POLÍCIA
“Frustração para a sociedade”: família lamenta adiamento do júri de Mãe Bernadete
Julgamento foi adiado após um pedido da defesa nesta terça-feira, 24


Após o júri popular dos reús pelo assassinato da ialorixá Mãe Bernadete, ser adiado para o dia 13 de abril, familiares, representantes do Ministério Público, autoridades e integrantes de movimentos sociais se pronunciaram na manhã desta terça-feira, 24, no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador.
O julgamento foi adiado após um pedido da defesa. Segundo a juíza do caso, os réus eram assistidos pela Defensoria Pública, no entanto, nesta terça, eles passaram a ser representados por advogados particulares, que informaram não ter tido acesso às provas do processo. Diante disso, solicitaram o adiamento da sessão para analisar o material.
Ponto de vista júridico x moral
O advogado da família, Hédio Silva, afirmou que, do ponto de vista jurídico, a decisão é correta, mas destacou o impacto moral do adiamento.
“A iniciativa é, do ponto de vista jurídico, legal, inatacável. Do entretanto, chama a atenção o fato de que, um dia antes de um processo que se arrasta há mais de dois anos, com provas robustas colhidas pelo Gaeco e pela Polícia Civil, haja esse pedido”, declarou.
Ele ressaltou que a decisão da magistrada não pode ser questionada sob o aspecto legal, mas lamentou o adiamento. “É uma frustração para a família, uma frustração para a sociedade. Eu não posso atacar a decisão da magistrada, ela agiu corretamente. Agora, não deixa de ser uma frustração para a opinião pública que espera uma resposta do Judiciário.”

Questionado se o adiamento pode provocar mudanças no andamento do processo, Hédio demonstrou preocupação. “Eu temo, mas espero que não aconteça, que esse adiamento seja utilizado pela defesa para alegar excesso de prazo. Não faz sentido a própria defesa dar causa ao adiamento de um julgamento que estava com tudo preparado para acontecer e, depois, alegar excesso de prazo. Mas não vai me surpreender se, especialmente no caso do executor Ariel, alguém recorrer ao Judiciário com esse argumento”, disse.
“O legado continua”, afirma filho
O filho de Mãe Bernadete, Wellington Pacífico, falou sobre a dor da família e a expectativa por justiça.
“Não é fácil você perder um irmão do jeito que eu perdi e, três, quatro anos depois, perder a mãe do jeito que eu perdi. Não é fácil manter esse legado de Mãe Bernadete vivo. Mas, como eu sempre digo, mesmo diante de tanta dor, o legado continua”, afirmou.

O promotor Raimundo Moinhos afirmou que, apesar da perplexidade diante do adiamento, a acusação mantém confiança no julgamento.
“Temos a certeza de que, apesar desse sentimento de perplexidade e estranheza, a Justiça será feita na nova data, sem nenhuma alteração. A prova é contundente, é firme, e a Justiça será feita. O julgamento apenas se adia por dois meses por conta do pedido da própria defesa.”

Ele acrescentou que a medida não representa ilegalidade. “Ilegalidade não há. Inclusive, essa decisão preserva qualquer eventual arguição de nulidade ou de ilegitimidade do julgamento”, destacou.
“Ataque à democracia”, diz secretário
O secretário de Justiça e Direitos Humanos, Fellipe Férias, classificou o caso como emblemático e um desafio à democracia.
“Esse é um caso emblemático para todo o país, no sentido de que representa um desafio à democracia brasileira. A democracia não pode conviver com violência contra defensoras e defensores de direitos humanos.”
Ele reforçou o compromisso de acompanhamento do caso. “O ataque à vida de uma defensora de direitos humanos é um ataque à democracia. Portanto, é nossa obrigação, como autoridades públicas, acompanhar a investigação e entregar à família respostas, com um julgamento justo que possa, pelo menos, aplacar o sentimento de impunidade que não pode prosperar nesse caso”, completou.
Relembre o crime
Mãe Bernadete foi assassinada em 17 de agosto de 2023, na sede da associação quilombola, na comunidade de Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Ela foi atingida por 25 disparos dentro da própria residência. No momento do crime, três netos da líder, de 12, 13 e 18 anos, estavam na casa.
De acordo com as investigações da Polícia Civil, no âmbito da “Operação Pacific”, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público e da 7ª Promotoria de Justiça de Simões Filho, o assassinato estaria relacionado à posição firme de Mãe Bernadete contra a expansão do tráfico de drogas no quilombo.