CRIME ORGANIZADO
666? A facção satanista que bebia sangue humano e tentou enfrentar o PCC
Com rituais macabros e símbolos demoníacos a Seita Satânica aterrorizou presídios antes de ser esmag


Muito antes do Primeiro Comando da Capital (PCC) transformar o crime organizado numa espécie de multinacional da violência, os corredores do sistema penitenciário paulista já eram dominados pelo medo. Não o medo comum da prisão, que já basta por si só. Era outro tipo de terror. Mais ritualístico. Mais psicológico. Mais próximo de um filme clandestino gravado dentro de um manicômio abandonado.
No topo do quarto andar do Pavilhão 9 do Carandiru, um grupo de presos pintava as celas de preto, rabiscava cruzes invertidas nas paredes e espalhava símbolos demoníacos pelos corredores. Enquanto o Estado fingia controlar o maior complexo prisional da América Latina, uma facção conhecida como Seita Satânica (SS) construía seu próprio reinado dentro das grades.
E, por um período, funcionou.
O Carandiru: uma cidade esquecida pelo Estado
Para entender como uma facção satanista ganhou força dentro das cadeias paulistas, primeiro é preciso entender o que era o Carandiru.
Aquilo não era exatamente um presídio. Era praticamente uma cidade paralela construída para armazenar gente. Superlotado, abandonado, tomado por violência e doenças, o complexo virou um laboratório perfeito para o surgimento de facções.

O Estado entrava armado. As facções entravam organizadas.
E organização, dentro da cadeia, quase sempre vence.
Nos anos 80 e começo dos 90, o poder dentro dos presídios era fragmentado. Cada cadeia tinha seus grupos, lideranças regionais e alianças improvisadas. O PCC ainda não existia. O crime organizado em São Paulo funcionava quase como um arquipélago: várias pequenas ilhas violentas tentando sobreviver.
Foi nesse ambiente que a Seita Satânica cresceu.
O medo como ferramenta de poder
A origem exata da facção até hoje é cercada de versões contraditórias. Há relatos sobre a existência de grupos satanistas nas prisões paulistas desde os anos 60. Mas foi só nos anos 90 que a organização ganhou corpo de facção criminosa.
E ela cresceu usando algo extremamente eficiente dentro da prisão: o imaginário.

Enquanto outros grupos precisavam provar força no braço, a Seita Satânica construía uma reputação quase sobrenatural. Os integrantes cultivavam uma estética própria, faziam rituais, impunham regras internas e espalhavam símbolos demoníacos pelas celas.
- Pentagramas
- Número 666
- Tridentes
- Velas
- Desenhos de Baphomet
- Roupas pretas
O objetivo era simples: intimidar.
E intimidava.
Em um ambiente onde muitos presos já viviam no limite psicológico, qualquer história envolvendo “rituais”, “maldição” ou “sacrifício” ganhava proporções gigantescas. Alguns agentes penitenciários evitavam até tocar nos objetos dos integrantes da facção.
Não por respeito.
Por medo mesmo.
O homem tratado como o próprio diabo
O grande nome da Seita Satânica era Idelfonso José de Souza.
Conhecido como “Pai Fundador”, ele chegou ao Carandiru em 1994 e rapidamente virou uma espécie de entidade dentro da organização. Frio, disciplinado e respeitado pela violência, era tratado pelos seguidores quase como a encarnação de Satã dentro da prisão.
Na cadeia, carisma e brutalidade costumam caminhar juntos.
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Idelfonso conseguiu unir diversos grupos espalhados pelas unidades prisionais sob um mesmo símbolo. Era algo raro naquela época. Antes do PCC consolidar uma estrutura hierárquica, poucas facções tinham nível real de organização.
A Seita tinha estatuto.
- Tinha regras
- Tinha hierarquia
- E tinha punições
Os relatos apontam que membros não podiam recusar participação em rituais internos. Algumas cerimônias envolviam queimaduras nas mãos como forma de compromisso com o grupo. O pertencimento vinha acompanhado de submissão absoluta.
Dentro das cadeias, aquilo gerava fascínio e terror ao mesmo tempo.
O surgimento do “Partido do Crime”
Enquanto a Seita Satânica expandia influência pelo medo, outro grupo começava a crescer silenciosamente em São Paulo.
O Primeiro Comando da Capital (PCC).
Criado oficialmente em 1993, após o massacre do Carandiru, no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté, interior de São Paulo, o PCC apareceu com um discurso diferente das demais facções. Não se apresentava apenas como grupo criminoso, mas como organização de proteção entre presos.
Na prática, vendia estabilidade em um sistema caótico.
"Paz, Justiça e Liberdade"
E isso fez diferença.
Muitos detentos aderiram ao PCC porque estavam cansados da lógica selvagem das cadeias da época. O grupo prometia união, disciplina e reação contra abusos do sistema penitenciário. Também oferecia proteção contra facções consideradas imprevisíveis, entre elas, a própria Seita Satânica.
Existe uma ironia quase absurda nisso tudo.
O PCC, que mais tarde se tornaria a maior organização criminosa do país, cresceu inicialmente sendo visto por muitos presos como uma alternativa “menos caótica” ao terror instalado nas cadeias paulistas.

Quando o inferno já está instalado, qualquer promessa de ordem parece civilização.
O começo da guerra
Durante um período, diversas facções coexistiram nos presídios paulistas disputando espaço e influência. Mas o PCC tinha um diferencial que mudaria tudo: estratégia de expansão.
O grupo entendia algo que seus rivais ainda ignoravam.
Dominar cadeia significava dominar comunicação, rotas, alianças e dinheiro.
O Carandiru virou peça central dessa disputa.
Quem controlasse aquele complexo controlaria prestígio dentro do sistema penitenciário.
Então começou a guerra
No início dos anos 2000, o PCC partiu para eliminar rivais históricos. Facções menores foram absorvidas, destruídas ou rebaixadas à condição de subordinadas. A Seita Satânica entrou na lista.
E a resposta veio em forma de execução.
A semana em que a Seita Satânica sangrou
Fevereiro de 2001.
Em apenas alguns dias, três nomes importantes ligados à Seita Satânica foram assassinados dentro do sistema prisional paulista.
O primeiro foi Nilson César Camargo, conhecido como “Caveira”, descrito como preso de altíssima periculosidade. Depois veio José Eduardo Assaf, morto a golpes de estilete. Dias mais tarde, Benedito Honorato, um dos integrantes que mais conheciam a estrutura interna da Seita, apareceu morto estrangulado.
Os recados vinham um atrás do outro.
Sem cerimônia.
Sem metáfora.
Sem espaço para dúvida.
Os inquéritos das mortes mencionavam o mesmo nome que começava a ganhar força nas prisões paulistas: Marcos Willians Herbas Camacho.
O Marcola.

O PCC deixava claro quem passaria a mandar nas cadeias.
A megarrebelião que mudou tudo
Pouco tempo depois, o sistema penitenciário paulista assistiu a algo inédito.
O PCC coordenou rebeliões simultâneas em dezenas de unidades prisionais do estado. Aproximadamente 25 mil presos participaram do movimento.
Era mais do que uma rebelião, era uma demonstração pública de poder.

O Estado, que durante anos tentou minimizar ou negar a existência do PCC, assistia ao nascimento oficial da facção diante das câmeras de televisão. O grupo deixava de ser apenas um boato de corredor e virava instituição criminosa.
E enquanto isso acontecia, a Seita Satânica já estava acuada.
Sem força militar suficiente para enfrentar o PCC, muitos integrantes aceitaram posição secundária dentro das cadeias para evitar o extermínio completo da facção.
“O cheiro era o pior”
Anos depois, o agente penitenciário Diorgeres de Assis Victorio relataria parte do que viu dentro das celas da Seita Satânica.
Segundo ele, o mais impactante não eram os símbolos espalhados pelas paredes.
Era o cheiro.
Cheiro de podridão.
"Quando entrei na cela, o mais marcante era o cheiro: um cheiro de podridão. Nas paredes havia símbolos de estrelas de cinco pontas e cruzes invertidas, tridentes e escrituras em uma língua que não pude reconhecer. Também vi repetições do número 666 e desenhos de Baphomet e do olho de Lúcifer. Havia cachimbos, charutos, muitas velas e as roupas pretas que eles usavam todo dia e que hoje já não são permitidas nas cadeias”
As celas tinham velas derretidas, cachimbos, roupas pretas, inscrições desconhecidas e símbolos demoníacos desenhados por toda parte. Alguns agentes evitavam até se aproximar dos integrantes do grupo.
"Os outros agentes não gostavam de se envolver com ‘os caras do demônio’. Alguns ficavam até com receio de pegar um feitiço e tocar nos objetos deles. Aos poucos, meio que me tornei o único encarregado”, acrescentou ele."
Pode parecer exagero hoje. Mas cadeia vive de narrativa. E naquele ambiente, medo psicológico tinha tanto peso quanto faca improvisada.
O que sobrou da Seita
A Seita Satânica não desapareceu completamente.
Segundo relatos de antigos agentes penitenciários, pequenos grupos ainda existem de forma isolada em presídios do interior paulista. Sem o poder de antes, sem influência ampla e muito longe do protagonismo que tiveram nos anos 90.
Viraram quase uma lenda de cadeia.
Uma história contada em voz baixa por agentes antigos, presos veteranos e sobreviventes daquele sistema brutal.
Mas talvez o mais assustador dessa história nem seja o satanismo.
É perceber que o Estado brasileiro criou um ambiente tão degradado, tão abandonado e tão violento que facções passaram a disputar poder dentro das cadeias como governos paralelos.
Primeiro usando o medo.
Depois usando organização.
E no fim das contas, o que nasceu dentro das celas ultrapassou os muros das prisões e tomou as ruas do país.


