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GEOGRAFIA DA DROGA

Nova geografia do crack: como as cracolândias mudaram e chegaram às principais avenidas de Salvador

Fenômeno antes concentrado no Centro Histórico avança para os principais corredores da cidade

Beatriz Santos
Por
Casal usando crack no canteiro central da Avenida ACM, próximo à Estação BTR Cidadela em 2025
Casal usando crack no canteiro central da Avenida ACM, próximo à Estação BTR Cidadela em 2025 - Foto: Wendel Galter | Ag. A Tarde

Quem passa diariamente pelas avenidas ACM, Vasco da Gama e Tancredo Neves encontra uma paisagem que, até poucos anos atrás, era associada quase exclusivamente ao Centro Histórico de Salvador.

Barracos improvisados sob viadutos, acúmulo de pertences, pessoas vivendo em situação de rua e cenas abertas de uso de drogas passaram a ocupar alguns dos principais corredores econômicos e de mobilidade da capital baiana.

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A transformação revela uma mudança silenciosa na geografia da exclusão urbana. Durante décadas, a imagem da chamada cracolândia em Salvador esteve concentrada em regiões como Pelourinho, Comércio, Nazaré, Baixa dos Sapateiros e Santo Antônio Além do Carmo, áreas historicamente marcadas pela degradação urbana e pela presença de populações socialmente vulneráveis.

Hoje, embora esses locais continuem concentrando parte significativa desse fenômeno, novos territórios passaram a integrar o mapa das cenas abertas de uso de drogas na cidade.

Nas últimas décadas, as concentrações de usuários deixaram de ocupar exclusivamente áreas históricas e passaram a surgir também em regiões de intenso fluxo de pessoas, próximas a estações de transporte coletivo, centros comerciais, polos empresariais e importantes eixos econômicos da capital.

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A presença dessas ocupações em avenidas movimentadas tornou o problema mais visível para milhares de soteropolitanos, que passaram a conviver diariamente com uma realidade antes menos presente em suas rotinas.

A mudança, porém, vai além de uma simples alteração geográfica. O fenômeno está ligado ao crescimento da população em situação de rua, à expansão do consumo de drogas, às dificuldades de acesso à moradia e aos desafios das políticas de assistência social e saúde mental, refletindo transformações sociais e urbanas acumuladas ao longo de décadas.

Como o crack chegou ao Brasil e a Salvador

Embora tenha se tornado um dos maiores desafios sociais e de saúde pública das últimas décadas, a chegada do crack ao Brasil ocorreu de forma relativamente silenciosa. A droga surgiu nos Estados Unidos durante os anos 1980, inicialmente concentrada em comunidades vulneráveis de grandes centros urbanos.

Produzido a partir da pasta-base da cocaína e consumido por meio da fumaça, o crack rapidamente ganhou notoriedade pelo alto potencial de dependência e pelos impactos sociais associados ao seu uso.

Segundo a Pesquisa Nacional sobre o Uso de Crack da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), os primeiros registros científicos sobre o consumo da droga no Brasil foram publicados em 1996. Estudos, no entanto, indicam que a substância já circulava em São Paulo desde pelo menos 1991. Em poucos anos, o fenômeno deixou de ser localizado e passou a se espalhar por diferentes regiões do país.

Usuários de crack reunidos no centro de São Paulo
Usuários de crack reunidos no centro de São Paulo - Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP

Pesquisas conduzidas pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) ajudam a dimensionar a velocidade dessa expansão. Entre pacientes atendidos em serviços especializados em dependência química, a proporção de usuários que consumiam cocaína fumada saltou de 17% para 64%, entre 1990 e 1993. Os números revelam uma transformação profunda nos padrões de consumo de drogas observados naquele período.

Enquanto o avanço do crack ainda era analisado principalmente sob a perspectiva do Sudeste brasileiro, Salvador passava por uma mudança que alteraria, de forma duradoura, o cenário do consumo de drogas na capital baiana. Um dos registros mais importantes sobre esse processo foi produzido por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (Cetad/UFBA).

No artigo científico The Opening of South America’s First Needle Exchange Program and an Epidemic of Crack Use in Salvador, Bahia-Brazil, publicado na revista AIDS and Behavior, os pesquisadores Tarcísio Andrade, Inês Dourado, Maria Guadalupe Medina, Peter Lurie e Kim Anderson documentaram o surgimento de uma verdadeira epidemia de crack em Salvador, a partir de 1996.

O estudo aponta que a droga foi introduzida de forma rápida na cidade e atingiu especialmente usuários de drogas injetáveis em situação de pobreza. Até meados da década de 1990, a cocaína injetável predominava entre determinados grupos de usuários. Com a disseminação do crack, entretanto, milhares de pessoas migraram para a forma fumada da substância, em um curto intervalo de tempo.

O impacto foi tão intenso que atingiu diretamente o funcionamento do primeiro Programa de Troca de Seringas da América do Sul, implantado em Salvador em 1995 pelo Cetad (UFBA), como estratégia de prevenção ao HIV entre usuários de drogas injetáveis. À medida que o crack avançava, diminuía a utilização das seringas que motivaram a criação do programa.

Os números registrados pelo Cetad ajudam a compreender a velocidade da mudança. Em 1993, nenhum dos novos pacientes atendidos pelo centro relatava consumo de crack. Em 1996, eles já representavam 4% dos atendimentos iniciais. Um ano depois, o percentual saltou para 14% e continuou crescendo até alcançar 40% dos novos atendimentos, em alguns meses de 1998.

Os primeiros focos identificados pelos pesquisadores estavam concentrados no Pelourinho e em outras áreas do Centro Histórico. Pouco tempo depois, o consumo já alcançava bairros como Engenho Velho da Federação, Calabar, Pituba e Patamares. Entre os fatores apontados para essa rápida disseminação estavam o menor custo da droga, a intensidade dos efeitos e a facilidade de consumo por meio do fumo, que dispensava o uso de seringas.

Pedra de crack
Pedra de crack - Foto: Reprodução | MP-RS

A expansão também foi acompanhada pela imprensa. Em levantamento realizado pelos pesquisadores da UFBA, a primeira grande referência ao crack em Salvador apareceu em julho de 1996. No ano seguinte, o jornal A TARDE publicou ao menos 24 reportagens sobre tráfico e consumo da droga, muitas delas relacionadas ao Centro Histórico. Uma dessas matérias apontava que o consumo de crack havia triplicado na cidade em relação ao ano anterior e que o principal foco de uso estava localizado no Pelourinho.

A própria Fiocruz reconhece Salvador como uma das primeiras cidades brasileiras fora do eixo paulista a registrar, de forma significativa, o avanço do crack. No capítulo histórico da Pesquisa Nacional sobre o Uso de Crack, pesquisadores citam estudos realizados na capital baiana no início dos anos 2000, que já identificavam os impactos da substância sobre a saúde pública.

Um desses levantamentos analisou 125 mulheres usuárias de crack recrutadas entre 2001 e 2002 em Salvador, demonstrando que o consumo da droga já estava consolidado em diferentes grupos sociais da cidade.

Ao longo dos anos seguintes, o fenômeno deixou de estar restrito aos serviços de saúde e passou a ocupar espaços públicos cada vez mais visíveis. Pesquisas desenvolvidas pela UFBA mostram que o consumo de crack passou a ser progressivamente associado às populações em situação de vulnerabilidade social, especialmente às pessoas que viviam nas ruas.

Na dissertação "Condições de Existência, Corpo e Saúde entre a População em Situação de Rua em Salvador, Bahia: uma abordagem antropológica", defendida no Instituto de Saúde Coletiva da UFBA pela pesquisadora Maria Magalhães Aguiar, o consumo de drogas aparece como elemento cada vez mais presente na realidade das ruas da capital.

Com base em dados divulgados à época, o estudo apontava que o consumo de drogas havia aumentado 140% em Salvador e identificava usuários adolescentes, adultos e idosos em situação de rua em regiões como Calçada, Barra e Centro Histórico.

A pesquisa também relaciona o avanço do crack ao agravamento das condições de vulnerabilidade social. Entre as pessoas entrevistadas, eram recorrentes relatos envolvendo desemprego, rompimento de vínculos familiares, violência, transtornos mentais e uso abusivo de substâncias psicoativas.

Imagem ilustrativa da imagem Nova geografia do crack: como as cracolândias mudaram e chegaram às principais avenidas de Salvador
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Um retrato semelhante foi apresentado no estudo As Condições de Vida e de Trabalho da População em Situação de Rua do Centro Histórico de Salvador, Bahia, conduzido pelas pesquisadoras Renata Meira Veras e Gezilda Borges de Souza.

O levantamento identificou que conflitos familiares, desemprego e consumo de drogas figuravam entre os principais fatores associados à ida e à permanência nas ruas. Mais da metade dos entrevistados apontou problemas familiares como motivo central para viver em situação de rua, enquanto o desemprego e o uso de drogas apareciam logo em seguida.

Pesquisadores apontam que o crack em Salvador vai além da segurança pública e da dependência química. Desde sua chegada, nos anos 1990, o fenômeno tem sido associado às desigualdades sociais, ao desemprego, à fragilização dos vínculos familiares e à exclusão urbana, tornando mais visíveis problemas estruturais da capital baiana.

Quando a dependência passou a ocupar as ruas

Muito antes da chegada do crack, a população em situação de rua de Salvador já era marcada pelo desemprego, pobreza, conflitos familiares e transtornos mentais. Estudos da UFBA mostram que o consumo de álcool e outras drogas fazia parte dessa realidade, mas dentro de um contexto mais amplo de vulnerabilidade social.

A partir da segunda metade da década de 1990, entretanto, a expansão do crack alterou significativamente esse cenário. O consumo da droga passou a ocupar espaços públicos de forma mais visível e, gradualmente, tornou-se associado à realidade das ruas da cidade. Nas décadas seguintes, a presença de usuários em praças, calçadas, viadutos, marquises e áreas de grande circulação passou a representar uma das faces mais evidentes da crise social urbana.

Imagem ilustrativa da imagem Nova geografia do crack: como as cracolândias mudaram e chegaram às principais avenidas de Salvador
Foto: Marcello Casal Jr | ABR

Ainda assim, pesquisadores alertam que a dependência química, isoladamente, não explica o crescimento da população em situação de rua. Em muitos casos, o uso problemático de drogas surge após a perda da moradia, do emprego ou dos vínculos familiares. Em outros, o consumo contribui para aprofundar processos de exclusão que já estavam em curso. O resultado é um ciclo em que vulnerabilidade social e dependência frequentemente se alimentam mutuamente.

Os números ajudam a dimensionar a magnitude dessa transformação. Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), referentes a 2025, apontam que 14.705 famílias em situação de rua estavam cadastradas na Bahia por meio do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal.

O total representa mais que o triplo do registrado em 2020, quando 4.289 famílias viviam nessas condições. Distribuídas por praças, marquises, viadutos e espaços públicos de grandes e pequenas cidades do estado, essas famílias revelam um fenômeno que cresceu de forma acelerada nos últimos anos e passou a ocupar áreas cada vez mais visíveis do espaço urbano.

Nova geografia das cracolândias em Salvador

Durante muito tempo, as cenas abertas de uso de drogas em Salvador estiveram associadas ao Centro Histórico. Foi nessa região que pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) registraram alguns dos primeiros focos da epidemia de crack que atingiu a capital baiana a partir de 1996. Pelourinho, Baixa dos Sapateiros, Nazaré, Comércio e Santo Antônio Além do Carmo passaram a concentrar não apenas usuários da droga, mas também uma crescente população em situação de rua.

Nos anos 2000, o fenômeno já fazia parte da paisagem cotidiana dessas áreas. Moradores, comerciantes e turistas conviviam com a presença constante de usuários de crack, pedintes e pessoas vivendo nas ruas.

Mais de uma década depois, o Centro continua concentrando parcela significativa dessa população. Dados do Censo da População em Situação de Rua de Salvador mostram que os bairros do Centro e da Liberdade permanecem entre os que registram o maior número de pessoas vivendo nas ruas da capital. O dado revela que o problema não desapareceu dessas regiões. O que mudou foi a ampliação do fenômeno para novos territórios.

Imagem ilustrativa da imagem Nova geografia do crack: como as cracolândias mudaram e chegaram às principais avenidas de Salvador
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Nos últimos anos, avenidas como ACM, Vasco da Gama e Tancredo Neves passaram a registrar um aumento cada vez mais visível da presença de pessoas em situação de rua, de barracos improvisados, do acúmulo de pertences e de cenas abertas de uso de drogas.

Diferentemente dos antigos focos, localizados em áreas históricas e marcadas por um processo mais antigo de degradação urbana, esses novos pontos estão inseridos em alguns dos principais corredores econômicos, comerciais e de mobilidade de Salvador.

A transformação é especialmente perceptível na Avenida ACM. Considerada uma das vias mais movimentadas da capital, ela conecta bairros como Brotas, Itaigara, Pituba e Caminho das Árvores, além de concentrar estações de metrô, corredores de BRT, centros empresariais, clínicas, universidades e centros comerciais. Nos últimos anos, a presença de pessoas vivendo em canteiros centrais, sob viadutos e nas proximidades das estações de transporte tornou-se cada vez mais frequente.

Em uma ronda realizada pelo portal A TARDE durante a noite, foram observados trechos com iluminação precária, estações praticamente vazias e áreas ocupadas por pessoas em situação de rua sob viadutos e estruturas do sistema viário. O cenário ajuda a explicar a sensação de insegurança relatada por trabalhadores que circulam diariamente pela região.

Placa da Avenida Vasco da Gama
Placa da Avenida Vasco da Gama - Foto: Reprodução | Redes Sociais

A mesma dinâmica pode ser observada na Avenida Vasco da Gama. Além da crescente concentração de pessoas em situação de rua, a região está localizada próxima à localidade conhecida como Manguinhos, frequentemente citada em ações de combate ao tráfico de drogas.

Em 22 de fevereiro de 2026, uma operação da Polícia Militar resultou na prisão de dois suspeitos e na apreensão de uma pistola Glock calibre 9 milímetros, 367 pedras de crack, 257 pinos de cocaína, 15 porções adicionais da droga, 85 porções de maconha, celulares e dinheiro em espécie. Um dos detidos possuía mandado de prisão em aberto. A ocorrência reforçou a presença do comércio ilegal de entorpecentes no entorno da avenida.

Poucos meses depois, em 18 de maio de 2026, o prefeito Bruno Reis chamou a atenção para o crescimento da concentração de dependentes químicos na região durante o lançamento do Programa Vida Nova. Na ocasião, o gestor relacionou o fenômeno à circulação do K9, droga sintética popularmente conhecida como “crack sintético”, e defendeu ações conjuntas entre assistência social e forças de segurança.

Bruno Reis, prefeito de Salvador
Bruno Reis, prefeito de Salvador - Foto: Cássio Moreira | AG. A TARDE

“Ali na Vasco da Gama, a gente aproveita para chamar a atenção das autoridades. Também é um problema de polícia. Então, nós estamos aprovando na Câmara uma medida para impedir, no entorno de vias, o descarte de materiais reciclados. Porque em muitos casos nós sabemos que estão sendo trocados por drogas”, afirmou em coletiva de imprensa.

“Infelizmente, existe uma droga nova, o K9, que é o crack [sic] sintético, que é muito mais barato e que tem atraído naquela região milhares de pessoas que estão em situação de rua, mas são dependentes de substâncias psicoativas e que não conseguem mais discernir para aceitar o nosso acolhimento”, completou.

Os novos pontos de concentração observados em Salvador compartilham características semelhantes. Avenida ACM, Vasco da Gama e Tancredo Neves são corredores de intenso fluxo de pessoas, forte atividade comercial, ampla oferta de transporte público e proximidade com localidades frequentemente associadas a operações policiais de combate ao tráfico.

O impacto para quem trabalha e circula

A mudança no mapa das cenas abertas de uso de drogas não alterou apenas a paisagem urbana de Salvador. Nos últimos anos, comerciantes, trabalhadores e motoristas que circulam diariamente por avenidas como Vasco da Gama, ACM e Tancredo Neves passaram a conviver de forma mais direta com os reflexos desse fenômeno.

Em entrevistas concedidas ao portal A TARDE, eles relatam aumento da sensação de insegurança, prejuízos às atividades econômicas e dificuldades para lidar com a ocupação de espaços públicos por pessoas em situação de rua e usuários de drogas.

Na Avenida Vasco da Gama, um comerciante que preferiu não se identificar afirma que o cenário tem afetado diretamente o funcionamento de seu negócio. Proprietário de uma vidraçaria na região, ele relata que parte da clientela evita frequentar o local por receio da situação observada diariamente no entorno.

"A gente corre até risco de falar sobre isso. Eles são agressivos, coagem as pessoas e fazem disso aqui um pandemônio", afirmou.

Segundo o comerciante, situações que antes eram esporádicas passaram a fazer parte da rotina de quem trabalha na avenida. "É sexo no meio da rua, cachimbo aceso a qualquer hora, até necessidades eles fazem sem pudor nenhum. E o prejudicado somos nós, comerciantes. Quem quer vir para cá assim?", questionou.

A percepção é compartilhada por Jebson Soares, proprietário de uma oficina mecânica localizada na mesma região. Para ele, os transtornos se tornam ainda mais evidentes durante os períodos de chuva, quando pessoas que permanecem em áreas abertas buscam abrigo em marquises e fachadas de estabelecimentos comerciais.

"Demônio é quando chove. Eles saem da pista do BRT para se abrigar aqui no toldo das lojas, mijam, cagam, usam drogas", relatou.

Avenida Vasco da Gama
Avenida Vasco da Gama - Foto: Bruno Conha / Prefeitura de Salvador

Segundo o empresário, episódios de depredação, sujeira e danos ao patrimônio passaram a integrar a rotina dos comerciantes da área. "Semana passada foi o absurdo: defecaram no cadeado da minha loja. Cheguei por volta das 6h30 da manhã para abrir a oficina e estava lá o cadeado todo sujo de fezes. Isso aqui é Sodoma e Gomorra", disse.

Os relatos revelam uma preocupação recorrente entre trabalhadores da região, que associam o aumento da presença de usuários e pessoas em situação de rua à redução do fluxo de clientes e ao agravamento da sensação de insegurança.

Avenida Tancredo Neves
Avenida Tancredo Neves - Foto: Reprodução | Google Street View

Na Avenida Tancredo Neves, uma das áreas mais movimentadas da capital, o motorista por aplicativo Flávio Cardoso afirma que precisou adotar medidas de precaução durante as corridas e deslocamentos pela região.

Segundo ele, furtos e tentativas de roubo passaram a fazer parte das preocupações de quem trabalha diariamente nas vias de grande circulação.

"Aqui na Avenida Tancredo Neves não está diferente. Quando eu chego em frente ao Iguatemi, eu já fecho os vidros porque sei que, a qualquer momento, pode aparecer um sacizeiro e puxar o celular do painel. Já vi isso acontecendo bem na minha frente, tanto com motorista quanto com motoboy. Então já passo aqui ligado", contou.

O motorista afirma que alguns pontos localizados sob viadutos se transformaram em áreas de permanência frequente de usuários de drogas. "Fica um monte de sacizeiro debaixo do viaduto ali do córrego da Tancredo Neves, que, quando estão na onda, tentam roubar sem pudor nenhum", relatou.

Ele também cita situações observadas na Avenida ACM, onde a presença de pessoas vivendo sob estruturas viárias exige atenção constante por parte dos condutores.

"Outro inferno está na ACM. Onde tem o elevador do BRT, precisamos passar por ali com atenção redobrada, porque, a qualquer momento, pode ter um indivíduo desses atravessando na frente do carro. Você atropelar um cidadão desses ainda vai te encher de problema", afirmou.

O alerta que vem de São Paulo

Se hoje Salvador presencia a expansão das cenas abertas de uso de drogas para corredores como ACM, Vasco da Gama e Avenida Tancredo Neves, São Paulo oferece um retrato de como esse fenômeno pode se tornar um desafio urbano ainda mais complexo quando não há respostas suficientes ao longo do tempo.

A chamada Cracolândia paulistana se consolidou ao longo das décadas de 1990 e 2000 como o maior símbolo nacional da concentração de usuários de crack em espaço público. Em determinados períodos, o "fluxo" chegou a reunir milhares de pessoas no centro da capital paulista, tornando-se um problema que atravessou diferentes gestões municipais e estaduais, sem solução definitiva.

Imagem ilustrativa da imagem Nova geografia do crack: como as cracolândias mudaram e chegaram às principais avenidas de Salvador
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Mesmo após sucessivas operações policiais, remoções e intervenções urbanas, o fenômeno não desapareceu. Em vez disso, os grupos passaram a se dispersar por diferentes áreas da cidade, formando novas concentrações em bairros e corredores urbanos.

Embora as duas cidades possuam dimensões e dinâmicas urbanas bastante distintas, alguns sinais observados em São Paulo começam a aparecer também em Salvador. A presença crescente de pessoas em situação de rua e usuários de drogas em avenidas de grande circulação, próximas a estações de transporte e polos comerciais, sugere que o fenômeno já não está restrito às áreas historicamente associadas à exclusão social.

A experiência de São Paulo demonstra que a expansão gradual das cenas abertas de uso de drogas costuma ser resultado de processos acumulados ao longo de anos e que, quando ignorados, tendem a se tornar cada vez mais difíceis e custosos de enfrentar.

*Com acompanhamento e supervisão do repórter Luan Julião

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