EDITORIAL
Rapina digital
Como o vício em apostas online está desestruturando famílias
Como poderia ter sido previsto por gestores, institutos de pesquisa de ciências sociais e organizações voltadas para a saúde pública, as bets vão destruindo as pessoas e o Brasil.
Um efeito previsível: já se conhece suficientemente o mecanismo dos recursos lúdicos sobre a psiquê, influenciada pelos baixos instintos e fantasias de prazer. O gatilho da adição equivale ao de drogas, lícitas e ilícitas, autoras da satisfação provisória de químicas geradas no organismo, quando se faz a famosa fezinha.
O freio neste vagão descarrilado rumo ao apocalipse desestimulou 3 mil plataformas, proibidas desde 2023, mas restam 187 legalizadas, acumulando lucros comodamente. No Brasil, a palavra inglesa “bet”, traduzível por “aposta”, foi bem acolhida, tornando-se “bete”, na boca do povo, refletindo adesão massiva ao azar.
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Reportagem de manchete publicada n’A TARDE de hoje busca contribuir para estabelecer prós e contras, ouvindo vozes autorizadas a discutir o tema.
Há dois modos de pensar antagônicos: quem entende serem as “betes” possíveis de adaptação diverge de quem as condena, até porque outras apostas estão proibidas.
Desde o distante ano de 1946, o jogo do bicho, ou loteria popular, é clandestino no Brasil, tendo sido, por isso mesmo, fortemente agasalhado ao longo das décadas por organizações lançadas à criminalidade.
Já as loterias organizadas pelo Estado, sob amparo iniludível dos códigos, são liberadas e incentivadas pela publicidade, da Mega-Sena e outras. Ora, no caso específico das bets, há o agravante do uso pernicioso da internet para fins de enriquecimento de poucos à custa da desestruturação das famílias.
O celular é a isca irresistível de onde se fisga recursos da classe trabalhadora, abrindo covas no abismo da desigualdade, a exigir decisões rápidas a fim de conter a rapina digital.