MÚSICA
Sax baiano que conquistou a Europa volta a Salvador para Jam no MAM
Talento baiano com carreira europeia agita evento

Neste sábado, 28, o pôr do sol na Praça Maestro Letieres Leite, no Solar do Unhão, terá como trilha o saxofone de Joandèr Cruz. Radicado em Viena, na Áustria, o músico baiano retorna a Salvador após cinco anos sem se apresentar na cidade para abrir mais uma edição da JAM no MAM, projeto que se consolidou como um dos principais encontros de música instrumental da capital.
A apresentação marca um reencontro pessoal e artístico. Nascido em Itapetinga, no sudoeste da Bahia, Joandèr afirma que foi em Salvador que consolidou sua formação.
“Mesmo eu não tendo nascido aqui, foi a cidade que me deu régua e compasso para caminhar na minha carreira musical. Foi em Salvador que me aprofundei no universo da improvisação e do jazz”, diz.
Hoje vivendo na Europa, onde atua no circuito de jazz contemporâneo, ele vê o retorno como um fechamento de ciclo. “É uma volta para casa. Faz cinco anos que eu não me apresentava aqui. Tem um gostinho de reunião familiar. Vou encontrar músicos, amigos da música, amigos da capoeira. É uma celebração”, conta.
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‘Nativo’
Ele conta que o repertório da abertura será centrado no EP Nativo, lançado em 2023. O trabalho sintetiza influências do interior baiano, da cena de Salvador e da experiência europeia.
“É um EP que busca ser muito honesto com a minha essência. Ele traz elementos da música afrodiaspórica, mas também influência eletrônica, o que me permitiu apresentar minha pesquisa afrofuturista de maneira mais direta”, explica.
Embora parte do público identifique na sonoridade um traço internacional, o saxofonista reforça a base brasileira do projeto.
“Algumas pessoas dizem que o EP soa ‘gringo’, mas, na minha concepção, ele é muito brasileiro. Morar na Bahia fornece inspiração constante. Você sai na rua e há música acontecendo o tempo todo”, afirma.
No disco, aparecem toadas (das músicas de vaquejadas) do interior, claves inspiradas na percussão de matriz africana e ritmos como ijexá e opanijé, combinados a estruturas jazzísticas.
“Quando falo em toada, me refiro às toadas do interior. É assim que eu escuto e sinto. No EP, isso aparece junto com a influência jazzística”, complementa.
A gravação reuniu músicos de diferentes origens, brasileiros e europeus, refletindo o percurso do artista.
“Sou alguém que nasceu no interior da Bahia, viveu em Salvador tempo suficiente para ganhar ferramentas e depois se especializou em jazz no exterior. O Nativo é uma forma de evidenciar essa essência. Eu não me transformo quando estou performando; componho e toco do jeito que sou”, afirma Joandèr.
No palco da JAM, Joandèr será acompanhado por Fagner Wesley (piano), Victor Brasil (bateria) e Nino Bezerra (baixo), em formação preparada especialmente para a abertura.
JAM: ponto de encontro
A relação do saxofonista com a JAM no MAM não é recente. Ele já integrou a banda base em outras ocasiões e frequentou o projeto durante sua formação na Universidade Federal da Bahia. “A JAM foi o primeiro lugar onde vi o jazz acontecer ao vivo, como nos DVDs que meu pai me mostrava. Comecei como admirador, depois fui convidado, fiz parte da banda base e agora retorno como convidado especial”.
Para o diretor artístico do projeto, Ivan Huol, o convite surgiu de forma espontânea. “Ele me ligou para falar de outra proposta e comentou que estaria em Salvador neste sábado. Eu disse na hora: ‘Então por que você não faz a abertura?’. Pedi que montasse uma banda própria, para deixar claro que seria uma participação especial, com repertório ensaiado”.
Huol destaca que a consolidação de Joandèr na Europa não é trivial. “Eu morei um ano fora e sei o desafio que é se firmar como artista relevante. Ele conseguiu. Não segue o clichê do músico brasileiro que vai tocar samba. Construiu uma identidade própria, com uma linha universal, alinhada ao que hoje se espera de um grande saxofonista”.
Após a primeira hora de apresentação, a banda Geleia Solar assume o palco para a tradicional jam session, abrindo espaço para músicos visitantes. Segundo Huol, a proposta mantém o espírito original do formato. “Nossa banda quase não ensaia. A jam session é isso: músicos experientes recebem outros músicos para tocar”.
Ele ressalta que, embora seja um espaço aberto, a JAM não funciona como um palco amador. “É democrático, mas não é um karaokê. A música instrumental improvisada exige estudo. Recebemos iniciantes e profissionais, mas dentro de um nível de execução”.
O público, segundo o diretor, também contribui para o padrão do evento.
“A nossa plateia é muito qualificada. Ela não aplaude por obrigação. Quando gosta, demonstra; quando não gosta tanto, reage menos. Salvador tem um público treinado para música instrumental. Isso coloca qualquer artista à prova”, conclui Ivan.
JAM no MAM / Sábado (28), das 18h às 21h / Acesso ao local a partir das 17h / Praça Maestro Letieres Leite, no MAM Bahia (Solar do Unhão - Av. Lafayete Coutinho s/n) / Ingressos entre R$ 5 e R$ 40 / Vendas na plataforma Ingresse / Classificação indicativa: Livre
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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