Dez anos após o afastamento definitivo de Dilma Rousseff, as marcas do impeachment de 2016 ainda ecoam na política brasileira. O processo, concluído em 31 de agosto daquele ano, retirou a petista do Palácio do Planalto após meses de embate no Congresso e nas ruas.
Nesta reportagem especial, o portal A TARDE revisita os momentos decisivos que levaram à queda da primeira mulher presidente e as consequências que moldaram o Brasil atual. O episódio marcou a história do país como um dos períodos mais conturbados da era democrática.
A entrada de Michel Temer na Presidência
Michel Temer, até então vice-presidente e articulador central do governo, ascendeu ao poder sob o lema da "Ponte para o Futuro". O plano era claro: austeridade fiscal e reformas profundas para estancar a sangria da recessão.
Uma década depois, seu biênio no Palácio do Planalto é consolidado como um divisor de águas. Em apenas dois anos, o emedebista imprimiu uma agenda agressiva de ajuste fiscal, priorizando o controle inflacionário, a queda dos juros e a retomada da confiança dos mercados após o colapso econômico do período anterior.

Como o teto de gastos impactou a economia brasileira
Considerada a "âncora" do governo Temer, a Emenda Constitucional 95 congelou os gastos públicos por 20 anos, permitindo apenas o reajuste pela inflação (IPCA). O objetivo foi estancar o crescimento da dívida pública e recuperar a confiança de investidores estrangeiros.
Entre junho de 2016 e março de 2018, os indicadores macroeconômicos apresentaram uma mudança drástica sob a gestão do Banco Central.
A taxa Selic, que estava em patamares elevados para conter a crise, despencou de 14,25% para 6,50%. No mesmo rastro, a inflação oficial (IPCA) recuou de 9,32% para 2,76%, permitindo uma folga no poder de compra e no custo do crédito.
Mudança na economia mexe com Saúde e Educação
Se por um lado ajudou a controlar a inflação e reduzir a taxa básica de juros (Selic) na época, por outro, especialistas apontam que a medida asfixiou investimentos em Saúde e Educação, limitando a capacidade do Estado de expandir serviços públicos essenciais diante do crescimento populacional.
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Reforma Trabalhista
Uma das mudanças promovidas pelo então presidente Michel Temer (MDB) mexeu com os direitos dos trabalhadores CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
No Executivo, Temer realizou a chamada Reforma Trabalhista, considerada amaior desde a criação em 1943. O governo argumentou que a modernização criaria milhões de empregos ao reduzir o "custo Brasil".
Com isso, as convenções coletivas passaram a ter força de lei, podendo se sobrepor ao que diz a CLT em diversos pontos. O fim do imposto sindical obrigatório enfraqueceu financeiramente os sindicatos.
Houve a criação do contrato onde o trabalhador passaria a receber apenas pelas horas efetivamente trabalhadas, ficando à disposição da empresa.
Em relação a divisão de férias, houve a possibilidade de parcelar o descanso em até três períodos.
O desemprego cedeu lentamente, mas houve um salto na informalidade e na precarização do trabalho. Muitos brasileiros viram os rendimentos estagnarem enquanto perdiam garantias como o pagamento de horas de deslocamento (in itinere).
O resumo das mudanças depois da reforma:
- Férias: Até 3 períodos;
- Imposto Sindical: Facultativo;
- Acordo Coletivo: Pode prevalecer sobre a CLT em vários itens;
- Demissão: Introduziu a demissão por acordo mútuo.
Lei da Terceirização Ampla
Antes dessa lei, empresas só podiam terceirizar atividades secundárias, como limpeza e segurança. Temer sancionou a permissão para a terceirização da atividade-fim.
O argumento favorável foi que daria maior agilidade e especialização para as empresas, aumentando a competitividade.

Já o argumento contrário apontava o risco de "pejotização", ou seja, transformar funcionários em empresas prestadoras de serviço sem direitos previdenciários e redução média dos salários, já que terceirizados costumam ganhar menos que contratados diretos.
Reforma do Ensino Médio
Originalmente a proposta veio via Medida Provisória, a reforma alterou a estrutura escolar, criando os "itinerários formativos". Com isso, o aluno passou a escolher uma área de foco:
- Linguagens;
- Matemática;
- Ciências da Natureza;
- Ciências Humanas;
- ou Ensino Técnico, além de prever o aumento da carga horária para o ensino integral.
Houve forte resistência estudantil, com ocupações de escolas em todo o país. Críticos apontavam que a reforma aprofundou a desigualdade, pois escolas com menos recursos não conseguiriam oferecer todos os itinerários, limitando a escolha do aluno da rede pública.

Investigações
Apesar do fôlego econômico, a estabilidade política de Temer foi constantemente posta à prova. O ex-presidente foi alvo de duas denúncias da Procuradoria-Geral da República (PGR) por obstrução de Justiça e envolvimento em esquemas de corrupção na Petrobras.
Em ambas as ocasiões, o governo conseguiu barrar o prosseguimento das investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) através de votações na Câmara dos Deputados.
Além disso, a gestão foi marcada pelo inquérito do Decreto dos Portos, onde a Polícia Federal apurou se a empresa Rodrimar teria sido beneficiada por um decreto presidencial.
Temer, junto a aliados como Rodrigo Rocha Loures, negou veementemente qualquer irregularidade, sustentando que as acusações eram infundadas.
Fora, Temer e resistência política
A gestão de Temer foi uma prova de resistência política. Apesar da base sólida no Congresso, o governo enfrentou oposição ferrenha das ruas, simbolizada pelo coro do movimento "Fora, Temer" que ecoava em capitais de todo o país.
A pressão não vinha apenas da militância política, mas de uma sociedade desgastada pela crise e por escândalos que atingiram o Palácio do Planalto, como o episódio da JBS.
Essa rejeição persistente transformou o governo em uma "presidência de gabinete", onde o sucesso nas reformas estruturais contrastava com o isolamento popular e a necessidade constante de negociações parlamentares para evitar o afastamento.
O Brasil 10 anos depois
Dez anos depois, o Brasil que emergiu do impeachment de 2016 ainda vive sob as coordenadas traçadas no biênio Temer. Entre o pragmatismo das reformas e a cicatriz da polarização, o legado daquele período permanece vivo nas regras fiscais que regem o orçamento e nas leis que ditam as relações de trabalho.
Mais do que uma sucessão de nomes no poder, a década que separa a queda de Dilma Rousseff revela um país que ainda tenta equilibrar a busca por estabilidade econômica com o clamor por justiça social, provando que as pontes para o futuro continuam sendo construídas, ou reformadas, a cada novo ciclo democrático.
"Esta reportagem faz parte de uma série de matérias especiais sobre os 10 Anos do Impeachment, produzido pela editoria de Política do Portal A TARDE"
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