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Rota da exploração: Bahia concentra quase 40% dos registros de tráfico humano no Brasil

Levantamento do Anuário mostra avanço dos registros de tráfico humano e barreiras para o combate

Luan Julião
Por
Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 traça o cenário do tráfico humano no país
Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 traça o cenário do tráfico humano no país - Foto: ONU/Martine Perret

O tráfico de pessoas, um dos crimes mais silenciosos e difíceis de identificar, ganhou uma dimensão alarmante na Bahia. Dados inéditos do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostram que o estado registrou 172 notificações de tráfico de seres humanos em 2025, o maior número entre todas as unidades da Federação.

O volume chama atenção não apenas pela liderança estadual, mas pela distância em relação aos demais estados brasileiros. A Bahia respondeu sozinha por 39,7% dos 433 casos registrados em todo o país pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.

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O segundo estado com maior número de registros foi São Paulo, com 42 notificações, menos de um quarto do total baiano.

O cenário coloca a Bahia no centro do debate sobre uma modalidade criminosa que, apesar de possuir legislação específica e estar inserida em agendas internacionais de combate, ainda enfrenta desafios para ser plenamente identificada e combatida.

Um salto que colocou a Bahia no topo do ranking nacional

A série histórica analisada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela uma mudança significativa no cenário baiano.

Em 2017, primeiro ano analisado pelo levantamento, a Bahia tinha registrado apenas 7 notificações de tráfico humano. O número permaneceu relativamente estável nos anos seguintes, variando entre 8 e 17 registros até 2022.

A partir de 2023, porém, houve uma aceleração:

  • 2023: 25 notificações;
  • 2024: 48 notificações;
  • 2025: 172 notificações.

Em apenas dois anos, o crescimento foi de aproximadamente 588%.

O aumento pode indicar uma maior capacidade de identificação dos casos pelos serviços públicos, mas também acende um alerta sobre a existência de uma rede de exploração que durante anos permaneceu invisível aos registros oficiais.

O crime que acontece longe dos olhos da sociedade

O tráfico de pessoas envolve o recrutamento, transporte, transferência ou controle de pessoas por meio de ameaça, violência, fraude ou abuso de vulnerabilidade com objetivo de exploração.

Essa exploração pode ocorrer de diferentes formas, como:

  • exploração sexual;
  • trabalho análogo à escravidão;
  • adoção ilegal;
  • servidão;
  • remoção de órgãos;
  • exploração criminosa.

Segundo especialistas ouvidos pelo Anuário, a principal dificuldade no enfrentamento está justamente na invisibilidade. Muitas vítimas não conseguem denunciar, não se reconhecem como vítimas ou permanecem submetidas a ameaças e dependência econômica ou emocional dos criminosos.

Na prática, o número registrado representa apenas uma parcela dos casos existentes.

Bahia concentra mais notificações, mas investigação ainda é desafio

Apesar do crescimento das notificações pelo sistema de saúde, o combate ao tráfico humano enfrenta um obstáculo conhecido como "funil institucional".

Os dados revelam um descompasso entre a identificação das possíveis vítimas e a resposta das forças de segurança. Em 2025, a Bahia registrou 172 notificações de tráfico de pessoas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o maior número entre todos os estados brasileiros e equivalente a quase 40% dos casos registrados no país.

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No entanto, quando o olhar se volta para a atuação policial, o cenário muda. De acordo com o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública com dados da Polícia Federal, a Bahia teve 6 inquéritos instaurados pelo crime de tráfico de pessoas no mesmo ano.

A diferença entre os dois indicadores evidencia um dos principais desafios no enfrentamento ao crime: transformar sinais identificados na rede de proteção em investigações capazes de responsabilizar os envolvidos.

Enquanto o sistema de saúde atua na identificação de possíveis vítimas a partir de atendimentos e notificações compulsórias, a investigação criminal depende da reunião de provas, identificação dos responsáveis, comprovação da exploração e outros elementos necessários para a abertura de um procedimento policial.

O chamado “funil investigativo” mostra que o caminho entre uma vítima ser reconhecida e uma organização criminosa ser desarticulada ainda é longo. No caso baiano, os números indicam que centenas de pessoas chegaram ao radar dos serviços públicos, mas apenas uma pequena parcela resultou em investigações formais pela Polícia Federal.

Do aliciamento presencial ao recrutamento pela internet

O tráfico humano também mudou de forma. Se antes o crime era associado principalmente ao deslocamento físico e ao controle direto das vítimas, hoje as redes criminosas utilizam cada vez mais ferramentas digitais.

Promessas falsas de emprego, oportunidades no exterior, altos salários e investimentos são usadas como estratégias de aliciamento.

Uma nova fronteira do crime são os chamados scam centres, centros clandestinos onde vítimas traficadas são obrigadas a aplicar golpes digitais contra pessoas de diferentes países.

Nesses locais, criminosos combinam tráfico humano, trabalho forçado, fraude financeira e crimes cibernéticos.

O avanço tecnológico passou a criar uma nova camada de dificuldade para investigadores, que precisam lidar com redes internacionais, movimentações financeiras digitais e provas armazenadas em ambientes virtuais.

Um problema nacional que cresce e ainda permanece subnotificado

Os números nacionais também mostram crescimento dos registros.

Em 2017, o Brasil teve 176 notificações de tráfico humano pelo SUS. Em 2025, foram 433 casos, o segundo maior resultado da série histórica, atrás apenas de 2023, quando foram registrados 449.

Além da Bahia, outros estados aparecem com números elevados, como:

  • São Paulo: 42 casos;
  • Rio Grande do Sul: 32 casos;
  • Minas Gerais: 25 casos;
  • Paraná: 24 casos;
  • Rio de Janeiro: 23 casos.

Mas o próprio Anuário alerta que os dados não representam necessariamente a totalidade do crime.

A ausência de um sistema nacional integrado dificulta a produção de um diagnóstico completo. Hoje, diferentes órgãos registram informações separadamente, criando uma fragmentação que pode esconder a real dimensão do tráfico de pessoas.

O desafio de transformar números em proteção

Para especialistas, combater o tráfico humano exige mais do que operações policiais. É necessário fortalecer a prevenção, melhorar canais de denúncia, integrar bancos de dados e capacitar profissionais que atuam na identificação das vítimas.

O crescimento dos registros na Bahia mostra que o problema deixou de ser invisível para as estatísticas. O próximo desafio é transformar esses números em respostas efetivas: identificar criminosos, proteger vítimas e impedir que novas pessoas sejam capturadas por redes de exploração.

Porque, no tráfico de pessoas, o primeiro passo para combater o crime é enxergar aquilo que durante anos permaneceu escondido.

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Bahia Crimes Invisíveis Exploração Humana segurança pública tráfico de pessoas Violência e Direitos Humanos

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