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IMPÉRIO DO CRIME

Chefe do Jogo do Bicho, deputado preso e favorito à reeleição: a trajetória de Binho Galinha

A trajetória de Binho Galinha, que tem reeleição encaminhada mesmo preso há 11 meses

Leo Almeida
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| Atualizada em
Binho Galinha foi preso em outubro de 2025
Binho Galinha foi preso em outubro de 2025 - Foto: Reprodução
Eleições 2026

A história política e policial de Feira de Santana ganhou contornos de um robusto romance policial nos últimos anos, tendo como epicentro a ascensão de Kleber Cristian Escolano de Almeida, o Binho Galinha. Dono de um império do crime estruturado na Princesinha do Sertão, o grupo criminoso sob sua liderança possui raízes que se estende desde a década de 1990, mas encontrou sua consolidação definitiva no ano de 2013.

A trajetória do parlamentar mistura a exploração do submundo com a conquista de cargos eletivos, desafiando os limites entre a criminalidade organizada e a representação institucional na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba).

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Investigações conduzidas com base em relatórios sigilosos obtidos pelo portal A TARDE apontam que a organização criminosa comandada por Binho Galinha movimentou mais de R$ 290 milhões, englobando cobranças violentas de dívidas, compras de bens móveis e imóveis e complexos repasses financeiros internos.

O A TARDE Destaque desta semana conta a trajetória de Binho Galinha (Avante), o deputado estadual baiano, que, apesar de preso, tem a projeção de ser um dos candidatos mais bem votados do estado neste ano e mostrou o elo próximo entre a política e as organizações criminosas.

Quem é Binho Galinha?

Kleber Cristian Escolano de Almeida tem 46 anos e é deputado estadual de primeiro mandato. Ele é natural de Milagres, mas passou boa parte da vida em Feira de Santana. O apelido de “Binho Galinha” surgiu logo após ele se mudar para a Princesinha do Sertão e trabalhar como entregador de um abatedouro de galinhas.

Na cidade o deputado também trabalhou como ajudante, carroceiro e pintor até se tornar empresário dono de um ferro velho chamado “Tend Tudo” em 2006. Binho Galinha começou a vida política durante a pandemia, quando passou a fazer ações de caridade em comunidades e realizar entregas de quentinhas para pessoas em situação de rua.

Com a atração de seguidores e apoiadores crescendo em Feira de Santana, ele chamou a atenção de caciques locais do partido Patriota, que o convidaram para disputar a eleição de 2022 para o cargo de deputado estadual. Binho Galinha foi o único da legenda a ser eleito, recebendo cerca de 49,8 mil votos.

Agora, após quatro anos, o parlamentar se encontra preso e é acusado pelo Ministério Público da Bahia (MPBA) de chefiar uma milícia na cidade de Feira de Santana desde 2013. Mesmo detido, Binho Galinha foi convidado a ingressar no Avante, segundo partido com mais prefeitos na Bahia, e, caso dispute o pleito, tem sua reeleição encaminhada. O Avante é o partido do deputado federal Pastor Sargento Isidorio e na Bahia é presidido pelo ex-deputado Ronaldo Carletto.

O marco de 2013: morte de "Dainho" e o monopólio da Paratodos

Não há uma menção exata para a entrada do deputado na organização criminosa, mas de acordo com a apuração do MPBA obtida pelo portal A TARDE, o ponto de virada na consolidação de Binho Galinha no crime ocorreu em 1 de março de 2013. Naquela madrugada, um empresário de 39 anos foi morto no município de Feira de Santana após ser atingido por 12 tiros.

Oldair José da Silva Mascarenhas, vulgo "Dainho", bicheiro que operava o jogo do bicho na região, estava em um bar no bairro de Santa Mônica quando quatro homens chegaram em duas motocicletas e dispararam contra ele.

Até então, a exploração das bancas clandestinas era operada por Dainho. Com sua execução, o monopólio e a exclusividade do jogo do bicho — autodenominado PARATODOS — foram entregues diretamente a Binho Galinha, conforme apontamentos da Polícia Federal. A partir daí, estruturou-se uma rede criminosa altamente estável e compartimentada.

Cartelas com resultados do jogo do bicho da organização criminosa obtido pela investigação do MPBA
Cartelas com resultados do jogo do bicho da organização criminosa obtido pela investigação do MPBA - Foto: Acervo pessoal

Jogatina

Para entender mais sobre os crimes que seriam comandados por Binho Galinha, é preciso conhecer a origem da prática. O jogo do bicho surgiu no Rio de Janeiro em 1893, idealizado pelo Barão de Drummond, mas possui seus registros na Bahia foram reportados pelo jornal A TARDE, em julho de 1913. Na época, a prática já era tratada como fonte de renda das organizações criminosas e enfrentava forte repressão policial.

Na capa do dia 29 de julho de 1913, o jornal tratou Salvador como um “paraíso da jogatina”, com a prática do jogo do bicho, deixando de ocupar os “esconderijos saturnos” para ser realizado em praças públicas. Na época, as jogatinas eram realizadas em locais como a Praça da Sé, na Baixo dos Sapateiros, Cidade Baixa e na região de São Pedro.

Apesar de ser considerado crime desde 1941, o jogo do bicho ainda continua ativo. A prática já está profundamente integrado ao imaginário popular baiano por meio de uma lógica que associa palpites, intuição, sonhos e acontecimentos cotidianos a animais específicos

Capa do Jornal A TARDE
Capa do Jornal A TARDE - Foto: 29/07/1913 | Cedoc A TARDE

PARATODOS

Especificando a atuação da organização que passou a ser comandada por Binho Galinha, de acordo com o pesquisador e professor da Universidade de Salvador (UniFacs), Jair Nascimento Júnior, que realizou uma dissertação sobre a atuação do jogo do bicho na Bahia, a PARATODOS surgiu em junho de 1990. Na época, ela como uma empresa sem registro legal, criada para gerir a atividade de forma monopolista em Salvador e Lauro de Freitas.

A estrutura foi diretamente inspirada em uma organização de mesmo nome que já operava de forma monopolista há mais de 20 anos em Fortaleza, no Ceará. Membros da então organização dos bicheiros, liderada por Luiz Carlos Teles de Lima (1957-1991), viajaram para a capital cearense para entender o modelo e, ao retornarem, batizaram a nova empresa de PARATODOS em homenagem à pioneira do Ceará.

Primeira menção ao PARATODOS no Jornal A TARDE ocorreu com a morte do líder do jogo do bicho
Primeira menção ao PARATODOS no Jornal A TARDE ocorreu com a morte do líder do jogo do bicho - Foto: 12/01/1991 | Cedoc A TARDE

Na Bahia, conforme o pesquisador, a organização opera como uma "rede virtualizada", o que significa que ela não possui fronteiras rígidas ou uma estrutura física centralizada que possa ser facilmente desmantelada pela polícia. Os cambistas atuam de maneira móvel ou em pontos informais como calçadas e botequins, garantindo que o jogo esteja presente "em todos os lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum" .

Desde sua criação, a PARATODOS também estruturou uma forte rede de benefícios. Ela oferece atendimento médico e odontológico gratuito, auxílio funeral e salários superiores aos de mercado para seus trabalhadores formais e informais. Assim, a organização se consolidou em bairros populares, principalmente nas grandes cidades do estado.

A engrenagem do império: Núcleos de atuação

Segundo a operação da Polícia Federal (PF), com a chegada de Binho Galinha organização desenvolveu divisões claras para operar frentes como usura (agiotagem), jogo do bicho, receptação qualificada e lavagem de capitais:

  • Liderança Central: Binho Galinha exercia o comando direto e absoluto de todas as frentes de negócios ilícitos, controlando percentuais de comissão e autorizando as execuções.
  • Núcleo Intermediário e Familiar: Composto por sua companheira, Mayana Cerqueira da Silva, e seu filho, João Guilherme, atuavam na gerência das apostas, controle de cobranças e lavagem de dinheiro.
  • Núcleo de Receptação: Empresas como o ferro-velho Tend Tudo Ltda.(gerenciado por Mayana) serviam de fachada para introduzir autopeças e cargas roubadas no mercado lícito.
  • Núcleo Armado (Milícia Privada): Formado em sua maioria por policiais militares da ativa da Bahia – como Jackson Macedo Araújo Júnior, o "Macaco", Josenilson Souza da Conceição e Roque de Jesus Carvalho, o "Roque Xinha”.
Exposição gráfica da organização criminosa
Exposição gráfica da organização criminosa - Foto: Acervo pessoal

Esses agentes desviavam de suas funções para garantir a segurança da família de Binho e realizar cobranças coercitivas. O parlamentar mantinha em sua agenda contatos de mais de 120 policiais civis e militares. Em mensagens interceptadas, a postura de coerção e terror ficava evidente nas cobranças de agiotagem e taxas de extorsão a comerciantes:

Diálogos entre capangas de Binho Galinha na Organização Criminosa em junho de 2023
Diálogos entre capangas de Binho Galinha na Organização Criminosa em junho de 2023 - Foto: Acervo pessoal

Expansão patrimonial, fazendas e o "Posto São Jorge"

Ao longo dos anos seguintes, a organização expandiu sua ocultação de bens. Em 2018, foi constituída a empresa Posto São Jorge Ltda., sofrendo uma elevação abrupta de capital em 2021 de R$ 50 mil para R$ 450 mil. Paralelamente, o grupo ocultava patrimônio em semoventes, registrando rebanhos extensos em fazendas na região de Brejões, adquiridas por meio de lavagem de capitais e sem declaração ao fisco.

Fotografia do Posto de Binho Galinha registrada em novembro de 2023
Fotografia do Posto de Binho Galinha registrada em novembro de 2023 - Foto: Acervo pessoal

Deputado e líder

O ápice político ocorreu em dezembro de 2022, quando Binho Galinha foi diplomado Deputado Estadual pela Bahia. Mesmo exercendo o mandato parlamentar, as investigações comprovaram que ele permaneceu na liderança ativa da organização criminosa, subordinando operadores que dependiam de seu aval direto.

A queda: Operações policiais

A reação do Estado se intensificou a partir de dezembro de 2023 com a deflagração da Operação El Patrón, que apreendeu armamentos de uso restrito nas residências do deputado. A ação resultou na prisão preventiva do filho e da esposa de Binho Galinha, mas o parlamentar não sofreu medidas cautelares em razão da imunidade parlamentar.

Primeira operação contra Binho Galinha ocorreu em 8 de dezembro de 2023
Primeira operação contra Binho Galinha ocorreu em 8 de dezembro de 2023 - Foto: 08/12/2023 | Cedoc A TARDE

Os familires do deputado foram soltos e passaram a cumprir prisão domiciliar, mas, devido à continuidade das atividades da organização criminosa, voltaram a ser presos em abril de 2024. Posteriormente, foram liberados para cumprir prisão domiciliar mais uma vez.

Em 3 de outubro de 2025, Binho Galinha foi preso em Feira de Santana após se apresentar ao Ministério Público da Bahia (MP-BA), na esteira da Operação Estado Anômico, que também prendeu sua esposa, Mayana, e seu filho, João Guilherme.

A queda: derrota judicial

A derrocada judicial definitiva avançou em 9 de julho de 2026, quando a Juíza de Direito Márcia Simões Costa, da Vara Criminal de Feira de Santana, julgou a ação penal procedente. Binho Galinha foi condenado 36 anos e 9 meses de detenção por posse ilegal de armas de uso permitido.

O julgamento sobre as acusações de organização criminosa, lavagem de dinheiro, agiotagem, extorsão e crimes de jogos de azar ainda está sob fase de audiência de instrução. O caso está sob a tutela da própria Márcia Simões Costa e ainda não tem previsão de finalização.

O futuro eleitoral sob o crivo da Justiça

Apesar de recolhido ao sistema prisional, Binho Galinha filiou-se ao Avante em abril de 2026 e consolidou-se como favorito para a sua reeleição, tendo sua principal base eleitoral em Feira de Santana.

Consultado pelo portal A TARDE, o advogado eleitoral Vagner Cunha explicou que a elegibilidade técnica do parlamentar permanece pendente de trânsito em julgado colegiado. No momento, a candidatura de Binho Galinha não é tratada como ilegal, permitindo a reeleição do parlamentar.

"Ele ainda não está inelegível, a inelegibilidade vai surgir quando essa decisão do juízo for confirmada pelo Tribunal de Justiça. Como o colegiado não tomou uma decisão até o dia 15 de agosto, ele ficou apto para homologar a candidatura", detalhou o especialista.

Enquanto o Ministério Público Eleitoral protocolou pedidos de impugnação de sua candidatura, a situação segue sem definição. Independente do resultado na justiça e nas urnas, a trajetória de Binho Galinha está marcada como um dos episódios mais marcantes do país, mostrando a relação mais próxima que o imaginável entre o crime organizado e os corredores do poder político na história recente da Bahia.

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