FESTA
Chapéus, clones e protestos: personagens tomam a Lavagem de Itapuã
Festa acontece em Salvador, e revela histórias, símbolos e figuras inusitadas que transformam o cortejo

A Lavagem de Itapuã acontece nesta quinta-feira, 5, em Salvador, e volta a transformar as ruas do bairro em um grande cenário de fé, tradição e encontros inesperados.
Com 121 anos de história, que serão completados em 2026, a celebração reúne cerca de 40 atrações, entre blocos e fanfarras, que começam a desfilar a partir das 2h, atraindo moradores, turistas e personagens que acabam se tornando parte central da festa.
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O início do cortejo é marcado pelo Bando Anunciador, que percorre as ruas do bairro cantando louvores em direção à Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã.
A chegada da alvorada é saudada com queima de fogos e seguida pela tradicional lavagem das escadarias da igreja, feita pelas baianas, um dos momentos mais simbólicos da manifestação religiosa e cultural.
Um chapéu que carrega histórias e protestos
Entre os personagens que chamam atenção no cortejo está Paulo Cezar, frequentador da Lavagem de Itapuã há mais de duas décadas. “Eu conheço a lavagem daqui há mais de 20 anos. É uma lavagem boa, maravilhosa. É uma festa de paz, uma festa de amor.”
Acompanhando o ritmo da festa desde cedo, ele conta como começa o dia. “A gente sai cedo. Eu cheguei na Igreja da Conceição da Praia por volta das seis horas da manhã e seguimos de lá até aqui. Está tudo tranquilo, tudo de boa.”

O chapéu que ele usa durante o percurso vai além do figurino e se torna um símbolo pessoal. “Falando um pouco sobre mim, isso aqui é uma motivação. Muito antes de existirem essas campanhas contra a violência, contra bater em mulher, eu já usava meu chapéu na cabeça como um símbolo. Mulher não é para apanhar, mulher é para conviver, respeitar e amar. Quando não dá certo, cada um segue seu caminho.”
Segundo Paulo, o gesto nasceu ainda na juventude. “Isso surgiu quando eu tinha 18 anos. Hoje eu tenho 59. Naquela época, quando vocês nem tinham nascido, não existia nada disso que existe hoje.”
Ele relembra um momento pessoal marcante. “Quando eu tinha uns 18, 19 anos, uma amiga minha, que foi minha namorada, me deixou muito abalado. A partir disso, comecei a usar o chapéu e a me posicionar. Naquela época, eu fazia isso sozinho.”
Ele também destaca que a expressão sempre encontrou resistência. “E naquele tempo era mais difícil. Assim como as mulheres sofrem discriminação e violência, quem usava qualquer coisa diferente na cabeça também era discriminado.”
Para Paulo, identidade e cor também fazem parte dessa manifestação. “E sou uma pessoa de cor também. Isso tudo faz parte. É um show de cores, de identidade, de expressão, e isso é o que eu acho mais bonito.”
Morador de Lauro de Freitas, Paulo mantém uma relação constante com a festa. “Todo ano eu venho, todo ano eu estou aqui. Em toda lavagem eu estou presente. A gente tem que prestigiar toda lavagem.”
O chapéu, segundo ele, também representa um protesto mais amplo. “É um protesto, porque a gente não é ferido só pelas mulheres. A gente é ferido pela vida, pelos amigos, pela política, pela situação da vida, pela família, por tudo. Isso é um protesto.”
Há ainda o recorte religioso. “Esse chapéu também é um protesto contra a discriminação religiosa. Eu sou de matriz africana, eu sou da macumba. E até hoje, em muitos lugares, ainda existe preconceito. Tenho colegas que discriminam. Então, isso aqui é um protesto.”
Um clone que vira atração no cortejo
Outro personagem que se destaca nos flagras da Lavagem de Itapuã é Perminio Carvalho Neto, conhecido como Bel O Clone, que circula pelo cortejo caracterizado como o cantor Bel Marques.
“Para você ter uma ideia, já são 43 anos me caracterizando nesse estilo Bel Marques. Tudo começou quando as pessoas diziam: ‘você parece com o Bel Marques’. Hoje, estou ainda mais parecido.”

A reação do público, segundo ele, é imediata. “É muito calor humano. As pessoas chegam com abraço, beijo. É algo muito emocionante, muito gratificante.”
Apesar da experiência em outras festas, a participação em Itapuã é inédita. “Por incrível que pareça, esta é a minha primeira vez na Lavagem de Itapuã. Já participei de outras lavagens e do Carnaval, mas em Itapuã é a primeira vez.” A expectativa é positiva. “Estou começando agora e acho que vai esquentar, com certeza, porque a Bahia é diferenciada.”
Festa segue até segunda-feira
Em 2026, a Lavagem de Itapuã homenageia a Ekedi Teresa Alves de Souza, do terreiro Ilê Axé Oyá Demim, de Lauro de Freitas, e o músico, pescador e fundador do Afoxé Korin Nagô, Ulisses dos Santos, de 84 anos.
A programação segue até a segunda-feira, 9, com shows na sexta-feira, 6, e no sábado, 7, às 20h, e no domingo, 8, às 18h, no palco montado na Rua do Tamarineiro. O encerramento será dedicado ao ritual de entrega dos presentes a Iemanjá, mantendo viva uma tradição que também se revela nos personagens que atravessam o cortejo e dão novos significados à festa.
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