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Governo Temer selou a Reforma Trabalhista, alteração mais profunda na CLT em décadas

FIM DA ERA DILMA

Herança Reformista: como os 2 anos de Michel Temer redesenharam as bases do Brasil

Gestão, à época, concentrou esforços na recuperação da confiança econômica

Governo Temer selou a Reforma Trabalhista, alteração mais profunda na CLT em décadas - Foto Alex Ferreira | Câmara dos Deputados

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Rodrigo Tardio
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Dez anos após o afastamento definitivo de Dilma Rousseff, as marcas do impeachment de 2016 ainda ecoam na política brasileira. O processo, concluído em 31 de agosto daquele ano, retirou a petista do Palácio do Planalto após meses de embate no Congresso e nas ruas.

Nesta reportagem especial, o portal A TARDE revisita os momentos decisivos que levaram à queda da primeira mulher presidente e as consequências que moldaram o Brasil atual. O episódio marcou a história do país como um dos períodos mais conturbados da era democrática.

A entrada de Michel Temer na Presidência

Michel Temer, até então vice-presidente e articulador central do governo, ascendeu ao poder sob o lema da "Ponte para o Futuro". O plano era claro: austeridade fiscal e reformas profundas para estancar a sangria da recessão.

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Uma década depois, seu biênio no Palácio do Planalto é consolidado como um divisor de águas. Em apenas dois anos, o emedebista imprimiu uma agenda agressiva de ajuste fiscal, priorizando o controle inflacionário, a queda dos juros e a retomada da confiança dos mercados após o colapso econômico do período anterior.

O presidente Michel Temer discursando durante agenda presidencial em dezembro de 2018
O presidente Michel Temer discursando durante agenda presidencial em dezembro de 2018 | Foto: Cesar Itiberê | PR

Como o teto de gastos impactou a economia brasileira

Considerada a "âncora" do governo Temer, a Emenda Constitucional 95 congelou os gastos públicos por 20 anos, permitindo apenas o reajuste pela inflação (IPCA). O objetivo foi estancar o crescimento da dívida pública e recuperar a confiança de investidores estrangeiros.

Entre junho de 2016 e março de 2018, os indicadores macroeconômicos apresentaram uma mudança drástica sob a gestão do Banco Central.

A taxa Selic, que estava em patamares elevados para conter a crise, despencou de 14,25% para 6,50%. No mesmo rastro, a inflação oficial (IPCA) recuou de 9,32% para 2,76%, permitindo uma folga no poder de compra e no custo do crédito.

Mudança na economia mexe com Saúde e Educação

Se por um lado ajudou a controlar a inflação e reduzir a taxa básica de juros (Selic) na época, por outro, especialistas apontam que a medida asfixiou investimentos em Saúde e Educação, limitando a capacidade do Estado de expandir serviços públicos essenciais diante do crescimento populacional.

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Reforma Trabalhista

Uma das mudanças promovidas pelo então presidente Michel Temer (MDB) mexeu com os direitos dos trabalhadores CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

No Executivo, Temer realizou a chamada Reforma Trabalhista, considerada amaior desde a criação em 1943. O governo argumentou que a modernização criaria milhões de empregos ao reduzir o "custo Brasil".

Com isso, as convenções coletivas passaram a ter força de lei, podendo se sobrepor ao que diz a CLT em diversos pontos. O fim do imposto sindical obrigatório enfraqueceu financeiramente os sindicatos.

Houve a criação do contrato onde o trabalhador passaria a receber apenas pelas horas efetivamente trabalhadas, ficando à disposição da empresa.

Em relação a divisão de férias, houve a possibilidade de parcelar o descanso em até três períodos.

O desemprego cedeu lentamente, mas houve um salto na informalidade e na precarização do trabalho. Muitos brasileiros viram os rendimentos estagnarem enquanto perdiam garantias como o pagamento de horas de deslocamento (in itinere).

O resumo das mudanças depois da reforma:

  • Férias: Até 3 períodos;
  • Imposto Sindical: Facultativo;
  • Acordo Coletivo: Pode prevalecer sobre a CLT em vários itens;
  • Demissão: Introduziu a demissão por acordo mútuo.

Lei da Terceirização Ampla

Antes dessa lei, empresas só podiam terceirizar atividades secundárias, como limpeza e segurança. Temer sancionou a permissão para a terceirização da atividade-fim.

O argumento favorável foi que daria maior agilidade e especialização para as empresas, aumentando a competitividade.

Temer sancionou a permissão para a terceirização da atividade-fim
Temer sancionou a permissão para a terceirização da atividade-fim | Foto: Evaristo Sá/AFP

Já o argumento contrário apontava o risco de "pejotização", ou seja, transformar funcionários em empresas prestadoras de serviço sem direitos previdenciários e redução média dos salários, já que terceirizados costumam ganhar menos que contratados diretos.

Reforma do Ensino Médio

Originalmente a proposta veio via Medida Provisória, a reforma alterou a estrutura escolar, criando os "itinerários formativos". Com isso, o aluno passou a escolher uma área de foco:

  • Linguagens;
  • Matemática;
  • Ciências da Natureza;
  • Ciências Humanas;
  • ou Ensino Técnico, além de prever o aumento da carga horária para o ensino integral.

Houve forte resistência estudantil, com ocupações de escolas em todo o país. Críticos apontavam que a reforma aprofundou a desigualdade, pois escolas com menos recursos não conseguiriam oferecer todos os itinerários, limitando a escolha do aluno da rede pública.

Protesto de estudantes pela revogação do Novo Ensino Médio.
Protesto de estudantes pela revogação do Novo Ensino Médio. | Foto: Fernando Frazão | Agência Brasil

Investigações

Apesar do fôlego econômico, a estabilidade política de Temer foi constantemente posta à prova. O ex-presidente foi alvo de duas denúncias da Procuradoria-Geral da República (PGR) por obstrução de Justiça e envolvimento em esquemas de corrupção na Petrobras.

Em ambas as ocasiões, o governo conseguiu barrar o prosseguimento das investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) através de votações na Câmara dos Deputados.

Além disso, a gestão foi marcada pelo inquérito do Decreto dos Portos, onde a Polícia Federal apurou se a empresa Rodrimar teria sido beneficiada por um decreto presidencial.

Temer, junto a aliados como Rodrigo Rocha Loures, negou veementemente qualquer irregularidade, sustentando que as acusações eram infundadas.

Fora, Temer e resistência política

A gestão de Temer foi uma prova de resistência política. Apesar da base sólida no Congresso, o governo enfrentou oposição ferrenha das ruas, simbolizada pelo coro do movimento "Fora, Temer" que ecoava em capitais de todo o país.

A pressão não vinha apenas da militância política, mas de uma sociedade desgastada pela crise e por escândalos que atingiram o Palácio do Planalto, como o episódio da JBS.

Essa rejeição persistente transformou o governo em uma "presidência de gabinete", onde o sucesso nas reformas estruturais contrastava com o isolamento popular e a necessidade constante de negociações parlamentares para evitar o afastamento.

O Brasil 10 anos depois

Dez anos depois, o Brasil que emergiu do impeachment de 2016 ainda vive sob as coordenadas traçadas no biênio Temer. Entre o pragmatismo das reformas e a cicatriz da polarização, o legado daquele período permanece vivo nas regras fiscais que regem o orçamento e nas leis que ditam as relações de trabalho.

Mais do que uma sucessão de nomes no poder, a década que separa a queda de Dilma Rousseff revela um país que ainda tenta equilibrar a busca por estabilidade econômica com o clamor por justiça social, provando que as pontes para o futuro continuam sendo construídas, ou reformadas, a cada novo ciclo democrático.

"Esta reportagem faz parte de uma série de matérias especiais sobre os 10 Anos do Impeachment, produzido pela editoria de Política do Portal A TARDE"

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