OPINIÃO
O mergulho dos desesperados
Confira o Editorial deste sábado


Segurança, dignidade, paz, condições de estudar, trabalhar e prosperar, estes são direitos universais, ou seja, reconhecidos para todo o universo, e não apenas uma fração. Quem entende assim, compreende a luta de milhares de migrantes, ao mergulharem rumo a Ceuta, enclave espanhol fincado no extremo norte da África.
Quem avalia como erro a maratona aquática por uma vida melhor, fica impressionado com tanta facilidade de marroquinos entrarem na União Europeia. Independentemente de torcida a favor ou contra, ambos os lados não poderiam deixar de lamentar os óbitos, pois nem todos conseguem nadar até alcançar a praia.
Em linha reta, as distâncias variam de 300 metros a um quilômetro, saindo de Bellones ou Fnideq, no Marrocos, até Tarajal e Benzu, já na Ceuta espanhola. Na base do cada um por si, Posídon pode ficar contra todos a qualquer momento, dada a formação de súbitas correntes colhendo aventureiros tomados por exaustão.
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Nesta corrida louca, a medalha de ouro é um futuro de melhores oportunidades em lugares enriquecidos graças ao empobrecimento do local da largada: a África. A busca, portanto, visa consertar o erro histórico de séculos de injustiça, pois se há desesperados de um lado é porque há quem tenha acumulado pilhagens do outro.
A tragédia humana expõe as desigualdades do mundo contemporâneo, em um cenário ilustrativo, pois os migrantes são como filhos bastardos dos impérios. Estas crianças abandonadas agora querem abrigo nos castelos de quem encheu burras de ouro, por meio de expedições genocidas capazes das maiores atrocidades.
Acomodar esta gente perdida em mar de medo e angústia poderia ser uma atitude mui digna dos governos da Europa, estabelecendo a utopia da mea culpa. Mas não se espere tamanho desenvolvimento moral pela revolução do perdão: a estratégia agora é tampar o vazamento de muçulmanos e mandá-los de volta.
Na sequência, em vez de se compartilhar meios de vida no local de origem para conter novas ondas migratórias, tudo continuará tal e qual: a margem pobre diante da rica.


