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Novo plano contra facções mira o que nunca deixou de funcionar: dinheiro, logística e comando

Especialista avalia que estratégia abandona foco exclusivo no confronto armado e tenta atingir estruturas invisíveis do crime organizado

Luan Julião
Por
Plano que quer atingir a arquitetura invisível das facções criminosas
Plano que quer atingir a arquitetura invisível das facções criminosas -

Durante décadas, o combate ao crime organizado no Brasil se apoiou quase sempre na mesma imagem: viaturas nas ruas, operações policiais ostensivas, apreensões de drogas e confrontos armados televisionados. O novo programa lançado pelo Governo Federal tenta mudar justamente esse eixo.

A avaliação, dentro e fora do Ministério da Justiça, é que o país chegou a um ponto em que prender integrantes de facções, sozinho, já não altera a estrutura criminosa. Os grupos se profissionalizaram, expandiram redes financeiras, ocuparam mercados ilegais sofisticados, atravessaram fronteiras estaduais e passaram a operar com logística própria, comunicação criptografada e comando mantido até de dentro dos presídios.

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O Programa Brasil Contra o Crime Organizado nasce exatamente dessa leitura: a de que as facções hoje funcionam menos como quadrilhas locais e mais como empresas criminosas com capacidade nacional de articulação.

Por isso, o pacote lançado pelo Governo Federal não tem como prioridade principal ampliar policiamento ostensivo. A aposta está em inteligência financeira, bloqueio de comunicação em presídios, integração nacional de dados, rastreamento de armas e fortalecimento da perícia criminal.

Plano federal mira finanças das facções e fortalecimento da perícia criminal
Plano federal mira finanças das facções e fortalecimento da perícia criminal | Foto: Isaac Amorim/MJSP

Na prática, a estratégia tenta atingir aquilo que especialistas classificam como “infraestrutura do crime”.

O professor do Mestrado em Gestão da Segurança Pública, Justiça e Cidadania da Ufba, Horacio Nelson Hastenreiter Filho, avalia que essa é justamente a principal mudança de lógica do plano.

"Eu acho que o plano tem um aspecto que é o fato de ele ter um foco, né, que sai somente do policiamento mais ostensivo e ele vai para uma área que eu acho que é mais portadora de futuro, mais desestruturante do crime organizado, que é usar a estratégia de inteligência e buscar um sufocamento logístico desse crime. Eu acho que isso é muito importante. Então, em termos processuais, eu acho que é bastante inovador o que ele se propõe a fazer."

O dinheiro virou o centro da guerra

A espinha dorsal do programa é a chamada “asfixia financeira” das facções. O entendimento é que as organizações criminosas já não sobrevivem apenas do tráfico de drogas tradicional, mas operam cadeias econômicas complexas, com lavagem de dinheiro, empresas de fachada, circulação interestadual de recursos e reinvestimento constante em armamento e expansão territorial.

O plano prevê fortalecimento das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs), ampliação de estruturas de investigação financeira e maior velocidade no bloqueio e leilão de bens confiscados.

Governo aposta em rastreamento de dinheiro para atingir estrutura das facções
Governo aposta em rastreamento de dinheiro para atingir estrutura das facções | Foto: Reprodução / JP

A lógica é simples: atingir o caixa das facções antes que o dinheiro continue financiando armas, drogas e expansão criminosa.

Para Horacio Nelson, esse talvez seja o ponto mais importante do programa.

"Acho que o orçamento como um todo é um orçamento ainda tímido. Você pegar 11,1 bilhões não é muito dinheiro, fundamentalmente porque a maior parte desse dinheiro é, na verdade, linha de crédito que vai chegar para os estados e municípios comprarem equipamentos. Então, esse tipo de coisa não é efetivamente dinheiro diretamente aplicado, é um dinheiro que vai ser distribuído no país para estados e municípios captarem via linha de crédito do BNDES. Então, é ainda relativamente tímido, mas eu acho que tem alguns pontos que merecem destaque."

"Você ter um foco na inteligência financeira. Eu acho que hoje é esse tipo de sufocamento que a gente tem que pensar no crime organizado: você ter como rastrear o dinheiro, esse caminho do dinheiro, e você conseguir intervir nessa cadeia e efetivamente sufocar esse crime organizado pelo lado financeiro."

O programa prevê R$ 1,06 bilhão em recursos diretos para 2026. Paralelamente, o Governo Federal abriu uma linha de crédito de R$ 10 bilhões para estados e municípios investirem em equipamentos, tecnologia e estrutura operacional.

Apesar disso, especialista apontam que o impacto real dependerá da continuidade do programa e da adesão política dos estados.

Crime organizado que não cabe mais em fronteiras estaduais

O avanço das facções nos últimos anos mudou o mapa da violência no país. Grupos criminosos passaram a operar em múltiplos estados, criar alianças interestaduais e ampliar conexões internacionais.

Esse movimento, segundo analistas da segurança pública, tornou insuficiente o modelo fragmentado em que cada estado combate isoladamente sua própria dinâmica criminal.

"Esse crime organizado não tem mais raízes locais. Você tem estruturas de comando, essas facções maiores, que vão para fora do país, que estão presentes em todo o país. Então, você querer combater pontualmente, territorialmente, isso aqui não faz o menor sentido."

"Acho que hoje você tem que ter realmente uma ação mais integrada, mais nacional. E acho que o governo federal tem que estar presente nessa equação, em forte articulação com o governo estadual.".


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O próprio Ministério da Justiça sustenta que o programa nasce da necessidade de integração permanente entre União e estados.

O coordenador-geral de Combate ao Crime Organizado do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Getúlio Monteiro, afirma que o enfrentamento às facções exige compartilhamento de inteligência e atuação conjunta.

"É a União não furtando a sua obrigação de colaborar, de estar junto. Nesse tema de combate ao crime organizado, não podemos ficar apegados à atribuição de A, atribuição de B, atribuição de C. Tem que estar todos juntos. Então, a União está cada dia mais presente. Hoje, todos os projetos do Governo Federal têm a participação de quem está na linha de frente."

"Têm a participação do titular da delegacia de combate ao crime organizado, têm a participação dos delegados federais. Então, é uma construção coletiva. E, dessa forma, temos certeza de que vamos estar no caminho correto, que é o caminho do combate ao crime organizado."

O poder das facções dentro dos presídios

Se existe um ponto em que praticamente todos os diagnósticos convergem é o sistema prisional.

O programa federal trata os presídios não apenas como locais de custódia, mas como centros de operação criminosa que seguem funcionando mesmo após a prisão das lideranças.

O plano prevê instalação de bloqueadores de celular, scanners corporais, drones, equipamentos de monitoramento e operações permanentes de varredura em unidades consideradas estratégicas.

A meta do Governo Federal é implantar um padrão de segurança máxima em 138 presídios estaduais.

Governo aposta em tecnologia e integração para enfrentar crime organizado
Governo aposta em tecnologia e integração para enfrentar crime organizado | Foto: Agência Brasil | Marcelo Camargo

Segundo Horacio Nelson, o uso de celulares transformou completamente a dinâmica do crime organizado no país.

"Acho que com esse uso de celulares que a gente tem, você prende aquele cara que é o comando da cadeia, o cara que está no topo da pirâmide hierárquica do crime organizado, ele vai para a cadeia e não perde a função. Ele continua no comando, utilizando o celular, dando as ordens, dando as diretrizes e se comunicando. Então, isso é essencial para você desbaratar, para você desorganizar essa estrutura do crime organizado. Eu acho que isso é muito importante. Você pode perguntar: “Mas não poderia evitar a entrada de celulares?”."

"O sistema prisional realmente é um ponto que necessita de atenção. Mandam, fazem golpe via celular de dentro do sistema prisional. Então, é pegar e tentar retirar esses celulares, fazer varreduras e tirar celulares e armas de dentro do sistema prisional."

O especialista também afirma que o problema não pode ser explicado apenas pela fragilidade estrutural dos presídios.

"Isso certamente seria absolutamente impossível você pensar que tenha acesso a esse tipo de recurso dentro do sistema criminal sem conivência de parte da estrutura do Estado. Isso certamente acontece, mas, na hora que você instaurar varreduras, acabou. Tá lá, chegou, mas vai ser identificado. Vai ser identificado e vai ser recolhido."

Resolver homicídios virou parte da estratégia

Outro ponto considerado central no programa é o fortalecimento da investigação de homicídios.

O Brasil historicamente convive com baixas taxas de resolução de assassinatos, cenário que pode ajudar a alimentar a sensação de impunidade e fortalece o poder territorial das facções.

O programa prevê investimentos em perícia, DNA, bancos genéticos, análise balística e modernização dos Institutos Médico-Legais.

"São quatro pilares principais. Primeiro é a asfixia financeira. Acho que é o mais inovador, porque você vai conseguir realmente tirar esse insumo das facções. O outro, que eu falo que é mais ligado à questão da tecnologia de perícia, é ampliar a capacidade de investigar homicídios. Então, isso também é muito importante. A taxa de resolução de homicídios no Brasil é extremamente baixa, mas muito baixa mesmo, inferior a 10%."

"Então, fortalecer a polícia científica, eu acho que é muito importante. Você ter estruturas hoje ligadas à genética também para poder fazer essa investigação. Então, acho que a gente consegue estruturar uma área que pode ser bastante utilizada para que a gente tenha um percentual maior de esclarecimento dos homicídios."

O risco de reação das facções

Há também um alerta: medidas que atingem diretamente comunicação, dinheiro e logística das facções tendem a provocar reação.

"Num primeiro momento, eles (facções) terão uma reação. Você interromper o fluxo de comunicação nas prisões é extremamente nefasto para eles e, sem dúvida, deve gerar reações. Você não consegue jogar as sujeiras para debaixo do tapete, elas têm que ser evidenciadas. Então, antes de melhorar, certamente a gente imagina um cenário que vai se agudizar em algum momento."

Bahia já aplica parte da lógica do programa

Na Bahia, o secretário da Segurança Pública, Marcelo Werner, afirma que parte das medidas anunciadas pelo Governo Federal já vem sendo aplicada pelo estado, principalmente no fortalecimento das ações integradas e no combate patrimonial às facções.

Secretário da Segurança Pública, Marcelo Werner
Secretário da Segurança Pública, Marcelo Werner | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

"Acerca do plano, além de injetar recursos, que são de suma importância para a continuidade dos investimentos, aquisição de equipamentos de inteligência, de perícia, de armamentos, viaturas e todos os meios necessários para o plano de segurança pública, ele também trabalha em outras frentes e, repito, são algumas linhas que já estão sendo adotadas aqui na Bahia, a exemplo do fortalecimento do sistema prisional, do fortalecimento das ações integradas no sistema prisional e das forças de segurança estaduais."

"Ele também trabalha num viés de recuperação de ativos, fortalecer essa política de recuperação de ativos, fortalecer as ações de prevenção, as ações articuladas entre o Governo Federal e o estadual, em especial na identificação das facções e no combate a elas, inclusive com novas medidas judiciais que poderão ser adotadas a partir da nova lei antifacção. Então, a expectativa é muito grande para que a gente possa recepcionar esse pacote, para que esse pacote efetivamente venha ainda mais fortalecer a nossa rede de combate às facções, não só no estado da Bahia, mas em todo o Brasil."

Um plano de longo prazo em meio à disputa política

O novo programa surge num momento em que a segurança pública volta ao centro do debate político nacional e se consolida como um dos temas mais sensíveis para o eleitorado.

Ao mesmo tempo, especialistas avaliam que os efeitos concretos dificilmente serão imediatos.

"Ele também tem um tempo de resposta menor. Então, é uma desestruturação efetivamente do crime mais organizado e que vai rebater, eu acho, nesse tipo de criminalidade com um retardo temporal razoável."

Horacio Nelson avalia que a continuidade política do programa será determinante para medir sua eficácia.

"Acho que, assim, mantido esse programa para o ano que vem, pós-eleição, eu acho que é um programa que tem todas as condições de vingar."

Para ele, o principal desafio talvez não esteja apenas na tecnologia ou no investimento financeiro, mas na capacidade do Estado de enfrentar redes criminosas que já ultrapassaram fronteiras locais e, em muitos casos, estabeleceram conexões dentro da própria máquina pública.

"Então, esse enfrentamento que eu acho que é a questão mais difícil, porque aí é um processo que vai significar cortar a própria carne. As instituições, todas as instituições, qualquer que seja a instituição, têm um certo nível de corporativismo. Então, é difícil você intervir nessa realidade."

Segurança pública e impacto internacional

Em meio às mudanças de estratégia no combate ao crime organizado no Brasil, especialistas também chamam atenção para um outro eixo que começa a ganhar relevância: o impacto internacional das facções brasileiras e o modo como o tema tem entrado na agenda diplomática do país.

O avanço de organizações como o CV e o PCC sobre rotas transnacionais de tráfico e lavagem de dinheiro passou a inserir a segurança pública brasileira em debates que ultrapassam as fronteiras nacionais, especialmente em discussões com os Estados Unidos sobre cooperação em inteligência e combate ao narcotráfico.

Esse cenário também é analisado à luz das recentes movimentações diplomáticas envolvendo os dois países e da possibilidade de endurecimento da classificação internacional de grupos criminosos brasileiros, além de reuniões de alto nível entre lideranças dos dois governos.

Para o mestre em Relações Internacionais e doutorando em Ciências Militares, Neuton Silva Neto, o novo programa federal se insere nesse contexto mais amplo, em que o enfrentamento às facções passa a dialogar diretamente com agendas externas e estratégias de cooperação internacional.

“Vai ter um investimento de mais de um bilhão vindo do governo, mas

Encontro entre Lula e Trump na Casa Branca
Encontro entre Lula e Trump na Casa Branca | Foto: Reprodução / Redes Sociais

além do financiamento, acho que de aproximadamente 910 bilhões vindo do BNDES, para financiar diretamente os estados."

"O governo federal vem tentando atacar justamente a questão do tráfico de armas e também criar inteligência para asfixiar financeiramente as facções criminosas, além, claro, de criar um núcleo de inteligência na tentativa de evitar que novas ordens partam de presídios para as facções criminosas.”

O especialista avalia que a mudança de foco do governo, do confronto direto para a inteligência e o enfraquecimento estrutural das facções, também tem impacto político e estratégico dentro do cenário interno.

“Vai ser um assunto bem interessante, já que esse é meio que um calcanhar de Aquiles da esquerda brasileira: a questão da segurança pública. Então, o governo Lula vem tentando, em vez de fazer um investimento em combate ostensivo, investir em inteligência na tentativa de asfixiar e enfraquecer as facções criminosas.”

Na avaliação dele, esse reposicionamento se conecta diretamente às recentes discussões diplomáticas envolvendo Brasil e Estados Unidos, especialmente diante da preocupação com o alcance internacional das facções brasileiras.

“Qual o impacto que teve com a reunião de Donald Trump? Pelo que eu entendi nas leituras que vim fazendo nesses últimos dias, houve uma reunião entre Lula e Trump em que presencialmente houve esse tópico, que é sensível para os dois países, tendo em vista que as facções criminosas aqui do Brasil conseguem colocar drogas e traficar drogas diretamente para os Estados Unidos, gerando um problema lá e aqui.”

“Então, um dos focos do presidente Lula com Trump no debate foi uma cooperação internacional no sentido de tentar também combater essas facções criminosas, com informações dos Estados Unidos e daqui do Brasil."

Então, provavelmente, é uma troca de informações de inteligência na tentativa de detectar os movimentos, se não serem, dessas facções, e tentar asfixiá-las tanto aqui quanto por lá.”

Segundo Neuton Silva Neto, a cooperação internacional na área de segurança já começa a aparecer em declarações oficiais e pode se intensificar diante de dificuldades internas no avanço de reformas estruturais no setor.

“Então, quem se pronunciou diretamente sobre esse processo de cooperação foi o diretor-geral da Polícia Federal do Brasil. A gente tem uma expectativa, tendo em vista que a PEC da Segurança Pública está emperrada no Senado, uma expectativa boa desse grau de investimento, mas é claro que o presidente Lula deixou bem claro que não vai obrigar os estados a pegar esse financiamento, mas que vai ser facultativo."

"Meio que ele joga também um abacaxi no colo dos governadores: se vocês quiserem ter o dinheiro, ele vai estar disponível pelo BNDES; se vocês não quiserem, vocês não vão estar cooperando no combate às facções.”

O especialista finaliza destacando que os efeitos do novo modelo devem ser graduais e dependem de tempo para maturação dos resultados.

“Vamos ver agora, para frente, quais serão os resultados. E aí a gente pode tentar vislumbrar, primeiramente, que os resultados de inteligência não são produzidos em curtíssimo ou curto prazo, mas talvez ao longo do ano a gente já tenha algum possível resultado dessa ação.”

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