POLÍCIA
Quem é Adilsinho, o maior bicheiro e chefe da máfia do cigarro preso no RJ
Após anos como um dos mais procurados do estado, o contraventor é descrito por investigadores como peça central na engrenagem da contravenção no Rio

Apontado há anos pelas forças de segurança como o principal nome da contravenção no estado do Rio de Janeiro, Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, figurava entre os criminosos mais procurados do estado. Contra ele havia cinco mandados de prisão preventiva em aberto, além de investigações em curso na esfera federal e estadual.
Para investigadores, tratava-se do maior bicheiro em atividade no Rio e do principal articulador do esquema de produção e distribuição de cigarros falsificados que avançou por dezenas de municípios fluminenses.
Mais do que um bicheiro tradicional, investigadores o descrevem como peça central na modernização e diversificação da contravenção, com atuação que vai do jogo do bicho ao monopólio da venda de cigarros falsificados.

Da herança da Baixada ao domínio da capital
Considerado herdeiro da contravenção na Baixada Fluminense, Adilsinho faz parte da cúpula do jogo do bicho no Rio e controla áreas estratégicas da Zona Sul, do Centro e da Zona Norte da capital.
Segundo investigações, sua influência cresceu paralelamente ao enfraquecimento de antigos chefes da contravenção. Com estrutura organizada, divisão de funções e domínio territorial, o grupo a ele ligado teria consolidado poder por meio de alianças e do uso sistemático de intimidação para assegurar exclusividade nos pontos de exploração.
O 'Poderoso Chefão' da máfia do cigarro
Nos últimos anos, Adilsinho ampliou sua atuação para além do jogo do bicho. Ele é apontado pela Justiça Federal como chefe de um esquema de produção e distribuição de cigarros falsificados no estado.
A chamada “máfia do cigarro” teria passado a controlar ao menos 45 dos 92 municípios fluminenses. Segundo as investigações, comerciantes eram obrigados a vender exclusivamente os produtos do grupo. Quem descumprisse a determinação correria risco de sofrer represálias.
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Relatórios apontam que o esquema envolvia fábricas clandestinas, centros de armazenamento, rotas próprias de distribuição e imposição de regras a vendedores. A suspeita é de que os recursos obtidos com o comércio ilegal tenham sido reinvestidos para fortalecer tanto a estrutura logística quanto o domínio territorial da organização.
Operação Libertatis e trabalho análogo à escravidão
Adilsinho foi alvo da Operação Libertatis, deflagrada pela Polícia Federal em 2023 e novamente em 2025. A investigação mirou crimes como tráfico de pessoas, redução à condição análoga à de escravo, fraude comercial, sonegação fiscal e delitos contra as relações de consumo.
Na primeira fase, agentes localizaram uma fábrica clandestina em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde 19 paraguaios foram encontrados trabalhando em condições degradantes. Segundo a PF, eles cumpriam jornadas exaustivas, viviam no próprio local sem condições mínimas de higiene e não recebiam remuneração.
Adilsinho era um dos alvos da segunda fase da operação, mas não havia sido localizado até então.
Disputas e acusações de homicídio
Contra ele havia cinco mandados de prisão preventiva: quatro por homicídio e um por organização criminosa.
As acusações incluem a morte de Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinhos Catiri, executado em 2022 em uma academia. A Delegacia de Homicídios da Capital apontou como motivação a disputa territorial por pontos de jogo do bicho e máquinas caça-níqueis.
Também são atribuídas a ele as mortes de Fabrício Alves Martins de Oliveira e de Fábio Alamar Leite, este último assassinado ao sair do enterro do sócio. As investigações relacionam os crimes à disputa pelo controle da cadeia do cigarro ilegal.
Além disso, a polícia apura possível envolvimento em pelo menos 27 crimes cometidos por um grupo de extermínio.
Do submundo ao futebol
Em 2010, Adilsinho fundou o Clube Atlético Barra da Tijuca, equipe que disputa divisões inferiores do Campeonato Carioca. Ele foi presidente do clube, atuou como atacante e batedor oficial de pênaltis.

Entre 2011 e 2018, disputou 63 partidas e marcou 10 gols, chegando a ser apontado como um dos jogadores mais velhos em atividade no país. Funcionários do clube são investigados por suposta ligação com sua organização criminosa.
Luxo e ostentação
Em 2021, Adilsinho promoveu uma festa para cerca de 500 convidados no Copacabana Palace para celebrar seus 51 anos. O evento, realizado no auge da pandemia de Covid-19, contou com shows de artistas como Gusttavo Lima, Ludmilla, Alexandre Pires e Dudu Nobre.
O convite fazia referência ao filme O Poderoso Chefão, reforçando a imagem de poder cultivada pelo contraventor.
Histórico de operações
O nome de Adilsinho aparece em grandes operações contra a contravenção no estado. Em 2009, foi alvo da Operação Furacão, que investigou a cúpula do jogo do bicho e o uso de máquinas caça-níqueis para lavagem de dinheiro. Ele chegou a ser condenado a três anos e meio de reclusão, mas teve a pena posteriormente extinta por decisão judicial.
Em 2011, durante a Operação Dedo de Deus, policiais encontraram R$ 4,6 milhões escondidos em fundos falsos de paredes e na rede de esgoto de sua residência na Barra da Tijuca.
Estrutura e influência
Relatórios das forças de segurança descrevem a organização ligada a Adilsinho como estruturada, hierarquizada e com atuação armada para garantir monopólio territorial. Ele é apontado como articulador financeiro, responsável por conectar fornecedores, operadores logísticos e distribuidores.
Ao longo dos anos, passou a figurar como alvo prioritário em investigações sobre organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção e crimes tributários.
Com a prisão, ele passa a responder aos mandados judiciais pendentes. Para investigadores, sua trajetória simboliza a transformação da contravenção tradicional em um modelo mais empresarializado, com forte diversificação de atividades ilícitas e influência em diferentes setores.
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