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DENÚNCIA

Corrupção na Câmara de Vereadores de Salvador

Sob comando de Carlos Muniz, CMS paga R$ 17 mi por tecnologia precária e turbina publicidade

Redação
Por Redação
Câmara Municipal de Salvador
Câmara Municipal de Salvador - Foto: Divulgação/CMS
Eleições 2026

A Câmara Municipal de Salvador desembolsou quase R$ 17 milhões em despesas de tecnologia da informação entre janeiro e agosto de 2026. A montanha de dinheiro gasto deveria financiar sistemas, computadores, manutenção, controle de acesso e ferramentas digitais capazes de dar eficiência à rotina do Legislativo. Mas entre as cifras repassadas e a realidade, a distância é enorme.

Segundo servidores concursados ouvidos por A TARDE, a modernização prometida jamais chegou: computadores lentos, redes que caem, programas que travam, equipamentos que demoram a ser consertados e até catracas que falham na entrada do prédio.

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A distância entre o volume de recursos pagos e os problemas relatados abre uma série de perguntas sobre a fiscalização dos contratos, a comprovação dos serviços executados e a efetividade dos gastos públicos.

De acordo com documentos internos obtidos pela reportagem, os registros disponíveis somam exatos R$ 16.967.856,67 em despesas com três empresas de tecnologia nos oito primeiros meses do ano. Não se trata do valor global dos contratos, mas de gastos lançados e efetivamente pagos pelos cofres públicos no período. Ainda assim, a dimensão dos pagamentos contrasta com a precariedade descrita por funcionários que dependem dessas ferramentas para trabalhar.

Carlos Muniz, presidente da Câmara Municipal de Salvador
Carlos Muniz, presidente da Câmara Municipal de Salvador

“A Câmara de Vereadores tem milhões em contratos de informática, e o básico continua faltando: Aqui, computador não funciona, rede vive caindo, enfim, o sistema não permite que a gente trabalhe com o mínimo de eficiência. Muitas vezes não temos nada funcionando. Tanto dinheiro pra quê? Há ocasiões em que a gente fica de braços cruzados sem ter o que fazer porque tudo na área de informática paralisa”, afirma um dos servidores ouvidos, cuja identidade foi mantida em sigilo por receio de represálias.

O desabafo do servidor não é apenas sobre máquinas antigas ou programas que rodam a passos de tartaruga manca. É também muito maior do que queixas comuns sobre falta de condições de trabalho em órgãos públicos. A questão é: se o dinheiro que sai do bolso suado do contribuinte está sendo gasto em escala milionária, quais entregas justificam os pagamentos? Quem verifica se os sistemas funcionam? Quantos equipamentos foram disponibilizados e estão em operação? E, sobretudo, quais mecanismos impedem que serviços semelhantes sejam remunerados mais de uma vez?

Ao olhar a cesta de contratos da Câmara de Vereadores, um deles salta aos olhos com figurino de suspeita. Trata-se do negócio firmado com a Sudoeste Informática e Consultoria. Apenas de janeiro a agosto deste ano, a empresa abocanhou nada menos que R$ 9,8 milhões. Desse montante, R$ 9,26 milhões se referem ao desenvolvimento, manutenção e treinamento na plataforma Maker All, utilizada a partir do acordo com o consórcio ASTEC III, no valor de R$ 12,3 milhões.

Pelo que foi acordado entre a empresa e o Legislativo municipal, a dinheirama gasta é referente ao desenvolvimento e manutenção de sistemas, portais e aplicativos para a Casa, além de suporte técnico. Algo que, como o leitor pôde ler acima, só existe no reino da fantasia digital tocado pelo (ainda) presidente da Câmara, Carlos Muniz (PSDB).

Relatos revelam serviços pagos, mas inexistentes

Embora grande, o volume financeiro pago pela Câmara de Vereadores de Salvador para manter o aparato de tecnologia da informação a plenos pulmões, por si só, não é prova de irregularidade. Em contrapartida, torna indispensável uma prestação de contas detalhada. Sobretudo quando os relatos internos obtidos por A TARDE apontam que computadores, software, sistema, aplicativos e rede interna abrangidos nos contratos não atendem às necessidades dos setores que fazem a máquina do Legislativo girar.

“Quando o sistema falha, a empresa deveria resolver. Às vezes demora; às vezes resolve, mas o defeito volta logo depois. E ninguém explica aos colaboradores e funcionários da CMS porque uma ferramenta contratada para ajudar continua atrapalhando”, afirma outro servidor entrevistado pela reportagem.

“Existe contrato para desenvolver e modernizar sistemas, mas os setores esperam há muito tempo pelas mesmas funcionalidades. Algumas parecem que nunca vão ficar prontas. Enquanto isso, trabalhamos com limitações que já deveriam ter sido superadas”, emenda o mesmo servidor, que pertence ao quadro efetivo da Câmara

Para completar a lambança informática da CMS, há ainda problemas que resvalam nas leis que tipificam improbidade administrativa do Poder Público. Vejamos: a obrigação definida em contrato é testar, documentar e entregar os sistemas, além de corrigir defeitos graves, torna indispensável os relatórios de execução e os termos de aceite técnico. Sem tais documentos, não é possível atestar se os valores pagos correspondem a programas efetivamente concluídos e aprovados.

“Sistema entregue que não atende ao setor não está entregue. Não basta dizer que o programa foi concluído; é preciso provar por A mais B que funciona e resolve o problema para o qual foi contratado”, acrescenta outro servidor. Trocando em miúdos, é como pagar por coelho e receber lebre.

Gastos de R$ 5,8 milhões em equipamentos e catracas que existem, mas não funcionam

O contrato da Câmara de Vereadores com a DW3 Serviços Especializados é a prova de que não existe nada tão ruim que não possa piorar. A empresa recebeu R$ 5,8 milhões em despesas registradas pelo Legislativo municipal entre janeiro e agosto de 2026. Na conta, estão R$ 2,83 milhões pelo aluguel de equipamentos de informática, R$ 1,31 milhões pelo sistema de gestão empresarial conhecido no jargão da TI como ERP, mais R$ 1,5 milhão pelo controle de acesso com catracas e reconhecimento facial e mais R$ 154,5 mil em ressarcimento por equipamentos danificados no incêndio de fevereiro de 2025.

A julgar pelos números nada modestos, é de se imaginar que a Câmara Municipal de Salvador seja um oásis em matéria de informática, já que o volume pago tem como justificativa custear uma estrutura de serviços capazes de assegurar máquinas disponíveis, sistemas de gestão operacionais e controle de acesso funcional de alta tecnologia. Novamente, os relatos dos servidores apontam dificuldades em série justamente nesses três eixos do contrato.

“Trabalhamos com computadores lentos e máquinas antigas. Conseguir uma impressora ou um scanner, coisas simples, é uma luta diária. Pior é quando a gente vê o quanto se gasta com locação de equipamentos, a pergunta é inevitável: por que isso ainda falta?”, indaga um dos servidores concursados entrevistados por A TARDE.

Para responder a interrogação acima seriam necessárias informações que não aparecem nos registros financeiros da Casa. Basicamente, o inventário de máquinas, as especificações dos equipamentos, a quantidade efetivamente entregue, os locais de instalação, o período de disponibilidade e as notas de manutenção realizada. Sem esses dados, é impossível se a estrutura contratada foi de fato entregue. Mais do que isso: se é compatível com as necessidades da Câmara ou se o dinheiro está escorrendo por algum ralo oculto.

“Até para entrar no prédio há problema: a catraca trava, e o transtorno se repete dia após dia. Isso não deveria ser rotina numa instituição que contrata uma solução específica de controle de acesso a um custo tão alto”, ressalta outro funcionário de carreira da CMS.

Duas empresas concentram mais de 92% dos pagamentos

A distribuição das despesas da Câmara de Vereadores com Tecnologia da Informação merece uma lente à parte. Dos quase R$ 17 milhões registrados em nome das três empresas que prestam serviços de informática e fornecem equipamentos à Casa, quase 58% foram destinados à Sudoeste e mais 34% à DW3. A terceira, a DO Serviços de Tecnologia, fica na rabeira, com aproximadamente 8% do bolo.

A concentração em duas empresas não constitui, de forma isolada, prova de favorecimento ou ilegalidade. O problema está na necessidade de demonstrar o que cada fornecedor executa, como os serviços são fiscalizados e se existe separação técnica entre objetos contratados por empresas diferentes.

Os registros obtidos pela reportagem mencionam desenvolvimento e manutenção de sistemas associados à Sudoeste e ao contrato da ASTEC III. A DW3 fornece ERP e outras soluções tecnológicas. A DO Serviços responde por sistema de solicitações e atendimento automatizado. São objetos que podem ter funções distintas, mas sua delimitação precisa ser demonstrada para afastar sobreposições e pagamentos duplicados.

“São várias empresas de tecnologia contratadas, e, quando algo dá errado, ninguém sabe a quem cobrar. O servidor só enxerga duas coisas: muitos contratos e os mesmos problemas”, resume um dos servidores efetivos contactados por A TARDE. “Queremos saber o que cada empresa entrega de fato. Uma estrutura desse tamanho só se justifica se o resultado aparece no dia a dia. O que não ocorre”, conclui.

Fenômeno em reajuste de contrato e reclamações

A terceira empresa da lista de contratadas pela CMS, a DO Serviços de Tecnologia, teve R$ 1.344.949,12 em despesas registradas nos oito primeiros meses de 2026. O contrato abrange um sistema de gestão de solicitações e atendimento automatizado.

O valor pago mensalmente, que era de R$ 130 mil, passou para R$ 168 mil, reajuste de 29%. Com o novo preço válido por 12 meses, o custo anual com a DO chega a R$ 2 milhões, gerando um custo adiciona aos cofres públicos de R$ 457 mil.

O contrato prevê correção de erros e falhas sem cobrança adicional durante a execução e por três meses após o encerramento, com atendimento de acordo com a gravidade das ocorrências. É preciso esclarecer quais critérios justificaram o aumento, que serviços estão incluídos no novo preço e quais indicadores demonstram melhoria na qualidade do atendimento.

Os relatos de sistemas lentos, falhas recorrentes e funcionalidades insuficientes tornam a explicação ainda mais necessária. Um reajuste ou uma alteração contratual pode ser legítimo, mas deve estar amparado nas regras aplicáveis e em justificativas documentadas. O valor maior não pode ser tratado como sinônimo de serviço melhor.

Rede cai, sistemas travam e até o Plenário é afetado

A precariedade descrita pelos servidores atravessa toda sorte de setores da Câmara de Vereadores. Os relatos incluem conexão interrompida durante procedimentos administrativos, ferramentas que deixam de responder e funcionários obrigados a improvisar para concluir tarefas. A boa e velha gambiarra, só que a um gasto de milhões.

O desabafo de um dos diversos servidores que aceitaram conversar com a reportagem resume o quadro: “A rede cai no meio do procedimento, e tudo para. Não é um episódio isolado. Acontece de novo e de novo e de novo e segue o baile. Já virou rotina. Pior do que a falha é ver que ela passou a ser tratada como normal. Pior que não é só a internet. É sistema lento, ferramenta que trava. No fim, o servidor improvisa para tentar fazer o próprio trabalho.”

Nem o painel eletrônico utilizado nas sessões do plenário escapa das queixas. A ferramenta integra uma das rotinas mais importantes da atividade legislativa e, quando apresenta falhas, pode comprometer trabalhos que dependem exclusivamente do seu bem funcionamento.

Às vésperas da campanha eleitoral, despesas com publicidade disparam

As dúvidas sobre os gastos com tecnologia não são o único ponto que exige explicações nos contratos da Câmara Municipal de Salvador. Os gastos relativos à publicidade também apresentam mudança abrupta de volume em 2026. Curiosamente, no período que antecedeu o tiro de largada da campanha eleitoral.

A W4 Comunicação & Marketing, uma das duas agências de publicidade contratadas pelo Legislativo municipal, registrou R$ 2,35 milhões em despesas de janeiro a junho. Somente em julho e agosto, o valor somou R$ 2,9 milhões, bem mais do que em todo o primeiro semestre. Apenas em agosto foram R$ 1,76 milhão, quase sete vezes o montante registrado em janeiro.

A coincidência temporal chama a atenção. As convenções partidárias ocorreram entre 20 de julho e 5 de agosto, e a campanha eleitoral começou em 16 de agosto. O primeiro turno foi realizado em 4 de outubro. Os números, isoladamente, não demonstram desvio de finalidade nem provam que os recursos tenham beneficiado candidatos. Mas justificam a pergunta que não deve ser calada: o que foi veiculado, onde, para qual público e com qual finalidade durante esse período?

A coincidência com o calendário eleitoral não significa dizer que houve uso eleitoral de dinheiro público. Contudo, autoriza a cobrança por transparência sobre a finalidade dos gastos. Especialmente diante do salto registrado em apenas dois meses e justamente em um período marcado por baixa atividade legislativa.

A redação de A TARDE informa que recebeu novas denúncias envolvendo outros contratos da Câmara Municipal de Salvador. O material segue em apuração e poderá ser objeto de reportagens futuras.

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