ANÁLISE E ENTREVISTA EXCLUSIVA
Equilibrivm II: Anitta corrige repetição de conceito e chega ao ápice
Filme é o marco principal da fase em que a cantora escancara a sua conexão com a ancestralidade


Anitta chegou a um patamar em que o título de maior artista pop brasileira não tem como mais ser contestado, e a era ‘Equilibrivm’ só comprova isso. No novo projeto, que inclui dois álbuns, video-clipes, um curta-metragem e uma turnê que estreia neste sábado, 1º, em Porto Alegre, a artista alcançou o que pode ser considerado o ápice da sua carreira.
Dentro dessa cartilha, o que mais se destaca é o filme ‘Equilibrivm II’, em que a cantora fez questão de investir pesado como nunca fez antes — não apenas financeiramente, mas artisticamente também.
A produção é o marco principal da fase em que Anitta escancara para o mundo a sua conexão com a ancestralidade, dando espaço também para o autoconhecimento, aprendizado e para a busca pelo equilíbrio ideal entre fama, sucesso e o que vem de tudo isso — seja bom ou ruim.
Enquanto o disco 2 torna o conceito um pouco repetitivo em relação ao primeiro, o curta-metragem corrige isso e consegue passar a mensagem sem faltas nem sobras. Está tudo lá, e isso se deve ao trabalho impecável da construção da narrativa e das transições de blocos que fluem perfeitamente bem.
O trabalho de direção de Nídia Aranha, Felipe Sassi e Boy Princess deve ser elogiado. O trio conseguiu colocar no filme uma união de elementos que culminam em uma unidade narrativa que pode ser difícil de ser alcançada quando tem mais de uma pessoa, com visões diferentes, dirigindo um projeto tão grandioso. O mesmo vale para a cinematografia de Maurício Padilha e Caio Humb.
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Troca criativa
Ao portal A TARDE, Felipe Britto, sócio-fundador da Ginga Pictures, responsável pela produção e direção de todos os visuais de Equilibrivm I e II, deu detalhes da troca criativa com Anitta.
Segundo ele, tudo começa por áudios. A cantora envia uma quantidade grande de mensagens de voz contando como está se sentindo, trazendo memórias afetivas e referências espirituais.
“Nessa fase inicial, meu trabalho é escutar e organizar o que está por trás das palavras, muito antes de pensar em locação ou estética. A partir daí, o processo se torna colaborativo com a direção: a gente conversa sobre que paisagem, que luz, que ritmo de corte traduzem aquilo que ela está sentindo. E, mesmo depois que a gravação começa, essa troca continua”, contou.

Grandiosidade quase palpável
Outros pontos que se destacam são os figurinos e o design de produção. Para cada bloco, Anitta e a equipe apostaram em vestimentas e adereços diferentes que dialogam com a música, com o cenário e com o conceito. Os elementos conversam entre si e essa conexão é essencial para o resultado final.
O cuidado pode ser percebido também na mescla interessante e assertiva de tipos de animação – incluindo stop motion —, teatro de fantoche, locações e filmagens em estúdio.
Ancestralidade e linguagem pop
Felipe Britto explicou que durante todo o processo o principal cuidado foi nunca deixar que o sagrado virasse cenário. Ele pontuou que a ideia sempre foi de exaltação, não de espetacularização.
“Trabalhamos com religiosos e pesquisadores para validar cada referência, e boa parte do que parece ‘estética’ no clipe é, na verdade, prática real: os movimentos vêm de pesquisa sobre gestos de incorporação, as máscaras são feitas à mão por quem vive aquela tradição, as peças de barro são queimadas do jeito que os próprios artistas populares fazem há anos”, explicou.
De acordo com Felipe, a linguagem pop entra na forma de contar, no ritmo, no corte, na fotografia, “mas o conteúdo espiritual não é adaptado para caber num clipe. Isso é o que garante que a autenticidade não se perca”.
Além disso, o sócio-fundador revelou os pontos inegociáveis de Anitta. “A base de tudo foi de realmente não tratar nenhum elemento espiritual como fantasia ou fundo estético”, disse.
Isso valia para o candomblé, para as culturas indígenas e para qualquer religiosidade que aparecesse. E outro ponto que posso destacar é a brasilidade real: ela não queria mostrar o Brasil de cartão-postal, e sim o Brasil interiorano, afro, popular. Esses aspectos guiaram literalmente todas as decisões visuais do projeto, da escolha de locação ao figurino. Felipe Britto - sócio-fundador da Ginga Pictures

Referências
Felipe deu detalhes das principais referências utilizadas por Anitta e produção na concepção dos visuais:
“Trabalhamos a partir de eixos que atravessam os dois volumes, mas cada ato também tem camadas próprias. No primeiro, partimos do que chamo de Brasil profundo, onde temos o candomblé, realismo fantástico e o imaginário do Cinema Novo somados à arte popular de nomes”.
Já o curta abre com Anitta interpretando a Carmen Miranda, em uma referência direta ao clássico 'Entre a Loura e a Morena', de 1943. Depois disso, apontou Felipe Britto, a ideia foi passear por camadas mais amplas da cultura brasileira do batuque ao samba, do forró à MPB.
E sempre puxadas pelo tema do karma como aprendizado, que é o fio condutor emocional dessa segunda parte. São referências que conversam entre si: se o primeiro volume era mais voltado à ancestralidade e à espiritualidade, o segundo expande pra uma celebração mais ampla da brasilidade, com uma pegada mais poética e menos ritualística. Felipe Britto - sócio-fundador da Ginga Pictures
À reportagem, Mel Chapavel, que também é sócia-fundadora da Ginga Pictures abordou o que mais difere esse projeto de outros da artista:
O Equilibrivm é outro tipo de compromisso: não é uma peça, é uma era inteira, com uma equipe dedicada ao longo de meses, sustentando uma linha estética e narrativa do primeiro ao último clipe. Como produtora, isso muda a forma de estruturar o projeto desde o início porque você não está fechando uma entrega; você está construindo um universo que precisa se sustentar por vários lançamentos seguidos.

Isso resulta em uma obra de pouco mais de 30 minutos que flui em uma linha crescente sem ondulações. O audiovisual de Equilibrivm II eleva o disco em todos os sentidos: é rico, poético, dançante, inspirador e bem construído. Um projeto que com certeza vai se tornar objeto de estudo e deve virar referência para muita gente.
Em um momento em que a arte dos videoclipes estão cada vez mais em baixa, o que Anitta fez é louvável e merece esse reconhecimento.


