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MÚSICA

Três décadas do Roots: o marco do Sepultura que redefiniu o metal moderno

Trinta anos depois, o impacto de Roots ainda ecoa na música pesada, reafirmando seu papel como divisor de águas no metal mundial

Luan Julião

Por Luan Julião

20/02/2026 - 18:47 h

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Trinta anos depois, o impacto de Roots ainda ecoa na música pesada
Trinta anos depois, o impacto de Roots ainda ecoa na música pesada -

Em 20 de fevereiro de 1996, o Sepultura lançava seu sexto álbum de estúdio. O que poderia ser apenas mais um capítulo na trajetória ascendente da banda mineira se transformou em um marco definitivo para o heavy metal mundial.

Roots não apenas ampliou os horizontes sonoros do grupo, ele redefiniu os limites do próprio gênero.

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Trinta anos depois, o disco segue como um dos trabalhos mais influentes da música pesada, responsável por consolidar uma identidade brasileira no metal global e por ajudar a pavimentar o caminho para o que seria conhecido como nu metal.

Do thrash ao experimental: a evolução até Roots

Formado em 1984, em Belo Horizonte, o Sepultura saiu do underground extremo com Morbid Visions (1986) e Schizophrenia (1987), consolidou-se internacionalmente com Beneath The Remains (1989) e alcançou o primeiro grande patamar com Arise (1991), quando passou a dividir espaço com gigantes do thrash metal mundial.

Sepultura em sua formação clássica
Sepultura em sua formação clássica | Foto: Reprodução / Redes Sociais

Com Chaos A.D. (1993), a banda começou a mudar. O andamento ficou mais cadenciado, o groove passou a ter protagonismo e as letras ganharam contornos ainda mais políticos. “Kaiowas”, instrumental acústica inspirada em povos indígenas brasileiros, foi o primeiro grande sinal de que o grupo buscava algo além do thrash tradicional.

Roots seria o passo seguinte e definitivo.

A banda começou a desacelerar o andamento, investir em grooves mais densos e introduzir percussões e referências latino-americanas, como na emblemática “Kaiowas”.

A transição estava em curso.

Se os discos anteriores tinham como base a velocidade e a técnica, Roots privilegiou peso, cadência e atmosfera. As guitarras de Max Cavalera e Andreas Kisser ganharam afinação ainda mais baixa, criando uma muralha sonora que soava suja, orgânica e pulsante.

A bateria deixou de apostar apenas em viradas rápidas para investir em levadas quase tribais. O baixo ganhou mais presença e a produção priorizou impacto físico.

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Essa estética, aliada ao groove acentuado, colocava o Sepultura no centro de uma transformação que viria a explodir nos anos seguintes.

A parceria com Ross Robinson e o nascimento de uma nova sonoridade

A escolha do produtor Ross Robinson foi decisiva. Na época ainda em ascensão, ele já havia trabalhado com o Korn e se tornaria um dos nomes centrais da explosão do nu metal.

Robinson incentivou performances mais cruas e emocionais em estúdio. O resultado foi um disco visceral, com guitarras ainda mais graves, bateria pulsante e vocais intensos de Max Cavalera.

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A produção ajudou a moldar uma estética que influenciaria bandas como Slipknot, Deftones e Limp Bizkit. O metal deixava de ser apenas velocidade e técnica para incorporar groove, peso rítmico e elementos urbanos.

Embora o nu metal não tenha nascido com Roots, o disco foi determinante para dar escala global à estética que dominaria o fim da década.

Brasil como protagonista: berimbau, percussão e identidade

Se o peso era internacional, a alma era brasileira.

Roots incorporou berimbau, tambores, ritmos afro-brasileiros e participações que reforçaram essa identidade. A presença de Carlinhos Brown em “Ratamahatta” é um dos exemplos mais emblemáticos da fusão entre metal e música brasileira.

O disco também contou com participações de Mike Patton e Jonathan Davis, ampliando o diálogo entre diferentes vertentes da música pesada.

O resultado foi um trabalho que provou ser possível fundir metal extremo com ritmos afro-brasileiros sem perder agressividade ao contrário, potencializando-a.

Até os anos 1990, o metal internacional raramente dialogava com suas próprias raízes culturais fora do eixo anglo-americano. O Sepultura fez o oposto: trouxe o Brasil para o centro do palco.

O resultado foi uma obra que provou que música pesada poderia dialogar com ancestralidade e cultura popular brasileira sem perder agressividade.

A imersão na aldeia Xavante: mais que gravação, um intercâmbio cultural

Talvez o capítulo mais emblemático da história de Roots tenha sido a viagem à aldeia Pimentel Barbosa, no Mato Grosso, onde a banda gravou com integrantes do povo Xavante a faixa “Itsári”.

A decisão não foi simples. Houve articulação prévia com lideranças indígenas e mediação cultural. A comunidade aceitou receber a banda sob condições claras de respeito às tradições locais.

Durante dias, os músicos participaram de rituais, tiveram seus corpos pintados, jogaram futebol com os moradores, compartilharam refeições e se adaptaram às regras da aldeia. A gravação foi feita com estrutura limitada, utilizando equipamento portátil e energia improvisada.

O impacto foi duplo: para o Sepultura, representou aprofundamento conceitual; para os xavantes, significou visibilidade internacional e reconhecimento específico como um povo com identidade própria.

Letras, política e contexto social

O álbum também manteve a tradição crítica do Sepultura. Faixas como “Dictatorshit” abordam o golpe militar de 1964, enquanto “Ambush” relembra o assassinato do ativista ambiental Chico Mendes. Já “Ratamahatta” faz referência à realidade urbana brasileira, incluindo as favelas.

O metal do Sepultura sempre dialogou com questões sociais e o Roots elevou esse discurso ao combinar crítica política com identidade cultural.

Com mais de dois milhões de cópias vendidas, Roots tornou-se o álbum mais bem-sucedido da história da banda. O Sepultura passou a figurar em grandes festivais, premiações internacionais e turnês globais de grande porte.

Artistas como Corey Taylor apontaram o disco como influência direta. Dave Grohl declarou que o trabalho serviu como referência sonora de peso por anos.

O metal alternativo dos anos seguintes absorveu a estética rítmica, o groove e a densidade apresentados ali.

O auge e a ruptura: o fim da formação clássica

Paradoxalmente, o maior sucesso da banda também marcou o início do fim de sua formação clássica.

Durante a turnê mundial, conflitos internos se intensificaram, especialmente em torno da gestão da banda. No final de 1996, Max Cavalera deixou o grupo, encerrando a era que incluía ele, Andreas Kisser, Paulo Xisto Jr. e Iggor Cavalera.

Mais que um disco, Roots foi uma declaração estética e cultural que reposicionou o Brasil no mapa global do metal
Mais que um disco, Roots foi uma declaração estética e cultural que reposicionou o Brasil no mapa global do metal | Foto: Reprodução

A saída encerrou a formação clássica responsável pelos principais álbuns da banda. Max formaria, posteriormente, o Soulfly, enquanto o Sepultura seguiria com uma nova formação e com o novo vocalista, o americano Derrick Green.

Roots tornou-se, assim, não apenas um marco criativo, mas o último registro daquela química específica que moldou o auge do grupo.

Um monólito que atravessou gerações

Três décadas depois, Roots segue passando pelo “teste do tempo”. Sua sonoridade ainda soa pesada, atual e ousada.

Se o thrash colocou o Sepultura no mapa, foi Roots que transformou a banda em símbolo global de inovação. O álbum mostrou que o metal poderia dialogar com ancestralidade, identidade e política sem perder força, e, ao fazer isso, mudou para sempre a história da música pesada.

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