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Clínica investigada por mortes e tortura mantinha contrato milionário com prefeitura baiana

Documento obtido com exclusividade pelo A TARDE traz detalhamento do contrato

Leilane Teixeira
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| Atualizada em
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Foto: Reprodução

A clínica de reabilitação Terra Santa, investigada pela Polícia Civil por suspeitas de tortura, maus-tratos, cárcere privado e pelas mortes de dois internos, mantinha um contrato de mais de meio milhão de reais com a Prefeitura de Xique-Xique, cidade no norte da Bahia localizada a quase 600 km de Candeias, município onde funciona a unidade.

De acordo com apuração exclusiva do portal A TARDE, o contrato foi firmado em novembro de 2025, com vigência até novembro de 2026, prevendo o pagamento de R$ 516.600 para a internação e o tratamento de até 24 pacientes ao longo de um ano. O documento, ao qual a reportagem teve acesso, estabelecia que a clínica deveria oferecer atendimento especializado a pessoas com dependência química, alcoolismo e transtornos mentais, além de garantir acolhimento em comunidade terapêutica.

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No entanto, o cenário encontrado pela Polícia Civil durante uma operação realizada na última quarta-feira, 22, foi outro. Ao todo, 39 internos foram resgatados e o gerente da unidade, Charles Vinicius Souza da Silva Almeida, foi preso em flagrante pelos crimes de tortura e maus-tratos.

Segundo as investigações, pacientes relataram:

  • espancamentos;
  • afogamentos;
  • sessões de tortura;
  • trabalhos forçados;
  • administração irregular de medicamentos;
  • e afirmaram que eram mantidos em quartos trancados com cadeados e cercas eletrificadas para impedir fugas.

Recursos públicos custeavam o atendimento

O contrato foi assinado em 18 de novembro de 2025 pelo prefeito de Xique-Xique, Renan Pinto Dantas Braga, e pelo proprietário da Clínica Terra Santa, Moisés de Jesus Leal.

O documento previa remuneração de R$ 1.793,75 por paciente ao mês, totalizando um valor global de R$ 516.600 durante os 12 meses de vigência. A contratação ocorreu por meio de credenciamento, modalidade prevista na Lei de Licitações para serviços em que todos os interessados que preencham os requisitos podem ser habilitados.

Contrato da prefeitura de Xique Xique com a clínica Terra Santa
Contrato da prefeitura de Xique Xique com a clínica Terra Santa - Foto: Arquivo pessoal

Embora o contrato estabelecesse atendimento para até 24 pacientes, a Prefeitura de Xique-Xique informou ao portal A TARDE que mantinha seis pessoas internadas na unidade até a suspensão do vínculo contratual. Segundo o município, o custeio era individualizado, de acordo com cada encaminhamento, com valores que variavam entre R$ 1.500 e R$ 2.000 por paciente.

Valores previstos no contrato

  • Valor total do contrato: R$ 516.600,00;
  • Quantidade máxima de pacientes: 24;
  • Valor por paciente/mês: R$ 1.793,75;
  • Vigência: 12 meses.

A administração, no entanto, não informou quanto já foi efetivamente pago à clínica desde a assinatura do contrato.

Contrato previa fiscalização da Prefeitura

O contrato também estabelecia que cabia ao Município de Xique-Xique acompanhar e fiscalizar a execução dos serviços prestados pela clínica.

Entre as atribuições previstas estavam:

  • acompanhar a execução dos serviços;
  • registrar eventuais irregularidades;
  • exigir providências da empresa;
  • comunicar falhas à administração;
  • fiscalizar o cumprimento das obrigações assumidas pela clínica.

O documento ainda identifica nominalmente um fiscal, uma substituta e um gestor responsáveis pelo acompanhamento do contrato.

Além disso, a Clínica Terra Santa assumiu a obrigação de prestar os serviços conforme as exigências do edital, manter as condições de habilitação e responder por eventuais danos decorrentes da execução contratual.

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Foto: Divulgação Polícia Civil

Em nota, a Prefeitura informou que psicólogos, assistentes sociais e profissionais da rede municipal de Saúde acompanhavam o tratamento dos pacientes durante a internação e que, após a alta médica, eles permaneciam em atendimento pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). O município, entretanto, não informou se esse acompanhamento incluía visitas periódicas às instalações da clínica durante a vigência do contrato.

Prefeitura suspendeu contrato

Na resposta encaminhada ao portal A TARDE, a Prefeitura afirmou que o credenciamento da clínica ocorreu com base na documentação apresentada pela instituição e na necessidade de ampliar a oferta de vagas para tratamento especializado.

Ojetivo da parceria sempre foi garantir atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade acometidas pela dependência química Prefeitura de Xique-Xique

Após a operação da Polícia Civil, a administração informou ainda que determinou a suspensão imediata do vínculo contratual, retirou os seis pacientes que estavam internados na unidade e informou que eles receberam acompanhamento da equipe municipal de saúde e assistência social. Conforme a necessidade de cada caso, os pacientes serão encaminhados para outras instituições credenciadas.

Veja nota na íntegra

O Município de Xique-Xique informa que a Clínica localizada em Candeias, credenciada para prestar serviços de reabilitação contra dependência química, mantinha pacientes internados em decorrência de encaminhamentos realizados pela rede municipal de saúde e assistência social. Trata-se de serviço prestado por estabelecimentos de saúde regulados por normas médicas e sanitárias, e vinculados ao tratamento de transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de substâncias psicoativas.

O credenciamento da instituição seguiu os trâmites administrativos previstos, com base na documentação apresentada pela clínica e na necessidade de ampliar a oferta de vagas para tratamento especializado. Ressaltamos que o objetivo da parceria sempre foi garantir atendimento digno e adequado às pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente aquelas acometidas pela dependência química.

A operação realizada pela Polícia Civil trouxe à tona graves denúncias sobre a condução dos serviços na unidade. Diante disso, o Município de Xique-Xique determinou imediatamente a suspensão do vínculo com a clínica e está colaborando integralmente com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos. O Município mantinha, até a suspensão contratual, pelo menos seis pacientes institucionalizados, os quais estavam em tratamento desde o início do ano. O custeio era individualizado, de acordo com o envio do paciente, com valores que variavam de R$ 1.500,00 a R$ 2.000,00 por paciente.

A equipe técnica da Saúde do Município, psicólogos e assistentes sociais, acompanhavam o tratamento de cada paciente, que, após a alta médica, permaneciam, a depender do caso, em tratamento médico junto ao CAPS do Município.

Os pacientes internados foram acompanhados e receberam suporte da equipe de saúde municipal, por meio da qual foram conduzidos para seus lares, e, a depender da necessidade, serão encaminhados para unidades regulares, credenciadas e devidamente fiscalizadas. O Município reafirma seu compromisso com a proteção da vida, da saúde e da dignidade humana, não tolerando qualquer prática que contrarie os princípios éticos e legais do cuidado em saúde.

O Município aguarda a conclusão da investigação policial, e, após concluído o Inquérito, solicitará acesso aos autos, com vistas a subsidiar eventual procedimento administrativo, onde se apurará a ocorrência de violações de direitos dos pacientes, procedendo com a adoção das providências legais cabíveis.

Clínica é alvo de investigações desde 2024

A Clínica de Reabilitação Terra Santa foi fundada em 13 de outubro de 2023, em Candeias, e possui uma filial aberta em 24 de janeiro de 2025, em Monte Gordo, distrito de Camaçari. A unidade se apresenta como uma clínica de reabilitação para dependência química, com tratamentos conduzidos por especialistas.

Segundo informações divulgadas pela própria clínica, mais de 300 famílias já foram acolhidas e os familiares dos pacientes pagavam cerca de R$ 1,2 mil de mensalidade.

Embora a operação policial tenha ocorrido apenas neste ano, documentos obtidos pelo portal A TARDE mostram que a clínica Terra Santa já era alvo de registros policiais e procedimentos investigativos desde 2024.

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Foto: Boletim de ocorrência

Naquele ano, um ex-interno procurou a Polícia Civil e denunciou ter sido mantido em cárcere privado e agredido fisicamente por funcionários e outros acolhidos da unidade. No boletim de ocorrência, a vítima relatou ainda ter sido convidada a permanecer na clínica como funcionário após concluir o período de internação e apresentava lesões na face, cabeça, tronco e membros quando procurou a polícia.

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Foto: Tabela gerada por IA

Como andam as investigações?

Após o resgate dos 39 internos e a prisão do gerente Charles Vinicius Souza da Silva Almeida, a clínica foi interditada. Charles passou por audiência de custódia e teve a prisão em flagrante convertida em preventiva.

Além da operação realizada na sede da clínica, em Candeias, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão em outros dois locais:

  • filial da unidade, em Monte Gordo, distrito de Camaçari;
  • residência do proprietário, Moisés de Jesus Leal, no bairro do Cabula, em Salvador.

O delegado da 20ª Delegacia Territorial de Candeias, Marcos Laranjeira, também representou pela prisão preventiva de Moisés de Jesus Leal e de outros dois investigados que, segundo o depoimento do gerente preso, teriam participado da morte de Iago Marques Formiga dentro da clínica. A polícia aguarda o mandado de prisão ser expedido pela Justiça.

Mortes motivaram a operação

A clínica de reabilitação passou a virar foco após dois casos de repercussão. O primeiro envolve o interno Geovane Santana Lopes, de 31 anos, que sofreu graves queimaduras na unidade em dezembro de 2025 e morreu em 4 de maio de 2026.

Quatro dias após a morte de Geovane, o monitor da clínica Iago Marques Formiga, de 33 anos, desapareceu. O corpo do funcionário foi localizado no dia 19 de maio de 2026, carbonizado e com perfurações de arma de fogo na BA-530, em Camaçari.

Geovane sofreu várias queimaduras dentro da clínica
Geovane sofreu várias queimaduras dentro da clínica - Foto: Reprodução
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Clínica Terra Santa. contrato público maus-tratos Prefeitura de Xique-Xique Xique-XIque

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