VAI DOER NO BOLSO?
Tarifaço dos EUA: consumidor brasileiro vai pagar mais caro? Entenda
Especialista explicou ao A TARDE como medida pode afetar a economia brasileira


O novo tarifaço de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entrou em vigor nesta quarta-feira, 22, mas a medida não significa que o consumidor brasileiro passará a pagar automaticamente mais caro pelos produtos no mercado interno.
A cobrança é aplicada sobre mercadorias brasileiras vendidas ao mercado norte-americano. Na prática, o impacto inicial recai sobre empresas exportadoras, que passam a enfrentar um custo maior para comercializar seus produtos nos Estados Unidos.
Em entrevista ao A TARDE, o consultor e professor de economia Antonio Carvalho explicou que os efeitos do tarifaço na economia do Brasil podem aparecer caso a medida reduza a competitividade dos produtos brasileiros no exterior e provoque uma queda significativa nas exportações.
Segundo ele, apesar de alguns produtos importantes para a economia brasileira terem sido excluídos da medida, milhares de itens industriais, de consumo e commodities passarão a enfrentar uma tributação maior nas exportações para os Estados Unidos.
Entre os setores que podem ser afetados estão:
- Siderurgia e metais: aço e alumínio semiacabados;
- Maquinário e indústria: máquinas agrícolas, tratores, equipamentos de mineração e transformadores elétricos;
- Agronegócio e alimentos: etanol, açúcar e mel comum;
- Celulose: papel, celulose solúvel (utilizada em tecidos), painéis de madeira e pisos laminados;
- Bens de consumo: calçados e vestuário têxtil;
- Pescados específicos: camarão e lagosta viva.
“Os produtos desses setores se tornarão mais caros para o importador e, consequentemente, para o consumidor norte-americano, resultando na queda das importações dos produtos brasileiros [queda nas exportações]”, disse o professor, alertando para um impacto estimado de até US$ 11 bilhões na economia brasileira.
Como isso pode chegar ao consumidor brasileiro?
O principal risco apontado pelo economista não está em uma cobrança direta no preço dos produtos no Brasil, mas nos possíveis impactos sobre empresas que dependem das vendas para os Estados Unidos.
Caso as exportações diminuam, setores produtivos podem reduzir a fabricação, afetando investimentos e empregos.
“No curto prazo, teremos efeitos danosos na produção, pois, com a redução das exportações, as indústrias e setores produtivos deverão reduzir a produção, podendo resultar no aumento da taxa de desemprego e na quantidade de dinheiro que continua circulando na economia”, explicou Antonio Carvalho.
Na prática, uma empresa que vende parte da sua produção para os Estados Unidos pode enfrentar dificuldades se perder compradores por causa do aumento de custos. Com menos vendas, pode haver necessidade de ajustes na produção.
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Saída depende de negociação e novos mercados
Para o professor Antonio Carvalho, os próximos passos dependerão da capacidade do Brasil de negociar uma solução com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, ampliar suas relações comerciais com outros países.
Segundo ele, a estratégia é reduzir a dependência do mercado norte-americano, buscando novos compradores para os produtos brasileiros e fortalecendo parcerias já existentes.
“No longo prazo, o Brasil precisará buscar, ao mesmo tempo, uma solução diplomática por meio da negociação com os Estados Unidos e a abertura de novos mercados ou o fortalecimento das relações comerciais já existentes, para reduzir a dependência das exportações para o mercado americano.”
Entenda: por que os EUA aplicaram tarifa sobre produtos brasileiros?
A nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros foi adotada pelo governo de Donald Trump após uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana.
Segundo o governo norte-americano, o Brasil adota “práticas comerciais desleais” que prejudicariam empresas e trabalhadores dos Estados Unidos.
Entre os pontos citados pelo USTR está o funcionamento do Pix. O órgão afirma que o Banco Central brasileiro teria criado, por meio do sistema de pagamentos, uma estrutura que favoreceria a concentração do mercado de pagamentos no país.
Na avaliação dos Estados Unidos, essa atuação reduziria a competitividade de empresas americanas de cartões e outros serviços de pagamento que atuam ou pretendem atuar no mercado brasileiro.

Guerra comercial e a Lei da Reciprocidade
O Brasil possui a Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao governo retaliar e taxar produtos americanos que entram no Brasil.
No entanto, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e a equipe econômica do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinalizaram cautela e decidiram não retaliar imediatamente para evitar que uma disputa resulte em inflação interna mútua.


