples, e menos ainda para quem vinha de bairros periféricos. “Um grupo de amigos, de adolescentes, vindo basicamente de periferias de Salvador”, lembra Caio Araújo. “Entrando numa cena que era basicamente feita por homens, garotos mais abastados, brancos”.
A Velotroz surgiu nesse atrito. Sem dinheiro, carregando equipamentos em ônibus, ensaiando onde dava, mas com uma inquietação e talento que rompiam fronteiras.
O grupo ouvia de tudo: rock, pagodão, samba, música marginal dos anos 1970, MPB, indie dos anos 2000. Tudo cabia na mesma conversa e tudo influenciou a musicalidade do grupo. “A gente se comportava mesmo como pesquisadores e sempre trazia para o coletivo”, relembra Caio.
Essa postura de trazer diferentes gêneros musicais para a estética sonora do grupo também era política.
“Às vezes a gente começava o show falando ‘agora é pagode, né?’ Porque ainda existia um ranço naquela época, né? Das bandas de rock, que você não podia ouvir outra coisa, não podia ouvir pagode, não podia falar que gostava de samba”, lembra Caio.
O essencial ficou

Duas décadas depois, o mundo é outro. “Mudou absolutamente tudo”, diz Filipe. Mudaram as formas de consumir música, de produzir, de circular. Mudaram as vidas individuais. “Eu era apenas um menino do ensino médio, hoje em dia é outra coisa, agora sou doutor”.
Ainda assim, algo permanece intacto. “Não muda a vontade de continuar fazendo música, a curiosidade”, afirma.
Caio observa que a cena atual é estruturalmente mais diversa, com muito mais possibilidades, muito mais pessoas LGBTQIAPN+ e mulheres na cena.
Todos seguiram com a música de alguma forma. Giovani se lançou carreira solo, Filipe aprofundou pesquisas na música instrumental e afrobeat, Danilo manteve-se criando, Caio construiu projetos próprios, como o Rei Lacoste, voltado ao trap, reggaeton e música urbana. Tudo isso é fruto do que começou com a Velotroz: “Hoje a gente continua com o ouvido aberto, com a cabeça aberta e entendendo todo o tipo de música que é produzido”, aponta Caio.
A hora é agora
No palco do Santo Antônio Além do Carmo, a Velotroz não se propõe a reviver o passado tal como ele foi, mas a ativá-lo no presente. Para Giovani, o show funciona como uma celebração da música e da permanência do gesto de criar, especialmente vindo de uma cidade como Salvador e de territórios historicamente marginalizados.
Para quem viveu aquela cena, o show é um reencontro. Para quem chega agora, é acesso a uma história que ajudou a moldar a música independente da cidade. Trata-se de uma oportunidade única não apenas de ouvir a banda novamente, mas de rememorar um tempo, um espírito e uma forma de estar juntos.
Como diz Giovani, se a saudade da Velotroz chama, essa é a hora de “relembrar, comemorar para existir e continuar fazendo as coisas”.
Velotroz 20 anos / Abertura: Tangalomangos / Sexta-feira (16), 19h / Pátio da Igreja Santo Antonio Além do Carmo / R$ 80 e R$ 40 (segundo lote) / Vendas: Sympla
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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