DENÚNCIA
Ponte centenária em Lençóis sofre erosão e Iphan aciona prefeitura
Construção integra acervo arquitetônico e paisagístico tombado pelo órgão federal



O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) acionou a Prefeitura de Lençóis, na Chapada Diamantina, após receber denúncia sobre erosão na ponte de pedra sobre o Rio Lençóis. A construção integra o acervo arquitetônico e paisagístico tombado pelo órgão federal na cidade.
Assinado pelo superintendente do Iphan na Bahia, Hermano Guanais e Queiroz, o documento foi remetido ao gabinete da prefeita Vanessa Senna no último dia 31 de julho.
Alerta
O alerta original partiu do morador Evilásio Santos, que formalizou a queixa em 16 de julho acompanhada de fotos da estrutura — a única via que conecta o centro histórico ao restante do município.
O munícipe apontou o desgaste provocado pelas cheias constantes na base de sustentação da ponte centenária. Os registros mostram pedras desgastadas, finas e com fissuras aparentes, o que motivou o pedido por uma vistoria preventiva antes que os danos se agravem.
A queixa foi examinada no último dia 27 de julho pela chefe da Divisão Técnica do Iphan, Larissa Souza. Em despacho, a técnica sugeriu que a prefeitura fosse questionada sobre a existência de um laudo recente de estabilidade estrutural.
Leia Também:
Perícia
Caso a gestão local não possua o documento, o Iphan recomendou a contratação de uma perícia especializada, com Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), para elaborar um plano de recuperação que deverá passar pela aprovação do órgão.
No ofício enviado à prefeita, o Iphan anexou o material fotográfico, reforçou que qualquer intervenção na estrutura depende de autorização prévia da autarquia e se colocou à disposição para orientar a gestão municipal na preservação do patrimônio.
Tombado pelo Iphan em dezembro de 1973, o centro histórico de Lençóis reúne 570 imóveis que preservam a memória do auge da mineração de diamantes no século XIX, figurando entre os dez conjuntos protegidos pelo órgão no estado da Bahia.
O que diz a Prefeitura
A reportagem procurou a prefeita de Lençóis, Vanessa Sena (PSD), a qual em nota ao portal A TARDE, informou que a gestão teve conhecimento do problema na ponte a 8 dias. A gestora municipal disse ainda que, no mesmo dia contratou uma empresa para fazer avaliação para possíveis reparos e que tudo indica ser algo muito simples.
Vanessa Sena diz que vai estar encaminhando ao IPHAN essa avaliação para ter a autorização do órgão para os devidos reparos, e que todas as medidas estão sendo tomadas e não há nenhum risco de desmoronamento na ponte.
Diversidade religiosa
Em um marco histórico para o reconhecimento da diversidade religiosa afro-brasileira, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou o tombamento federal do Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, situado em Lençóis, na Chapada Diamantina.
A chancela foi concedida no dia 26 de novembro, durante a 111ª reunião do Conselho Consultivo do órgão, garantindo proteção definitiva ao espaço e consolidando-o como símbolo de resistência e riqueza cultural da população negra.
A decisão preserva o templo de Jarê mais antigo em atividade no país contra intervenções arbitrárias, demolições ou destruição. A partir de agora, qualquer obra de restauração ou alteração no local dependerá de autorização prévia do Iphan.
“Trata-se de um bem cultural de excepcional valor histórico, simbólico e espiritual, cuja materialidade e ambiência expressam a permanência e a vitalidade de uma tradição afro-brasileira singular”, afirmou a relatora do processo, Desiree Ramos Tozi.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, classificou o ato como um "reparo histórico" e uma prioridade da atual gestão, destacando a profundidade da herança de matriz africana na Bahia.
O Jarê e a trajetória do terreiro
Típico da Chapada Diamantina — com forte presença em municípios como Andaraí e Lençóis —, o Jarê surgiu a partir da vivência de mulheres nagôs escravizadas. Elas aliaram rituais privados em idioma iorubá ao culto público aos caboclos, conduzido em português. A união dessas duas manifestações litúrgicas no mesmo ambiente deu forma ao Jarê contemporâneo.
Fundado em 1949 por Pedro Florêncio Bastos (conhecido como Pedro de Laura), o Palácio de Ogum desafia a tradição local: em geral, os terreiros de Jarê encerram as atividades após o falecimento de seus fundadores.
Atendendo a um pedido do próprio Pedro de Laura, contudo, a comunidade manteve a casa aberta. O espaço também é carinhosamente chamado de "casa do Capivara", em alusão ao rio que passa nas proximidades.
Arquitetura integrada à natureza
A relevância do local ultrapassa a longevidade. O pedido de tombamento começou em 2007, por iniciativa da própria comunidade do terreiro, sublinhando a integração entre a estrutura construída e o ecossistema ao redor.
Em uma área de aproximadamente 3,7 mil metros quadrados, o espaço reúne:
Conjunto edificado: incluindo o pagodô (galpão principal para as cerimônias) e o caramanchão destinado aos exus.
Elemento natural e sagrado: mata nativa, árvores de valor ritualístico (como a gameleira), pedras e nascentes que compõem o ecossistema espiritual da religião.


