OPINIÃO
O escárnio das emendas
Confira o Editorial deste sábado


Sigilo pode tornar-se valor moral quando se aplica a questões de defesa nacional, prevenção contra crimes e concorrência entre empresas por mercado. Mas quando se trata de gestão pública, desde o pequeno condomínio ao Congresso, as finanças devem ser administradas com total transparência.
O descalabro verificado no absurdo “orçamento secreto” precisa merecer o tratamento justo, ou seja, deve ser extirpado como se faz a um tumor maligno. Enquanto esta necessária cirurgia não ocorre, o doente país vai respirando nos aparelhos de medidas paliativas a fim de mitigar os danos desta patologia.
A mais recente iniciativa é a decisão do ministro Flávio Dino, voltando a acionar a Polícia Federal para investigar irregularidades nas emendas Pix. É o mais novo capítulo da novela grotesca do parlamento sigiloso, eleito pelo povo para dele esconder onde aplica os recursos proporcionados por este mesmo povo.
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Não se trata de narrativa ficcional, mas da elucidação de um fato: o relatório do Tribunal de Contas da União aponta prejuízos de pelo menos R$ 55,4 milhões. Criadas sob o argumento falacioso de dar agilidade às transferências, as emendas viraram escárnio.
O efeito prejudicial ao convívio republicano é um incentivo à didática maligna da esperteza. A escola de rapaces ensina a propagar o nefasto jeitinho da trapaça, afinal qual motivo razoável teriam os congressistas para fugir da rastreabilidade?
Embora a renovação do plantel de senadores e deputados no pleito de outubro seja uma expectativa com alta probabilidade, não vai resolver o problema estrutural. Ou se restaura a moralidade, com a transparência plena do tráfego bancário congressual, ou não restará sequer uma nesga de decência e dignidade capaz de sustentar a honra da bicentenária Casa Legislativa.
Já passou da hora de o Brasil envergonhar-se deste e de outros traços mais compatíveis com o perfil de um moleque travesso em vez de uma nação adulta.


