ESTRATÉGIA
Com alta de 600% no SUS, governo rastreia viciados em bets
Mapeamento por CPF permite que Ministério da Saúde contate apostadores para teleatendimento



O avanço descontrolado da dependência em jogos virtuais no país levou o Ministério da Saúde a adotar uma medida inédita de rastreio populacional.
Após registrar uma alta superior a 600% na procura por tratamento contra a ludopatia no Sistema Único de Saúde (SUS), o Governo Federal iniciou a busca ativa de cidadãos com sinais de vício em apostas digitais (bets).
A estratégia foi detalhada pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante agenda oficial em Belo Horizonte neste sábado, 26, um dia após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretar o banimento completo do setor no território nacional.
Para localizar os afetados, o governo utilizou o cruzamento de dados dos Registros de Pessoas Físicas (CPFs) cadastrados nos sites de apostas que operavam no país.
Com base nesses registros, a pasta traçou um perfil comportamental dos usuários e passou a enviar notificações diretamente aos celulares dos cadastrados, oferecendo consultas virtuais de saúde mental.
Mapeamento
Estratégia de rastreio e atendimento público:
- Triagem por CPF: cruzamento de dados de plataformas autorizadas permitiu identificar o perfil dos usuários em risco.
- Notificação direta: envio de mensagens oferecendo consultas na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
- Acesso simplificado: atendimentos ocorrem pelo aplicativo Meu SUS Digital, via plataforma AgSUS.
- Apoio familiar: alta procura feminina impulsionada por mães e esposas impactadas pelo vício de parentes.
Sinais de alerta
O serviço de teleatendimento é integrado à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e pode ser acessado pelo aplicativo Meu SUS Digital, com redirecionamento para o sistema AgSUS.
As consultas são conduzidas por equipes multidisciplinares formadas por psicólogos, enfermeiros e profissionais especializados em escuta qualificada.
De acordo com a pasta, os sintomas característicos do transtorno de jogo compulsivo incluem:
- Alterações severas no padrão de sono e alimentação;
- Oscilações bruscas de humor e crises de ansiedade;
- Episódios de irritabilidade elevada quando o indivíduo está impossibilitado de apostar.
"Mandamos mensagem para esses CPFs chamando para o teleatendimento, ofertando consulta no Sistema Único de Saúde. Abrimos o serviço não só para quem está com o vício, mas para os familiares afetados", disse Alexandre Padilha, ministro da Saúde
Veto às empresas
A decisão de proibir integralmente as bets no Brasil baseou-se em indicadores colhidos pela atenção primária.
Desde a criação da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, em dezembro de 2025, mais de 1,5 milhão de brasileiros solicitaram o bloqueio voluntário do próprio CPF para impedir o acesso a sites de apostas.
Levantamentos do Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da Fazenda apontam ainda uma assimetria de gênero: embora a maioria dos apostadores seja formada por homens, são as mulheres — jogadoras e familiares de dependentes — que mais procuram suporte psicológico na rede pública.